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Como eu Esqueci a Guerra Civil Espanhola e Aprendi a Amar a Anarquia

[tradução da introdução do livro Anarchy in the age of Dinosaurs, Curious George Brigade]

Parece que o Verão finalmente chegou; Eu estive enfurnado neste apartamento trabalhando nesse livro por tempo de mais! Só agora percebi que nós nunca terminamos nossa conversa sobre a Guerra Civil Espanhola: aquele momento revolucionário quando anarquistas estiveram tão perto de criar uma nova sociedade pela qual não valesse a pena somente morrer, mas também viver.

Nossas conversas pareciam durar para sempre. Você me explicava o que tinha acontecido antes, os mínimos detalhes das milícias e coletivos, resistência e solidariedade, tudo. Eu sempre pensei nesse momento como “o mais perto que nós chegamos”, que loucura pensar nas possibilidades que eles tiveram! Como nós poderíamos não mitologizar lutas de lugares distantes como a Espanha e fantasiar como seria lutar em uma revolução de verdade ?

Eu percebo hoje, olhando pras páginas desse livro, que eu não ligo a mínima pra Guerra Civil Espanhola. Não quero dizer que foi um momento pouco importante na história, mas lendas sozinhas não são mais o suficiente pra mim. Eu não penso neles como os “verdadeiros” anarquistas comparados aos “anarquistas de segunda classe” como nós nos vemos. Nós precisamos viver e lutar contra o que enfrentamos hoje. Os anarquistas da Espanha revolucionária provavelmente iriam preferir que nós enfrentassemos nossa própria luta hoje, ao invés de passarmos tanto tempo discutindo a deles! Os anarquistas espanhóis não eram nada mais que gente comum, e eles fizeram exatamente o que nós faremos quando tivermos a oportunidade. Nosso coletivo vem trabalhando nesse livro por mais de um ano, essas são as nossas palavras para anarquia de hoje. Eu espero que você goste.

O que você tem em mãos não é um livro tradicional. Pense nele mais como um DNA de biblioteca ou um par de alicates de cortar arame. Em outras palavras: uma provocação. Livros sobre “política” normalmente tem um propósito específico e ensaios escritos de maneira direta, aos quais é esperado que você rapidamente defenda ou ataque sem piedade alguma. Se eles são bem sucedidos, segundo nos dizem, os autores vão ganhar apoio de uma facção em particular ou ser descreditados por outra que é competidora. Nós queremos algo diferente, abrindo tantas perguntas quanto respostas. Pense nisso mais como uma coleção de observações de campo escritas por um antropologista renegado que pôs fogo em seus diplomas para viver na floresta e escalar arranhacéus. Além de assombar as infoshops da nação, nós temos gravado as profecias resmungadas por vendedores de falafel nas esquinas, escrito poesias de amor disfarçadas de política, e vivendo políticas disfarçadas de amor-poesia. Nós somos anarquistas que cultivamos nossa resistência no coração do império americano. Essa é nossa pequena contribuição das comunidades de resistência que alimentaram nossas esperanças e nutriram nossas ambições.

Quando você fecha um livro, você acabou com ele. Você pode sepultar ele em sua estante ou, se realmente é algo precioso, doa-lo para um amigo. Não deixe esse livro apodrecer em uma estante. Dõe ele, deixo-o em uma parada de ônibus vazia para ser encontrado por um estranho ou use-o para te manter aquecido nas noites frias. A única maneira de se livrar desse livro é o incendiando.

Big brick energy

Publiado originalmenye por Unity and Struggle.

1. Introdução

O levante de George Floyd (2020) foi um evento enorme, independente da medida que se use para calculá-lo. Ele aprofundou a revolta geracional da população negra, ciclo que começou com o Black Lives Matter em 2014. Marcando o mais profundo desafio ao controle capitalista e racista desde a crise financeira de 2008. Vimos a Guarda Nacional sendo acionada em múltiplas cidades dos EUA pela primeira vez desde os anos 60, e numa estimativa informal, podemos considerar a onda de revolta civil mais cara do período pós-guerra. 1 O levante foi rico em lições, e marcou uma geração dos nossos, que tomaram as ruas.

Mas uma análise rigorosa do levante permanece limitada. Muitos de nós não tiveram tempo de refletir profundamente: indivíduos e organizações precisaram contornar a repressão estatal, disputas sectárias internas, violências interpessoais de recorte de gênero e raça, e todo tipo de tragédias derivadas da pandemia ainda em curso. Com frequência, grupos de amigos e camaradas chegaram a conclusões tiradas de experiências locais, e comentaristas à esquerda escreveram editoriais sobre temas específicos do levante, ou os manipularam para corresponder a seus dogmas.

Big Brick Energy dá um passo além das evidências anedóticas e das polêmicas. Por um ano, quadros do Unity and Struggle estudaram o levante entrevistando quinze camaradas em cinco cidades, analisando a cobertura jornalística das mesmas cidades, e monitorando relatórios oficiais de governos locais e departamentos de polícia em quinze cidades espalhadas pelo país.(Para saber mais sobre nossos métodos, veja o Apêndice A). Nós encontramos dinâmicas comuns em diferentes locais, identificamos táticas e estratégias que o movimento e a classe dominante utilizaram, exploramos o que funcionou ou não, e destacamos importantes desafios e questões que um futuro levante possivelmente encontrará.

No geral, o levante envolveu uma sequência comum de momentos se desenrolando em velocidades e intensidades diferentes, baseados em tendências nacionais e pontos de virada locais. Quando a rebelião estourou, ela decisivamente venceu a polícia e paralisou a classe dominante local, normalmente por vários dias. As pessoas se lançaram em ondas de protestos e saques, e táticas improvisadas que foram da autodefesa comunitária a zonas autônomas temporárias. Diferentes facções do estado (assim como vigilantes racistas e fascistas) reagiram de maneira confusa, mas eventualmente se mantiveram entre a repressão e a cooptação que serviu para conter a revolta. O movimento foi conduzido ao protesto não violento e reformas legislativas, o que rendeu ganhos muito mais rasos do que a maioria de nós almejava.

Dentro desta história existem muitas variações e nuances, e lições a serem aprendidas. Abaixo destacamos aspectos do levante que repercutiram em nossas táticas, estratégias, e políticas raciais.

Escritório da Polícia de Portland, Protesto do North Precinct, 23 de Agosto. Foto por David Geitsgey Sierralupe (flickr)

2. Descobertas Táticas

Entre 15 e 26 milhões de pessoas participaram do levante em quase 550 cidades e distritos ao redor dos EUA.2 Apesar da diversidade de experiências envolvidas, um grupo similar de táticas parece ter emergido na maioria das áreas.

a. Com o que se parece a espontaneidade das massas

No auge do levante, no fim de Maio e começo de Junho, as massas foram capazes de evadir e vencer a polícia. Manifestantes preferiram evitar a polícia, mantendo-os afastados com pequenas barricadas e fogo. Mas se provocados, eles respondiam arremessando objetos, praticando de-arrest [NT1], forçando a polícia a abandonar seus veículos e então os destruindo. Imagens de carros de polícia em chamas deram coragem para outros manifestantes, assim como o assalto a terceira delegacia de Minneapolis em 28 de Maio.

Nós descobrimos que autoidentificados esquerdistas raramente lideraram protestos ou marchas nos primeiros dias do levante. Uma publicação nas redes sociais de uns poucos militantes, estudantes, artistas, ou mesmo de um indivíduo já era o suficiente para reunir uma multidão, e uma vez reunida, multidões tendem a tomar iniciativas próprias. Inúmeros camaradas relembram a primeira vez que viram os autointitulados “organizadores” liderando com megafones, uma visão incomum no começo. Um camarada observou que, manifestantes sem ligação com grupos específicos, quando decidiam seguir um megafone era pela clareza da sua mensagem (baseada em política, com uma crítica ao sistema) e quando eles propunham rotas que faziam sentido e mantinham as pessoas seguras.

Participantes gravitaram em torno de papéis intuitivos e replicáveis. Ciclistas escoltaram as marchas, avaliando o terreno e bloqueando o tráfego. Pessoas levaram coolers e distribuíram lanches, ou latas de spray para pichar palavras de ordem. Portland desenvolveu um sistema tático especialmente radical durante os embates da “linha de frente” no Justice Center, após Trump ordenar o envio de agentes federais. Lá, os manifestantes começaram usando bandanas molhadas, mas após encontros com munições de pimenta, flashbangs, e granadas de gás lacrimogêneo “triple chasers” [NT2], adotaram o uso de máscaras de gás e escudos caseiros. Riot Ribs, um grupo mantido através de doações, distribuiu comida grátis e serviu como um lugar onde as multidões noturnas podiam lavar o gás lacrimogênio de seus rostos 3 . Trabalhando ao lado dessa atividade de massa, esquerdistas desempenharam um papel fundamental mantendo infraestruturas especializadas tais como médicos de rua (veja seção 2b). Mais do que grupos puxando marchas e palavras de ordem, as pessoas que disponibilizavam suporte material se tornaram as forças mais confiáveis no local: como disse um camarada, “eles tinham a confiança de todos”.

Os saques também se espalharam de forma indiscriminada, e desenvolveram táticas próprias. Uma vez que a polícia de determinada cidade estivesse ocupada, as comunidades estavam livres para saquear no vácuo de poder. Encontrar um alvo geralmente era tão simples quanto encontrar uma multidão e se unir a ela. Os saques eram noticiados nas redes sociais tanto de esquerdistas quanto públicas. No Bronx, as pessoas podiam seguir a pé os holofotes dos helicópteros da polícia para encontrar os pontos mais ativos. Em Philly, Minneapolis, e muitas outras cidades, surgiram caravanas de saqueadores: pessoas dirigiam até pontos onde saques estavam sendo reportados, encontrando outros e formando grupos com dúzias de veículos que viajavam entre shoppings. Alguns times desenvolveram um método com dois carros, com um dirigindo à frente, esmagando fachadas de lojas, e o outro seguindo atrás, liberando os produtos.

Onde o levante durou mais tempo e mais enfraqueceu o estado, duas táticas que emergiram, nos oferecem um breve olhar sobre o poder dual: ocupações e autodefesa comunitária. Essas táticas sugerem como futuros levantes podem se dar, enquanto também revelam os desafios estratégicos mais amplos que eles podem encontrar (veja seção 3).

As ocupações foram desde acampamentos de sem-teto reivindicando moradia, a acampamentos liderados por ONGs progressistas se opondo as verbas da polícia, até zonas autônomas relativamente espontâneas que floresciam conforme a polícia fugia. Nós vimos três exemplos do último caso, todas formadas em locais de violência policial: George Floyd Square em Minneapolis, no local onde Floyd foi assassinado, CHOP/CHAZ (Capitol Hill Organized Protest/Capitol Hill Autonomous Zone) em Seattle, e em Rayshard Brooks Peace Center ou o Wendy [NT3] ocupado em Atlanta, onde Brooks foi assassinado logo após Floyd.

Todas as ocupações ofereceram oportunidades vibrantes para alimentação, oficinas, apresentações e obras de arte abertas ao público. Ao contrário das assembleias gerais do Occupy ou da comunidade liderada por indígenas em Standing Rock, a liderança nessas ocupações era em grande parte informal, às vezes baseada em pertencimento local ou racial. Todos enfrentaram ataques de direita ou rumores sobre eles (e às vezes, visitas exploratórias de boogaloo boys), bem como a violência que se espalhava dos conflitos em suas comunidades vizinhas. As autoridades usaram tiroteios e mortes nas ocupações para enquadrá-los como ameaças à segurança pública. No entanto, nossos camaradas acreditam que esses incidentes muitas vezes eram consequência de conflitos comunitários preexistentes, do tipo que infelizmente são comuns, mas que geralmente são ignorados.

Em todas as zonas autônomas surgiram dúvidas sobre como e por quem, as decisões seriam tomadas, por exemplo, nos debates sobre entrar na delegacia de polícia abandonada em CHOP/CHAZ. As autodeclaradas equipes de segurança também foram um desafio, às vezes misturando armas com drogas ou álcool, ou tomando suas próprias decisões em conversas com autoridades externas. Na Praça George Floyd, um grupo de segurança chamado Agape colaborou com o governo municipal para desbloquear as ruas para o trânsito. No Wendy ocupado em Atlanta, a liderança informal veio da família e da comunidade de Rayshard, e após boatos de ataques de supremacistas brancos e assédio por repórteres hostis, pessoas não negras e repórteres de todas as raças foram frequentemente impedidos de entrar. Mas quando uma garota negra de oito anos chamada Secoria Turner foi morta por uma bala perdida durante um conflito em um posto de controle próximo, a ocupação começou a desmoronar. Eventualmente todas as zonas autônomas terminaram através de uma mistura de repressão estatal e contradições internas.

Em Minneapolis, onde a polícia sofreu as derrotas mais profundas e abandonou as ruas, grupos de autodefesa comunitária também surgiram em toda a cidade. Estes se formaram por uma variedade de razões com uma gama correspondente de políticas: para defender pequenos comércios, resolver problemas da comunidade e oferecer uma alternativa à polícia, ou manter postos de controle e manter o tráfico de drogas afastado, que haviam sido deslocados do centro para os bairros racializados.4 Alguns eram formados somente por pessoas pretas, outros somente por brancos, e ainda outros multirraciais. Alguns estavam armados e outros não. Enquanto alguns grupos de defesa eram liderados por ativistas de longa data, outros eram formados por punks, grupos de alcoólicos anônimos, veteranos da Guerra do Iraque, ou membros proeminentes da comunidade negra. A formação desses grupos exigia simplesmente coordenar caminhadas noturnas ou barricadas e, se necessário, trazer armas. Mas apoiá-los trazia desafios sobre como abordar questões comunitárias, e como se relacionar com o sistema 911 e o governo municipal.

  • Principais Descobertas
  • As revoltas envolvem um leque de campos táticos, incluindo marchas ou saques, conflitos contínuos da “linha de frente” com a polícia e barricadas ou acampamentos. Podemos assumir uma série de papéis nestes cenários, sempre com o objetivo básico de defender uns aos outros do estado ou dos fascistas e potencializar a ação de outros.

  • Os comícios, os cartazes, as palavras de ordem e as marchas não serão importantes no início de uma revolta, mas podem se tornar mais comuns. Liderar estes tipos de ações envolve demonstrar uma compreensão da causa e do propósito do movimento, e propor alvos significativos, sem esquecer de avaliar os riscos.
  • Em revoltas futuras, os movimentos podem novamente assumir o controle de pequenos territórios libertos. Estes provavelmente se tornarão alvos para reacionários, bem como centros de mediação de conflitos sociais em nossas comunidades. Os desafios táticos mais urgentes serão protegê-los de ataques, resolver conflitos que se desdobram no local e como as decisões serão tomadas e estabelecer critérios de participação.

  • A segurança armada ou autodefesa pode ser inevitável, dadas as ameaças que as revoltas enfrentam. Para evitar a deslegitimação do Estado e a cooptação, e evitar a violência interna, será necessário definir uma conduta aceitável para estes papéis e a quem eles devem prestar contas.

b. Contribuições da esquerda

No auge da revolta, alguns esquerdistas tentaram se organizar com comícios, cartazes e megafones. Estes métodos foram em grande parte perdidos com o aumento da espontaneidade. Mas outros procuraram formas de apoiar materialmente a ação de rua. Algumas vezes isso envolvia simplesmente a distribuição de suprimentos, como lasers para dificultar a vigilância policial, ou a popularização de princípios de lutas internacionais, como o slogan dos protestos de Hong Kong, “seja água”. Em Nova York, os camaradas compartilharam táticas defensivas, como encorajar as pessoas a não filmarem umas as outras, ou mover equipes de ciclistas para proteger as marchas. Pessoas que se envolveram em ondas de conflito anteriores foram capazes de detectar e disseminar táticas emergentes rapidamente, assim, difundindo entre a multidão, práticas que de outro modo permaneceriam entre um pequeno grupo.

Manifestantes de esquerda também mantiveram infraestruturas especializadas que outros poderiam usar ou aderir. Camaradas em muitas cidades forneceram a localização em tempo real de marchas ou viaturas policiais para audiências no Twitter ou Telegram, ajudando as multidões a se agruparem e evitando as barreiras policiais. Na Filadélfia, os organizadores criaram “casas seguras” onde amigos podiam descansar, receber notícias e monitorar os canais da polícia. Em muitas cidades, os fundos de fiança preexistentes também foram inundados com doações e voluntários, transformando-se em grandes organizações que pagando por fianças, enviando itens básicos, e dando apoio jurídico às pessoas libertas. Em Portland, os médicos de rua eventualmente adquiriram sua própria ambulância, abastecida por profissionais da saúde que expropriaram materiais no trabalho. Infraestruturas como estas permitiram que manifestantes cansados ou feridos apoiassem outras formas e ajudaram a sustentar a revolta ao longo do tempo. Mas eles também poderiam cair sobre um núcleo isolado de esquerdistas se não conseguissem incorporar rapidamente novos participantes.

Organizações beneficentes e partidos de vanguarda apoiaram-se em táticas familiares, como die-ins [NT4], reuniões com políticos, comícios com oradores e marchas para renderem boas fotos. Estas ações poderiam levar a cenas dramáticas, como quando o prefeito de Minneapolis Jacob Frey foi vaiado e precisou abandonar uma assembleia, por se opor a abolição da polícia. Mas elas também poderiam prejudicar a capacidade do povo de enfrentar o Estado. Na Filadélfia, o Party for Socialism and Liberation (Partido pelo Socialismo e Liberdade) repetidamente conduziu as multidões para longe da polícia para impedir confrontos, enquanto brigavam com os manifestantes para posicionar suas bandeiras sempre à frente das ações. Inócuas no início, essas táticas ganharam força à medida que a revolta atingiu os limites e organizações e pessoas menos radicais começaram a dirigir os eventos (ver seção 3).

Organizações reformistas também apresentaram propostas de políticas que diminuíram a escala da exigência de “abolição da polícia” para “redução de verbas”, enquanto em diálogo com o estado para cortar orçamentos em X por cento, fechar X prisões, contratação emergencial de conselheiros de saúde mental, e assim por diante 5 A esquerda teve dificuldade em avançar por essa frente e pressionar por mudanças mais radicais durante o auge da revolta.Em Nova York, quando o VOCAL-NY convocou um acampamento na prefeitura, exigindo um corte de US$ 1 bilhão no orçamento da polícia, os abolicionistas e socialistas que participaram lideraram suas próprias assembleias para compartilhar experiências e exigir cortes mais profundos. Fazer exigências ao Estado, foi compreendido por alguns manifestantes como uma forma de assegurar ganhos concretos de suas ações. Mas isso também poderia deslegitimar a militância de rua e reforçar as narrativas liberais de progresso.

  • Descobertas Chave
  • No auge de uma revolta, há pouca necessidade de organizar comícios e marchas. Em vez disso, devemos trabalhar para popularizar métodos práticos de luta que possam ser adotados de forma autônoma em escala massiva, e identificar novos métodos à medida que eles surgirem.
  • Infraestruturas especializadas podem proporcionar “consciência situacional” nas ruas, cuidados médicos ou apoio através do sistema carcerário. Elas ajudam a manter as revoltas, mas também podem reforçar o isolamento dos grupos de esquerda. Devemos usar esses momentos para acolher novas pessoas e fazer crescer nossas infraestruturas de forma sustentável.
  • Quando a ação de rua está em alta, as forças vigentes são paralisadas. À medida que a atividade de rua morre, as versões menos radicais de nossas demandas e objetivos ganham uma audiência. Isto sugere que devemos gerar demandas de massa quando uma revolta está em seu auge, e fazê-las circular para estabelecer um polo político se e quando a atividade se extinguir.  

c. Como a polícia respondeu

Relatórios oficiais confirmam o que todos nós vimos: os números, o alcance geográfico, a combatividade, a flexibilidade e a relativa falta de liderança da revolta dominaram quase todos os departamentos policiais do país durante cerca de uma semana (ver Anexo B). Examinando como a polícia foi superada, identificamos vulnerabilidades que podemos explorar em futuros levantes. Muitos departamentos de polícia utilizam um procedimento padrão para gerenciar protestos não violentos e outro para deter a criminalidade, e a revolta tornou ambos impraticáveis. Sem líderes destacados, a polícia não tinha pontos de contato para fazer cooptação preventiva. Quando se aproximaram de grupos na rua para identificar ligações, foram recebidos com hostilidade. Quando tentaram prender participantes individuais da revolta, encontraram uma mistura confusa de câmeras, palavras de ordem, e autodefesa violenta. Quando as unidades foram invadidas ou cercadas, a SWAT foi enviada para libertá-las. Os veículos deixados para trás foram saqueados e queimados. (Multidões em Cleveland, Los Angeles, e muitas outras cidades saquearam armas de mão de veículos da polícia. Em Chicago, algumas pessoas encontraram armas longas, e levaram somente a munição). Ao recusar a divisão entre protestos pacíficos legítimos e atos criminosos ilegítimos, a revolta confundiu o livro de regras da polícia.

A polícia também sofreu falhas operacionais devido à escala da revolta. Muitos departamentos colocaram em campo toda sua força, muito além das equipes especializadas que normalmente gerenciam os protestos, e unidades combinadas que raramente colaboravam e não possuíam treinamento de controle de multidões. Sem nenhum plano para sustentar destacamentos 24/7, os policiais foram levados à exaustão em turnos sem fim. Quando a polícia chamou as agências estatais ou a Guarda Nacional para apoio, os problemas se multiplicaram. Muitas agências não tinham acordos permanentes para compartilhar munições e equipamentos, o que atrasava o recebimento de gás lacrimogêneo e equipamentos de choque. Faltava também o uso comum de diretrizes de força, levando a esforços desarticulados que minavam uns aos outros.

Centros de comando de emergência foram criados para coordenar a repressão, gerando seus próprios problemas. O fluxo intenso de informação acabou confundindo as viaturas nas ruas. Muitas vezes os comandos não processavam informações recebidas, levando os outros agentes a serem inundados com informações irrelevantes, ou então deixados no escuro. Em Los Angeles, os oficiais à paisana normalmente passam informações para os comandantes no local: agora eles enviavam informações para um centro de comando responsável por toda a cidade e essas informações se perdiam, não eram reenviadas para os policiais próximos. E, sem líderes de protesto com os quais estabelecer contato, os comandos muitas vezes dependiam de redes sociais para saber dos próximos protestos e identificar suspeitos.6 (As jurisdições em centros de informações já estabelecidos eram mais eficazes).

Os próprios centros de comando acabaram por se tornarem uma desvantagem. Em Santa Mônica, a polícia montou um centro de comando dentro de um prédio normal da polícia, local para onde as manifestações da cidade acabaram por convergir. Um tijolo quebrou a janela da sala de onde se coordenava as atividades policiais, o departamento foi forçado a realocar toda sua coordenação de operações para uma cidade vizinha. Abastecer os oficiais em campo com alimento, água e munição também exigiu a preparação de espaços e linhas de abastecimento, e entregas em veículos do tipo “carro de golfe”. Mas como os comandos não tinham “consciência situacional” de onde ocorreriam os protestos, muitas vezes estabeleceram estas infraestruturas em locais vulneráveis. Em muitas cidades, as marchas ou barricadas desencorajaram o reabastecimento e impediram os oficiais de se deslocarem para cumprir suas ordens.

No decorrer dos dias a polícia conseguiu se adaptar e recuperar certa efetividade tática. Em Minneapolis, os manifestantes marcharam até a delegacia do quinto distrito na noite seguinte à queima da delegacia do terceiro distrito, mas a esta altura o Centro de Comando Multi-Agências do estado estava operacional, e uma mistura de oficiais locais e estaduais e tropas da Guarda Nacional conseguiram deter uma multidão hesitante. Em muitas cidades, o toque de recolher permitiu à polícia aumentar a repressão, e reimpor violentamente a distinção entre protesto sancionado e protesto ilegítimo. Em áreas que não haviam presenciado nenhum saque, o toque de recolher também serviu para uma função de propaganda ao espalhar o medo de que “os desordeiros estavam chegando”. Conforme a polícia ganhava a vantagem tática, os atores do estado e da classe dominante podiam começar a experimentar estratégias de longo prazo para dividir e cooptar a revolta.

  • Descobertas Chave
  • Para controlar os movimentos, a polícia precisa fazer distinções práticas entre manifestantes legítimos e ilegítimos. Para evitarmos que isso aconteça, devemos recusar a nos comunicarmos com representantes da polícia e os impedir de prenderem os manifestantes mais militantes.
  • Entre revoltas, devemos lutar para impedir ou anular acordos entre agências de inteligência, centros de fusão ou outras colaborações entre agências de repressão. Isto prejudicará a capacidade do Estado de reprimir futuros levantes e criminalizar comunidades racializadas.
  • Quando as revoltas estão no auge, devemos identificar e divulgar a localização dos centros de comando policial, áreas logísticas sensíveis e veículos de abastecimento. Protestos nesses espaços podem manter o estado taticamente desequilibrado. 

Manifestantes confrontam a polícia em frente a um supermercado Target, em Midway, St Paul, Minessotta. foto por Lorie Shaull (flickr)

3. Descobertas Estratégicas

a. Como saber quando as coisas vão pegar fogo

É crucial reconhecer quando as pessoas começam a se mover de uma maneira nova. Isto nos permite avaliar com precisão o potencial do momento e contribuir de forma significativa. Mas pode ser difícil saber quando algo está prestes a emergir. Constantemente vemos injustiças e protestos: por que um assassinato específico causado pela polícia provoca tanta revolta, e outros não? Aprendemos também a subestimar os acontecimentos. Quanto mais vemos os abusos passarem sem uma resposta, mais recuos e derrotas sofremos, mais inclinados estamos a observar tudo com cinismo.

Os primeiros dias do levante nos mostraram sinais pelos quais devemos estar atentos, sinais que podem nos indicar que uma ruptura maior está surgindo. Quase todos os nossos camaradas perceberam que 2020 seria diferente quando viram as pessoas responderem a táticas comuns de controle de multidões com uma combatividade extraordinária. Se tornava óbvio quando viaturas ou delegacias eram incendiadas. Mas já era visível mesmo nas primeiras manifestações em protesto ao assassinato de Floyd, ou nas semanas anteriores. Em Nova York, centenas de jovens haviam participado de campanhas de protestos “FTP” (“Fuck the police”, Foda-se a polícia) durante os meses anteriores, e camaradas também notaram uma inquietação crescente durante a pandemia: as pessoas se percebiam como essenciais e com direito a proteções, mas perderam a confiança nos serviços estatais, e ocasionalmente lançaram pequenas greves no local de trabalho contra condições inseguras.

Vários camaradas argumentaram que esta nova combatividade seria o reflexo de uma nova consciência. Os manifestantes chegaram há 2020 com o entendimento de que a polícia era um inimigo e que uma maior militância era justificada. Em Minneapolis, este senso comum foi construído em protestos anteriores contra assassinatos cometidos pela polícia (Jamar Clark, Philando Castile): as pessoas haviam observado ondas anteriores e absorvido suas normas e expectativas. À medida que os protestos proliferavam, também sentiam que ações distantes estavam criando oportunidades para eles próprios agirem, e vice-versa. Havia a sensação geral de que “esta é nossa oportunidade”.

  • Principais Descobertas
  • Quando as pessoas exibem um aumento drástico em ações militantes contra ações ordinárias de repressão, demonstram um novo senso comum construído por experiências anteriores, e alinham suas chances de sucesso com pessoas agindo em outros locais, uma ruptura pode estar em andamento.
  • A melhor maneira de perceber isso é participarmos (no mínimo) como observadores nos primeiros eventos, e ter relacionamentos com o maior número possível de diferentes comunidades. Assim podemos avaliar o ânimo do povo e projetar o quanto a revolta irá se ampliar.

b. Como o estado se partiu


Nós derrotamos o Estado não apenas fisicamente, mas também politicamente. Enquanto em algumas áreas os policiais eram atacados abertamente, mais frequentemente eles se retiravam para evitar confrontos. Onde a Guarda Nacional foi destacada, ela assumiu uma postura de suporte / defesa e tentou evitar confrontos diretos. O toque de recolher facilitou a repressão, mas também foi aplicado de forma inconsistente, e desencadeou violência policial que foi então denunciada por outras autoridades. Estas respostas contraditórias refletiram a paralisia de governadores, prefeitos e conselhos municipais, que hesitaram ao enfrentar uma situação impossível de se vencer. Se eles permitissem que os protestos continuassem, poderiam sofrer perdas, mas se optassem por reprimir todo tipo de protesto, poderiam desencadear uma reação imprevisível. No espaço aberto pela indecisão e recuo da classe dominante, o movimento conseguiu avançar: controlando território, expropriando bens, popularizando a abolição.

Postos na defensiva, diferentes partes do estado improvisaram respostas contraditórias entre si, e o próprio estado começou a se fraturar. Alguns políticos ecoaram a ameaça de Trump de declarar estado de emergência, enquanto outros tentaram se posicionar como aliados do movimento. Os departamentos de polícia em muitas cidades tiveram que parar de postar nas redes sociais; não apenas por causa dos trolls, mas também, de forma crucial, porque sua narrativa colidiu com a dos políticos liberais locais. Algumas cidades contiveram a polícia mesmo quando ordenaram que ela reprimisse. Em Portland, o conselho municipal proibiu o gás lacrimogênio, o que dificultou a capacidade da polícia de dispersar multidões sem se expor a ataques físicos. Em Minneapolis, os membros do conselho municipal prometeram desativar o departamento de polícia.

Ao mesmo tempo, as fileiras da polícia estavam de “sem coleira”. O vigilantismo mais difundido envolvia a retirada das patrulhas das ruas e a aplicação de explosões de extrema violência. Em Minneapolis, os policiais abandonaram as ruas e rondaram em furgões sem identificação, disparando spray de pimenta ao acaso e raptando ao menos uma pessoa.

Em Nova York, a polícia realizou uma manifestação contra saques, com aliados da comunidade dominicana em Washington Heights, que perseguiram suspeitos de participarem dos protestos de George Floyd pelas ruas com bastões de beisebol. A Polícia de Nova York também convidou o Homeland Security (agência responsável pela segurança nacional) a se instalar em várias delegacias sem o conhecimento do prefeito (os detalhes do acordo permanecem desconhecidos), e transportou detentos pela cidade enquanto se recusavam a colaborar ou se comunicar com a assistência jurídica, efetivamente desaparecendo pessoas sob custódia.7

Tudo isso sugere que quando as lutas em massa dividem o estado, elas podem criar oportunidades para recuperar riquezas e forçar concessões que de outra forma seriam difíceis de se alcançar. Também revela tendências que podem amadurecer em revoltas futuras: paralisia das instituições, mudanças súbitas na legislação, e vigilantismo fascista por parte da polícia.

  • Principais Descobertas
  • Nosso poder não vem apenas da força física nas ruas (embora isto seja importante). Ele também deriva de nossa capacidade de colocar a classe dominante na defensiva, provocar divisões dentro do estado e tirar proveito das aberturas que surgirem.
  • Revoltas dividem o estado, fazendo com que as facções entrem em conflito e minando a eficiência e a legitimidade oficial. Estas fraturas nos permitem impor vitórias que de outra forma pareceriam improváveis ou impossíveis.
  • Levantes prolongados desencadearão ações independentes por parte das fileiras policiais, tais como táticas de “guerra suja” e coordenação com agências federais ou fascistas. Não podemos confiar em regras ou leis burguesas para conter esta repressão.

c. Como estratos de classe e constituintes se articularam

Ao pesquisar os grupos que compuseram a revolta e as formas como se moveram, conseguimos inferir tendências que podem se repetir em revoltas futuras, ou variar de acordo com as condições locais. A revolta de 2020 foi liderada por uma massa vanguardista de jovens racializados da classe trabalhadora, mas esse é apenas o começo da história.

Em todas cidades que estudamos, assim como em 2014, a ação mais militante foi liderada pelo que os camaradas descreveram como “proletários negros” ou “molecada do bairro”: majoritariamente jovens negros de origem pobre e operária, de todos os gêneros, com poucos vínculos aparentes com a esquerda institucional, que participaram de protestos e escalaram para saques e combate direto a polícia. Algumas vezes fizeram isso com a ajuda de esquerdistas insurrecionários, outras vezes não. Na Filadélfia, no centro da cidade de Brooklyn, e no Parque Centenário de Atlanta, essas lideranças de base foram responsáveis por dar início ao levante.

O levante pôde acontecer porque diferentes raças e intersecções de classe se uniram em torno deste núcleo, apoiando a luta do povo preto e a conectando com suas próprias reivindicações sobre policiamento e criminalização. As juventudes somali, de nativos indígenas e de pessoas brancas apareceram em Minneapolis, por exemplo, enquanto os meninos de rua brancos se lançaram sobre a polícia e as vitrines de lojas em Seattle. As políticas comunitárias e familiares de cada local, podem ter moldado a forma como os diferentes grupos sociais responderam. Um camarada supôs que proporcionalmente menos jovens latinos saíram em Minneapolis, devido à rigorosa supervisão familiar, enquanto muito poucos jovens Hmong [NT5] participaram, talvez por causa do recente recrutamento da polícia na comunidade Hmong. (Um policial que ajudou a matar Floyd é Hmong, o ex-oficial Derek Chauvin, sua ex-mulher, também é Hmong).


As economias locais ditaram a proporção e os tipos de lumpem nas ruas, como trabalhadores precarizados, ou estudantes e jovens trabalhadores. Camaradas viram grupos de membros de gangues protestando, e alguns testemunharam desacertos em que armas foram sacadas e mesmo alguns tiroteios, mas geralmente a unidade na luta prevalecia. Os profissionais liberais também participaram de protestos e até do levante, incluindo trabalhadores de ongs, funcionários de serviços jurídicos e professores. Um camarada usou o auxílio desemprego e o auxílio do governo para participar da revolta em tempo integral, enquanto outro “deu log out do trabalho” durante algumas semanas. Geralmente, quanto mais “alto” o status de classe de um grupo, mais multirracial e não-preto ele era, e mais autoconscientemente ativista.

Quando os saques se espalharam para além das marchas em direção aos bairros ou regiões periféricas, permitiu que a revolta desse um salto em escala. Isto foi quase sempre iniciado por comunidades negras ou latinas pobres e trabalhadoras; dos bairros e subúrbios. Os saques eram frequentemente mais intergeracionais e comunitários do que os protestos. Os jovens geralmente se posicionavam quebrando o que fosse preciso, enquanto mães e filhas expropriavam juntas as mercadorias. Um camarada do Bronx viu jovens arremessando mercadorias “para as abuelas nas janelas do segundo andar”. Vários camaradas observaram que o saque também tinha uma lógica: as pessoas priorizavam os negócios parasíticos onde os pagamentos e a riqueza da classe trabalhadora desaparecem, como lojas de bebidas e lojas de penhores. A prioridade seguinte tendia a ser franquias de marcas e cadeias de lojas de luxo, e depois qualquer outra coisa.

À medida que a revolta encontrava repressão e cooptação, diferentes partes desta massa começaram a tensionar em diferentes direções. Ativistas de ongs e quadros de partido usaram ações para exigir reformas e recrutar novos membros. No processo, eles frequentemente se opunham à militância de rua, e a deslegitimavam: “é assim que fazemos a diferença, não através de tumultos”. Os círculos que permaneceram nas ruas persistiram por mais tempo com motins e saques (ver seção 4c) e às vezes se voltaram para ações direcionadas.Alguns eram explicitamente ilegais, como uma ousada série de explosões a caixas eletrônicos na Filadélfia, que durou um ano. Outros combinavam expropriações com demandas políticas: notadamente, pessoas sem teto em várias cidades aproveitaram a oportunidade para erguer acampamentos em parques da cidade e até mesmo em um hotel abandonado. Na Filadélfia e Minneapolis, estes acampamentos duraram até o outono, pois os residentes negociaram com as autoridades pela instalação de alojamentos e mudanças na legislação, muitas vezes em colaboração a esquerda.8

Pelo que podemos constatar, sindicatos não desempenharam um papel de destaque na revolta. Isto pode estar ligado a relativamente alta velocidade do levante de George Floyd, enquanto revoltas que duraram meses como a do Chile, levaram os sindicatos a convocar greves nacionais ou a negociar com o governo. No entanto, em alguns casos, ações autônomas forçaram as burocracias sindicais a apoiar a revolta. Na cidade de Nova York, um motorista de ônibus se recusou transportar manifestantes presos pela polícia, enquanto camaradas no lado de fora puxavam palavras de ordem, o que acabou forçando a TWU Local 100 a tomar uma posição de não oferecer seus serviços para a polícia. Em Minneapolis, os militantes sindicais conseguiram que seus sindicatos expulsassem a Guarda Nacional do Centro de Trabalho de St.Paul, que vinha sendo usado como infraestrutura logística.9

Os pequenos empresários e os proprietários de imóveis mudavam de discurso baseados em quem estava ganhando. Algumas vezes, estes grupos sociais apoiaram a revolta. Em Minneapolis, muitas empresas se protegeram convidando coletivos para fazerem artes políticas em suas faxadas, o que transformou visualmente a cidade. Algumas serviram como palco de protestos, ou se adaptaram para vender alimentos na George Floyd Square.

Os proprietários de imóveis, especialmente em comunidades racializadas, podiam até se opor aos saques, mas apoiavam os protestos. Um camarada da Filadélfia viu um proprietário tentar impedir a juventude de “destruir nossa própria vizinhança”, mas uma vez que a revolta se mostrou irreversível, juntar-se no confronto contra a polícia. Mas em momentos chave, estes grupos começaram a se abster da revolta. Em Minneapolis, incêndios descontrolados causaram profundo mal-estar entre os proprietários e as empresas. Saques indiscriminados também podiam afastar comunidades que estavam intimamente identificadas com seus pequenos empresários. Quando empresas de imigrantes latinos ao longo da rua Lake Street foram saqueadas em Minneapolis, um camarada sentiu que para muitos, seria um sinal de que “isso não é para nós”.

Finalmente, os trabalhadores brancos e os pequenos burgueses também mobilizaram protestos reacionários contra a revolta. Na Filadélfia, homens brancos apareceram em Fishtown com cerveja e tacos de basebal para defender as pequenas empresas, e mais tarde marcharam com armas para defender sua estátua de Cristóvão Colombo. 10 Os contraprotestos nestes locais desencadearam o que um camarada chamou de “uma guerra civil” entre pessoas brancas. Em várias cidades, fascistas organizados realizaram marchas ou patrulhas armadas (em Atlanta, na mansão do governador) com o apoio tácito da polícia. Estas ações poderiam levar à violência, como em Kenosha. Mas elas também desencadearam um golpe político em cidades como Kalamazoo, Michigan, depois que a polícia foi exposta no noticiário escoltando as marchas fascistas.

  • Principais Descobertas
  • As revoltas ganham impulso quando diferentes grupos sociais alinham suas exigências às do grupo protagonista e se juntam a ele em ação. Conforme os diferentes grupos se movimentam, eles contribuem com seus próprios repertórios de protesto, expandindo a participação da revolta, o alcance geográfico e seu significado. Devemos trabalhar para ampliar continuamente a base das revoltas.
  • A coação e a cooptação da classe dominante canaliza a resistência para a política institucional, e impõe uma nova separação. Nesses pontos de virada, ativistas profissionais e agentes políticos das ruas tenderão a seguir caminhos diferentes. Para sustentar uma revolta, temos que ajudar essas lutas a se coordenarem para que se apoiem mutuamente e para que se defendam, e não deslegitimem, a militância da classe trabalhadora negra nas ruas.
  • Os sindicatos podem ser estimulados a dar apoio prático a revolta, se os membros da classe trabalhadora negra participarem dela e levarem suas preocupações para o campo sindical.
  • Os proprietários de imóveis e pequenos empresários podem moldar a visão de uma comunidade sobre uma revolta, especialmente aqueles que compartilham laços étnicos com a classe trabalhadora da vizinhança. Em futuras revoltas, teremos que identificar quais pequenos burgueses podem influenciar partes da classe trabalhadora e considerar se, e como, devemos influenciar a ação de massa para atingir alguns bens capitalistas enquanto poupamos outros. 

d. Os limites internos encontrados pelo levante

Várias semanas após o início da revolta, o movimento começou a diminuir e ter dificuldades de encontrar caminhos para avançar. Alguns pensadores comunistas chamam isto de “limite interno”: o ponto em que os métodos, as reivindicações e os objetivos que permitiram que um movimento se elevasse não são mais adequados para sustentá-lo, e o movimento deve desenvolver novos objetivos e meios, ou então recuar.

Uma série de limites era de ordem prática. Nas cidades de todo o país, a escala da insurreição sobrecarregou a polícia. Mas a certa altura, a escala também apresentou desafios para reproduzir e sustentar a revolta. Em Nova York, cada ação normalmente coordena seu próprio apoio a eventuais prisioneiros, em um ou dois locais onde as prisões são processadas. Mas uma vez que as ações começaram a atrair centenas de pessoas e as prisões foram espalhadas pela cidade, este modelo se mostrou difícil de ser ampliado. Os ativistas agora tinham que improvisar o apoio carcerário em toda a cidade com poucas relações preexistentes. Pequenas redes de confiança lutaram para rastrear um grande número de detenções, e os locais de apoio carcerário atraíam grupos de apoiadores sem que eles fossem treinados para desempenhar papéis voluntários, ou previamente aprovados por pessoas mais experientes.

Como Minneapolis viu a maior agitação do país, ela revelou muitos desafios que grandes revoltas enfrentarão. Lá, bairros inteiros foram fechados e tiveram suas lojas saqueadas, criando enormes desertos alimentares do dia para a noite. As comunidades responderam com uma explosão de projetos de apoio mútuo e com a redistribuição de mercadorias saqueadas. Mas esses esforços ainda encontravam dificuldades para fornecer alimentos na escala necessária. Aproveitando a oportunidade, igrejas e organizações sem fins lucrativos entraram em cena; possivelmente com financiamento do governo; para circular caminhões carregados de alimentos gratuitos pela cidade durante meses. Da mesma forma, quando a polícia se retirou das ruas, grupos comunitários de autodefesa brotaram pela cidade, representando um potencial desafio de poder dual ao estado local. Mas era difícil para eles saberem da existência uns dos outros, quanto mais se coordenarem. Isto os deixou vulneráveis à paranoia e às investidas dos políticos locais. Um grupo chamado “Panteras Negras Originais” convocou uma reunião de grupos de defesa comunitária, mas esta reunião não produziu uma estrutura organizacional ou orientação comum para os políticos, a polícia e assim por diante. Estas experiências sugerem os tipos de mobilização de massa necessárias para a sustentação do poder dual: redes de distribuição de alimentos e outros auxílios (por exemplo, de áreas agrícolas vizinhas) e uma plataforma comum para a defesa comunitária autônoma.

Um segundo conjunto de limites era político. Como a revolta encontrou repressão e críticas, os participantes tiveram que justificar por que estavam lutando e esclarecer o que queriam: qual o objetivo de toda esta agitação? Para alguns, um senso de direção também diminuiu após as vitórias iniciais da revolta. Depois de fazer a polícia recuar e expropriar bens, os participantes começaram a perguntar o que viria em seguida, e que mudanças duradouras poderiam facilitar nossas vidas e dificultar a dos governantes. Como disse um camarada, “estamos marchando através de outra ponte, mas é difícil ver para onde estamos construindo”. Neste ponto, na ausência de objetivos e princípios comuns, os políticos podiam experimentar na cooptação e os oportunistas estavam livres para lançar novas iniciativas. Nesta altura a ausência de assembleias para resolver estas questões era visível: se manifestou em lugares como Seattle, onde manifestantes ocuparam o Cal Anderson Park no Capitólio, mas tiveram dificuldades para estabelecer um consenso sobre entrar ou não na delegacia abandonada, ou para que propósito o prédio seria utilizado.


Os participantes também precisaram descobrir como se relacionar uns com os outros à medida que suas diferenças se tornaram mais evidentes. Entre a esquerda organizada, divergências táticas e estratégicas poderiam levar a disputas por liderança ou desentendimento. Nas bases, desentendimentos podiam crescer a ponto de incluir intimidações com armas de fogo, o que fez com que locais como o Wendy em Atlanta se tornassem isolados e perigosos. Como os diferentes grupos sociais geralmente destacavam as questões que entendiam mais urgentes, os diferentes níveis de compromisso e riscos assumidos por diferentes participantes se tornaram nítidos, o que poderia levar a desconfiança. Um camarada, observando a desconexão entre os espectadores do bairro e os professores socialistas em marcha, e o ceticismo local em relação aos levantes multirraciais acontecendo no centro da cidade, observou: “nos fez sentir como se de repente, já não soubéssemos, com certeza, quem era o inimigo”. Estes limites sugerem a necessidade de um propósito, objetivos e princípios comuns para sustentar uma revolta, dentro da qual uma variedade de abordagens pode ser experimentada.

  • Principais Descobertas
  • Conforme um levante fratura e desloca do Estado, ele enfrentará o desafio de manter apoio médico e jurídico, de alimentos e autodefesa coletiva para se reproduzir. É neste momento em que surge o poder dual. Podemos nos preparar para estes momentos cultivando relações de colaboração, políticas comuns e métodos para envolver novos participantes, na escala de uma área metropolitana.
  • No auge de uma revolta, quando novas iniciativas estão se formando diariamente, é fundamental conectar os projetos mutuamente e ajudá-los a estabelecer organizações e orientações políticas compartilhadas.
  • Os levantes exigem meios próprios para discutir coletivamente seu significado e direção. Isto inclui decidir como responder aos movimentos da classe dominante, situar preocupações individuais ao coletivo e estabelecer objetivos comuns que enfraquecerão a classe dominante e fortalecerão nossa autonomia. Devemos criar espaços para estas discussões e oferecer nossas próprias ideias. 

e. Como a classe dominante e o estado cooptaram e contiveram o levante

A repressão só teve sucesso porque a classe dominante também convenceu algumas pessoas de que suas preocupações poderiam ser representadas e resolvidas através do Estado. Os políticos, especialmente as elites da institucionalidade em comunidades racializadas, fizeram isso ao rotular a militância como inaceitável e repreendendo os jovens de suas comunidades. Ao mesmo tempo, experimentaram maneiras de ganharem a audiência dos participantes e serem aceitos como representantes dos sentimentos da população.

Políticos surgiram ao lado da pequena burguesia organizada ou outros grupos cujo apoio poderia representar toda a comunidade: empresas, projetos distritais, igrejas, ongs locais, celebridades, e assim por diante. Várias prefeituras organizaram “mutirões de limpeza” com proprietários de pequenas empresas. Em Atlanta, o prefeito chamou um entrevista coletiva com T.I. e Killer Mike para condenar o levante.

Como observado por uma camarada, residentes geralmente aceitavam estes movimentos pois vinham de organizações que eram conhecidas na comunidade. Onde essas não existiam, políticos também ofereciam salários para elementos do lumpem, criando novas parcerias: Agape, o grupo formado por ex-membros dos Vice Lords que abriu a George Floyd Square para o tráfego de carros foi beneficiado com contratos para lidar com programas sociais para a juventude.

Políticos também propuseram reformas, que transferiram o controle sobre o ritmo dos eventos das ruas para os conselhos municipais, e ganharam tempo enquanto a militância diminuía. A proposta para diminuição dos investimentos em policiamento foram introduzidos e constantemente diluídos no início de Julho. No outono, foi introduzido uma legislação limitando as táticas policiais, ou estabelecendo conselhos civis de fiscalização. Estes projetos de lei se arrastaram por meses à medida que eram debatidos, estudados e emendados em várias audiências. O efeito foi produzir uma imagem de consulta democrática, na qual a militância poderia recuar e vozes conservadoras poderiam ganhar destaque, por exemplo, em preocupações com a violência armada. Uma emenda da Carta de Minneapolis para desmantelar a polícia foi derrotada desta forma por referendo, em novembro de 2021. Para os locais mais militantes, como grupos de autodefesa em Minneapolis ou a ocupação do Wendy em Atlanta, os políticos negociaram às portas fechadas, manipulando os participantes longe dos olhos do público. As autoridades também promoveram várias mudanças simbólicas, como a remoção de estátuas e a nomeação de mulheres racializadas como chefes de polícia.

As organizações sem fins lucrativos desempenharam um papel fundamental facilitando este processo. Enquanto algumas foram diretamente contratadas pelas prefeituras, outras simplesmente se dedicaram a repertórios familiares, usando o “calor da rua” para alcançar mudanças legislativas progressistas. Por exemplo, Black Visions em Minneapolis, liderou as primeiras reuniões que forçaram o conselho municipal a se comprometer a desarticular a polícia, dando origem a um ano de uma fracassada luta pela emenda de um estatuto. Para conduzir estas campanhas, as ongs muitas vezes tiveram que minar a militância que, de outra forma, poderia ter ajudado a forçar concessões significativas. Geralmente o faziam, apresentando-se como representantes da comunidade e apontando militantes como forasteiros, que colocariam em perigo os habitantes locais. No acampamento da VOCAL-NY na prefeitura de Nova York, os participantes saíram às ruas quando um orçamento meramente simbólico foi aprovado. Mas os funcionários da VOCAL convenceram a multidão a dispersar, alegando que as pessoas estariam “desrespeitando as mulheres negras” caso se recusassem a sair. Quase todos os camaradas tinham uma história semelhante de “policiamento pacifista” de funcionários ou membros de organizações sem fins lucrativos.

  • Principais Descobertas
  • Para evitar a formação de uma coalizão do tipo “lei e ordem”, é importante impedir que os pequenos burgueses e políticos locais se posicionem e conquistem o consenso das comunidades locais. Isto destaca a necessidade de organizações autônomas de esquerda em comunidades pobres, racializadas e da classe trabalhadora, que sejam bem conhecidas localmente, para desafiar o discurso oficial em momentos-chave.
  • Reformas desmobilizam os movimentos, controlando o ritmo dos eventos e estabelecendo os termos da participação popular. Isto sugere que temos mais chances de conquistar vitórias quando são os movimentos populares que tomam a iniciativa, impondo urgência sobre o Estado e facilitando a participação democrática de massa.
  • As organizações sem fins lucrativos ganham influência atuando como representantes das comunidades, e pressionando os políticos enquanto mantêm relações de trabalho com eles. Em contraste, devemos ajudar as pessoas a formular e expressar suas reivindicações diretamente, e reverter as relações de clientela com as elites. 

Nono dia do protesto por George Floyd, em Miami. Por Mike Shaheen (flickr)

4. Descobertas nas Políticas Raciais

A revolta por George Floyd foi tanto uma continuação quanto um salto adiante na resistência protagonizada por pessoas pretas contra violência policial e racista durante os últimos quinze anos.


A rebelião de Oscar Grant, em Oakland (2009) prefigurou muitas das características vistas em 2020, desde revoltas de jovens desafiando as elites políticas negras até o papel de contrainsurgência desempenhado por organizações sem fins lucrativos. Os protestos não violentos contra assassinatos racistas passaram a atingir uma escala nacional desde 2012, após o assassinato de Trayvon Martin. Quando o assassinato de Michael Brown em Ferguson desencadeou o movimento Black Lives Matter em 2014, os protestos saltaram em nível nacional e global, e também desencadearam revoltas em cidades americanas como Baltimore, embora estes tenham sido menos comuns. A revolta de 2020 tornou-se novamente nacional e global, de protestos na França a #EndSARS na Nigéria. 11 No entanto, neste caso, protestos violentos nos EUA também foram imediatos e generalizados.

Nós acreditamos que esta tendência reflete um senso ainda mais profundo e frequente da ilegitimidade do Estado, do enraizamento do racismo na sociedade americana, e da escala de resistência necessária para mudá-lo. A luta negra está evoluindo, e impõe desafios mais profundos ao capital. Os últimos momentos de 2020 sugerem como a prática da unidade multirracial pode surgir e as vulnerabilidades que ela terá que enfrentar, bem como as formas que a autonomia negra pode assumir e os desafios que ela, por sua vez, enfrentará.

a. O que tornou possível a unidade multirracial

Os primeiros dias da revolta foram caracterizados pela ação conjunta de uma ampla unidade multirracial. Parte disto se deve a um súbito colapso de hegemonia: com a polícia e as elites políticas incapazes de criminalizar e dividir os manifestantes, e o movimento unido contra um inimigo comum, as ruas se tornaram campo de testes para novas formas de solidariedade racial.

Essas experiências levaram a momentos engraçados. Um camarada lembrou que, quando uma multidão multirracial arrebentou janelas do CNN Center em Atlanta, um manifestante branco se juntou e os participantes começaram a cantar “go white boy, go white boy” (“vai, garoto branco, vai”) em apoio. Durante os saques na Filadélfia, um camarada branco foi abordado por vários manifestantes negros, um declarando “esta noite, somos todos cr******!” e outro anunciando “ok, todas as vidas são importantes”.

Isto foi mais fluido do que em muitas marchas anteriores, onde participantes poderiam ser moralmente encorajados a assumir papéis distintos e níveis de risco de acordo com sua posição racial (“os brancos para a frente/lados”). No auge da revolta, a solidariedade era informada por riscos mútuos em ações ilegais: aqueles dispostos a combater a polícia e saquear propriedades compartilhavam um novo tipo de pertencimento, no qual as posições raciais poderiam ser simultaneamente reconhecidas e a uniformidade entre elas, celebradas.

Unidade multirracial também pode ter sido construída com base na vida cotidiana. Um camarada de Minneapolis supôs que a solidariedade entre os jovens nas ruas pode ter sido construída por colaborações prévias dos jovens nas escolas e vizinhança, como os clubes de futebol que aproximam a juventude somali e mexicana no lado sul da cidade. A experiência das pessoas em cenários multirraciais certamente moldou como elas poderiam imaginar as potências e limites desses vínculos de solidariedade.

  • Principais Descobertas  
  • As revoltas criam espaços onde podemos simultaneamente reconhecer nossas diferentes posições raciais e práticas que as transcendem. Uma condição-chave para isso é que tomemos ações conjuntas contra o capitalismo racial e compartilhemos os riscos e responsabilidades de fazê-lo, inclusive em ações ilegais contra a polícia ou propriedade.

b. Como a divisão racial reemergiu

Por mais poderosa que fosse, a aliança multirracial era igualmente frágil. Uma vez que a classe dominante recuperou sua estabilidade, as elites políticas frequentemente usaram o espectro do branco agitador infiltrado (às vezes descrito como anarquista, às vezes fascista) para marcar a militância como uma ameaça às comunidades racializadas. Ongs frequentemente ecoavam esta retórica para se apresentarem como os verdadeiros representantes das comunidades racializadas, e únicos capazes de produzir mudanças reais. Vários camaradas observaram que este discurso distorcia a maneira como as pessoas entendiam sua própria revolta, por exemplo, chegando a acreditar que os tumultos foram iniciados por provocadores brancos.

Estas manobras influenciaram a desconfiança sobre as intenções das pessoas brancas dentro do levante. As comunidades racializadas têm um ceticismo racional quanto à confiabilidade dos brancos e uma profunda experiência com a repressão do estado baseada em gerações sob a supremacia branca. No Brooklyn, um camarada negro observou que seus vizinhos temiam que a polícia se irritasse com os manifestantes brancos no centro da cidade e se vingassem na sua comunidade após o toque de recolher. E em muitas cidades, a violência branca também era uma ameaça palpável. Uma vez que fascistas ou reacionários estivessem em movimento (ou que se acreditasse que estivessem), simplesmente não valia a pena o risco de ter pessoas brancas por perto.

Reformistas não negros, rapidamente voltaram aos protestos pacíficos e dentro da legalidade conforme o estado se mostrou mais repressivo, deixando militantes negros para lutarem sozinhos (ver seção 4c). Ansiosos para se posicionarem como aliados da população negra, eles seguiram as ongs que pediam por reformas e denunciavam ilegalidades. Esquerdistas brancos também exitaram em propor ações e ideias, as vezes cedendo espaço para reformistas oportunistas. Todas essas dinâmicas apontam para a importância de grupos revolucionários autônomos em comunidades racializadas, que estão melhor posicionadas para liderar ações militantes contra supremacistas brancos e reformistas racializados, e são capazes da guiar os termos da solidariedade vinda de pessoas brancas.

  • Principais Descobertas
  • A classe dominante mantém sua posição não somente alimentando a violência de supremacistas brancos, mas também cultivando apoio de social-democratas brancos a elites reformistas de populações racializadas, e um senso de fraqueza e isolamento entre a classe trabalhadora negra. Essas dinâmicas se baseiam em experiências reais, e exigem prática massiva de longo prazo para ser modificada.  
  • Futuras revoltas podem vir a serem fortalecidas pela construção de uma pequena mas consistente tendência de apoio de populações não negras para a militância negra, e o desenvolvimento de organizações autônomas revolucionárias em comunidades racializadas que são capazes de lutar dentro dos nossos próprios termos.

c. Protestos de Segunda Onda como autonomia racial

O enfraquecimento da unidade multirracial não significou a paralisação da militância. Em vez disso, o espírito do levante se manteve de forma mais autônoma, liderado por pessoas negras da classe trabalhadora e camadas lumpem, com apoiadores não negros em menor número e/ou mais distantes, e enfrentando maior repressão pela polícia. Vimos isso nitidamente no que chamamos “protestos de segunda onda”: predominantemente resistências negras que surgiram quando o levante se enfraquecia.

Enquanto a primeira leva de protestos ao redor do país surge em resposta a Minneapolis, algumas cidades que nós estudamos viram uma segunda rodada de protestos motivados por assassinatos cometidos pela polícia local. Em Atlanta, a polícia assassinou Rayshard Brooks três semanas após George Floyd, dando início a ocupação do Wendy. No fim de Agosto em Minneapolis, Eddie Sole cometeu suicídio enquanto fugia da polícia, e inicialmente as suspeitas eram de que ele teria sido alvejado pela polícia, o que levou a uma nova onda de saques. Em Outubro em Philly, a polícia assassinou Walter Wallace, também resultando em uma nova onda de saques.

A maioria dos participantes destes protestos eram pessoas negras, já que a maioria dos manifestantes não negros haviam retornado a formas tradicionais de protesto. Os próprios manifestantes passaram a ter menos confiança na participação de pessoas não negras. Em Atlanta, em certos momentos pessoas não negras foram convidadas a deixarem a ocupação no Wendy. Em Philly, pessoas brancas que apareceram para observar os saques sem participar, foram perseguidas ou recebidas a socos. A sensação de isolamento e desconfiança para com participantes não negros não era mera paranoia. A cobertura jornalística local da ocupação do Wendy em Atlanta, por exemplo, era frequentemente racista e classista, e haviam rumores de ataques de branco racistas na área. Em Philly, a polícia agia de forma bem mais violenta a esses protestos do que aos de Maio, buscando vingança por suas derrotas anteriores e a eliminação de qualquer resistência negra.

Apesar das limitações dos protestos de segunda onda, eles se mostraram um importante desafio tanto para os reacionários brancos quanto para as elites racializadas, destacando as formas que a luta negra autônoma pode vir a tomar em futuras revoltas. Espaços como o Wendy em Atlanta expõem questões que todas as lutas negras são levadas a resolverem quando lutando de forma independente: como lidar com conflitos dentro da comunidade, como responder a aberturas e repreensões vindas da elite negra, e como se relacionar com pessoas não negras que querem prestar solidariedade.

Os protestos de segunda onda também destacam a necessidade de revolucionários não negros de encontrar formas de apoiar a autonomia negra enquanto não participam diretamente destes espaços. Um camarada em Philly apontou que táticas não violentas como impedir a polícia de se aproximar de quem estava saqueando era uma maneira simples mas prática de apoiar a militância de rua. Outro camarada apontou que os acampamentos criados para sem tetos durante os protestos (outro tipo de ação que surgiu conforme o levante esfriava) como um local onde esquerdistas podiam oferecer apoio contínuo para lideranças predominantemente negras.

  • Principais Descobertas
  • Após o pico de um levante, unidade multirracial espontânea pode dar lugar a um recuo reformista e a protestos de segunda onda em comunidades racializadas, motivados por injustiças cotidianas.
  • Em momentos de protestos de segunda onda, aqueles entre nós que se organizam de forma autônoma em comunidades trabalhadoras negras devem definir quais tipos de alianças com esquerdistas não negros são estratégicas, além de nos movermos independentemente das elites negras. Esquerdistas não negros devem encontrar maneiras de apoiar materialmente a militância negra da classe trabalhadora, mesmo quando nossas atividades e organizações venham a se afastar.

Manifestante em cima de um carro da polícia (Seattle, Washington) By Hongao Xu (flickr)

5. Conclusão

Dois anos após 2020, muitos se perguntam o que mudou. Reformistas agora reprovam a retórica do “não financie a polícia” enquanto a direita redobra sua guerra contra a “cultura woke”. Administrações do tipo “lei e ordem” estão rotulando crises de saúde mental e violência nas comunidades como histeria, e recuando nas reformas do sistema judicial a mando dos capitalistas locais. No entanto, houve uma mudança profunda no terreno político no qual as próximas lutas ocorrerão. Grandes rupturas tendem a se dispersar em uma teia de conflitos menores com relação a preocupações locais, como um rio se transforma em múltiplos cursos. Encontrando estes cursos, podemos encontrar locais para manter pequenas, mas significantes vitórias; e criar o alicerce para o próximo levante.

As maiores reivindicações do levante não foram alcançadas. Poucas cidades reduziram seus investimentos na polícia e passaram a financiar programas sociais. Esses cortes variaram entre 1-2%, geralmente se dando através de truques fiscais, e todos têm sido revertidos. Mas as reformas no sistema judicial tem acelerado: algumas cidades passaram a dirigir chamadas ligadas a saúde mental para serviços alternativos, criado novos comitês para fiscalizar a polícia, eleito defensores públicos progressistas, e limitado ou proibido que a polícia use manobras de estrangulamento, ou incursões a domicílio sem aviso. Muitos departamentos policiais também sofreram ondas de renúncias e aposentadorias prematuras. Alguns precisaram criar programas para o “bem-estar das tropas” para lidar com os inúmeros casos de depressão, e operar com força reduzida. Nossas descobertas sugerem que precisamos de poder autônomo para combater o reagrupamento da classe dominante, ou nossos ganhos serão aplicados nos termos das elites, e rapidamente desfeitos.

Para além das políticas públicas, os impactos da revolta continuam a serem sentidos cultural e institucionalmente. Em uma questão de semanas, o tema da “abolição” saiu dos círculos esquerdistas e ganhou o discurso público, e grandes empresas se apressaram em abraçar a retórica da “justiça radical”. Universidades e empresas lançaram inúmeras iniciativas de justiça, transformando suas governanças internas. Conforme estudantes retornaram para aulas presenciais, muitos lideraram manifestações contra administradores racistas e sexistas. A onda atual de trabalhadores em busca de organização pode ser influenciada pelas experiências de trabalhadores em 2020, incluindo a revolta. Em Minneapolis, pessoas da cena do hip-hop e do metal, e mesmo do stand-up, foram forçadas a encarar o racismo, patriarcado e homofobia. Em várias cidades comemorações do orgulho lgbtqia+ expulsaram a polícia, iniciando conflitos entre a polícia e participantes radicais. Nestes meios onde nós temos vantagens estratégicas, táticas e numéricas, podemos lutar para consolidar vitórias duradouras.

Conforme o fazemos, podemos também passar a aplicar as lições táticas, estratégicas e raciais de 2020. Popularizando táticas, mantendo infraestruturas que sustentam a resistência, e dificultando a capacidade de coordenação das forças policiais, estamos preparando o terreno para futuras vitórias táticas. Mantendo as facções do estado em cheque, cultivando parcerias entre diferentes comunidades e camadas de classe, e defendendo a legitimidade da militância de rua negra, nós construímos a fundação para vitórias estratégicas. E praticando solidariedade multirracial que partilha os riscos, compromissos de longo prazo e constrói organizações autônomas de esquerda em comunidades racializadas, nós preparamos o terreno para uma unidade que tem como princípio a luta contra o capitalismo racial.

Nós podemos aplicar essas lições agora, em síntese ou miniatura. Assim, nós tornamos mais provável que um próximo levante surgirá no futuro, e que será capaz de superar os limites internos e externos, e que nós sairemos vencedores.

BLM at Monroe Park, Eugene, Oregon. June 11, 2020. By David Geitgey Sierralupe (flickr)

Notas da Tradução

[NT1] de-arrest; manobras para “resgatar” manifestantes capturados pela polícia, envolvem distrair policiais, abrir algemas e portas de viaturas.

[NT2] triple chasers; tipo de bomba de gás lacrimogênio com três cargas que se ativam separadamente.

[NT3] Wendy; franquia de restaurantes fastfood nos EUA.

[NT4] die-in; tipo de manifestação onde os participantes se deitam no chão, simulando estarem mortos, bloqueando a passagem.

[NT5] hmong; etnia indígena da região leste e sudoeste do Oriente, hoje muitos vivem no Vietnam, Laos, Mianmar e Tailândia.

Notas

1. Thomas Johansmeyer, “How 2020 protests changed insurance forever,” World Economic Forum (February 22, 2021)

2. Buchanan, Larry, et. al, “Black Lives Matter May Be the Largest Movement in U.S. History,” The New York Times (July 3, 2020)

3. As told to Tuck Woodstock, “No Matter How Many Meals We Serve, They’re Still Going to Attack Us,” Bon Appétit (July 29,2020)

4. See Ostfield, Gili, “‘We Can Solve Our Own Problems’: A Vision of Minneapolis Without Police,” The New Yorker (August 31, 2020); Fadel, Leila, “Armed Neighborhood Groups Form In The Absence Of Police Protection,” NPR (June 2, 2020); and Mack, Truck and Slick, “Behind the Barricades at 18th Avenue,” Twin Cities Workers Defense Alliance (February 20, 2021)

5. J, Dylan, “Defund the Police And…,” Unity and Struggle (June 16, 2020)

6. @ATLFireRescue used Twitter to encourage Atlantans to snitch on militants at the occupied Wendy’s. Social media intelligence may have contributed to the police attack on the high-profile FTP4 march in the Bronx. See Human Rights Watch, “Kettling” Protesters in the BronxSystemic Police Brutality and Its Costs in the United States (September 30, 2020).

7. For examples of exceptional violence, see Vera, Amir, “2 Atlanta officers fired after video shows them tasing man and using ‘excessive force’ on woman, mayor says,” CNN (June 4, 2020); McDaniel,Justine et. al, “Philadelphia protesters gassed on I-676, leading to ‘pandemonium’ as they tried to flee,” Philadelphia Enquirer (June 1, 2020); and Human Rights Watch, “Kettling” Protesters in the BronxSystemic Police Brutality and Its Costs in the United States (September 30, 2020). Police appear to have resorted to van snatches in multiple cities, including Minneapolis, New York City, and most publicly, Portland. See Winter, Deena, “Jaleel Stallings shot at the MPD; a jury acquitted him of wrongdoing,” Minnesota Reformer (September 1, 2021); CBS News, “Video of plainclothes New York City police bundling teen into unmarked van called ‘terrifying,’” CBS News (July 29, 2020); and Nuyen, Suzanne, “Federal Officers Use Unmarked Vehicles To Grab People In Portland, DHS Confirms,” All Things Considered (July 17, 2020). On the NYPD, see Senzamici, Peter, “Anger and Demand for Answers as Cops Seem to ‘Deputize’ Inwood Anti-Looting Posse,” The City (June 12, 2020); and Siegelbaum, Max, “NYPD Says ICE HSI Agents Protecting Precincts,” Documented (June 10, 2020).

8. On Philly, see Dorfman, Brandon, “The protest encampments — and the housing crisis they represent — aren’t going away,” Generocity (August 19, 2020). On Minneapolis, see Brey, Jarrod, “The Story Behind the Minneapolis ‘Sanctuary Hotel,’” Next City (June 23, 2020); and Omastaik, Rebecca et al, “MPRB clears remaining tents at Powderhorn Park encampment,” KTSP (August 14, 2020).

9. Kuntzman, Gersh, “MTA Bus Driver Refuses to Help Cops Haul off Anti-Brutality Protesters,” Streets Blog NYC (May 29, 2020);  Melo, Frederick, “Union activists boot MN National Guard from St. Paul Labor Center. Walz says this is ‘unacceptable,’” Twin Cities (April 16, 2021).

10. See Orso, Anna et. al, “Philly police stood by as men with baseball bats ‘protected’ Fishtown. Some residents were assaulted and threatened,” Philadelphia Inquirer (June 2, 2020); and Gammage, Jeff et. al, “For second day, group ‘protects’ Christopher Columbus statue in South Philadelphia; mayor denounces ‘vigilantism,’” Philadelphia Inquirer (June 14, 2020).

11. See Francois, Miriyam, “Adame Traore: How George Floyd’s Death energised French protests,” BBC (May 19, 2021) and Obaji Jr., Philip, “Nigeria’s #EndSARS protesters draw inspiration from Black Lives Matter movement,” USA Today (October 26, 2020).

12. Student walkouts have taken place in both large urban and small suburban school districts. For one example, see Pena, Mauricio, “Chicago students walk out of South Side school over racial slurs: ‘We will not be silenced,’” Chalkbeat (December 14, 2021). On union organizing, see Hogan, Gwynne, “Amazon, Starbucks and REI: A new crop of NYC union organizers may be having a moment,” Gothamist (March 10, 2022). On Pride, see Hajela, Deepti, “NYC Pride ban on uniformed police reflects a deeper tension,” ABC News (June 25, 2021).

Apêncice A: Métodos

Big Brick Energy foi liderado por um time de três autores do Unity and Struggle, com a ajuda de outros quadros que realizaram entrevistas, revisaram, e às vezes participaram como entrevistados. Ao longo de doze meses, nós entrevistamos quinze camaradas em cinco cidades (Nova York, Philly, Atlant, Minneapolis, Portland). Um de nós também teve um jantar com um camarada de Seattle cujos relatos foram introduzidos no texto. Entrevistados foram desde anarquistas classistas a comunistas insurrecionários, à abolicionistas no Democratic Socialists of America. Eles foram de Gen X à Gen Z, mas a maioria eram millenials com experiências políticas nos últimos dez ou quinze anos. Seis eram negros, seis brancos e o restante latinxs e asiáticos (com alguns camaradas afro-latinxs). Quase dois terços eram mulheres ou dissidências.

No começo de nossa pesquisa, nós do Unity and Struggle, elaboramos uma série de questões sobre o levante, focados quase exclusivamente em táticas e papéis especializados nas ruas. Quando convidamos camaradas para participal do diálogo, fomos aconselhados a focar mais nas questões estratégicas, e assim refinamos nossas perguntas. Então fizemos as entrevistas (às vezes individuais, às vezes em pequenos grupos) e usamos perguntas abertas para encorajar camaradas a contarem suas histórias no levante, conforme os tocava. Isso permitiu que certos tópicos que não cabiam em ideias preconcebidas emergissem. Usamos notas anônimas escritas à mão e as compilamos em um drive criptografado.

Nós complementamos as entrevistas reconstruindo uma linha do tempo da cobertura jornalística em casa cidade. Isso nos permitiu confirmar nomes e datas, e completar parte das memórias das camaradas. (Muitos conseguiam descrever os primeiros dias do levante com muita precisão, mas os meses seguintes eram mais vagos.) Nós também lemos vinte e um relatórios oficiais de dezessete cidades, produzidos pela polícia e outras agências da cidade. Eles nos mostraram que o levante do ponto de vista de nossos inimigos, e revelaram falhas e fraquezas que não eram visíveis nas ruas.

Finalmente, nós refletimos sobre nosso próprio material. Primeiro, identificamos surpreendentes padrões emergindo organicamente dos relatos dos camaradas. Segundo, analisamos e respondemos às perguntas específicas que havíamos feito no início. Terceiro, nós circulamos um formulário entre quadros do Unity and Struggle e participantes, e o discutimos em uma sessão de feedback antes de finalizar a versão para difusão pública.

Big Brick Energy ainda apresenta lacunas. Nossas redes político-sociais renderam entrevistas em grandes cidades da costa leste, exceto por umas poucas no meio-oeste e no extremo sul, enquanto tivemos dificuldades de nos conectar com a costa oeste e o sudoeste. Também não fomos capazes de realizar entrevistas em cidades menores como Kenosha ou Louisville, ou os “interiores” suburbanos que alguns argumentam serem locais de lutas nos EUA de hoje. Perder Louisville foi especialmente infeliz, pois nos impediu de ter relatos diretos sobre manifestações pelo assassinato de Breonna Taylor, e as marchas armadas liderados pelo Not Fucking Around Coalition. Nós encorajamos camaradas destas áreas para refletirem sobre esse texto e escreverem seus próprios relatos.

Nós acreditamos que relatos devem se tornar um recurso do movimento revolucionário. A classe dominante tem think tanks e universidades para os ajudar a governar: nós precisamos pensar por nós mesmos, chegando a conclusões e propondo investigações para lutas ainda por vir. Sermos mais organizados vai nos ajudar. Cultivando relações de colaboração através de diferentes regiões e causas, nós seremos capazes de construir uma imagem de um momento político mais rapidamente. Ao construir organizações maiores, alguns de nós serão capazes de ir às ruas e descansar enquanto outros reúnem informações. Nós encorajamos camaradas a se unirem para este tipo de trabalho no futuro.

Apêndice B: Relatórios Oficiais

21CP Solutions, After-Action Recommendations for the Raleigh Police Department (November 2020)

Citizen Review Committee, Portland Protests 2020

City Comptroller, Independent Investigation into the City of Philadelphia’s Response to Civil Unrest (January 2021)

City of Cleveland, May 30 Civil Unrest After-Action Review 

City of Kalamazoo, Independent Review of Kalamazoo Department of Public Safety in Two 2020 Critical Incidents (August 2021)

City of La Mesa, An Independent After-Action Report for the Civil Unrest on May 30, 2020 (January 2021)

City of Santa Monica, Independent After Action and Evaluation Regarding the Events Leading to, During, and Following May 31, 2020 (May 2021)

Dallas Police Department, After Action Report

Human Rights Watch, “Kettling” Protesters in the Bronx (September 30, 2020)

Independent Council, An Independent Examination of the Los Angeles Police Department 2020 Protest Response

Independent Council, Report to the Huntsville Police Citizens Advisory Council (April 2021)

Independent Review Panel, Final Report Regarding the Reponse of the Indiana Metropolitan Police Department 

John Glenn College of Public Affairs, Ohio State University, Research Evaluation of the City of Columbus’ Response to the 2020 Summer Protests

Los Angeles Police Department, Safe LA Civil Unrest After Action Report

Minnesota Senate Transportation and Public Safety Committees, Written Testimony of Commander Scott Gerlicher (August 2020)

National Police Foundation, A Crisis of Trust

New York City Department of Investigation, Investigation into NYPD Response to the George Floyd Protests (December 2020)

Office of Inspector General, Report on Chicago’s Response to George Floyd Protests and Unrest (February 2021)

Office of the Independent Monitor, The Police Response to the 2020 George Floyd Protests in Denver

Portland Police Bureau, 2020 Portland Civil Unrest After Action and Recommendations

Seattle Office of the Inspector General, Sentinel Event Review of Police Response to 2020 Protests in Seattle

The Armed Conflict Location & Event Data Project, Key Trends in Demonstrations Supporting the BLM Movement (May 2021)

Fascistas, racistas e pedófilos?: A reação contra os protestos antiautoritários nos discursos digitais da extrema direita peruana

Publicado originalmente em 01 de Março de 2023 em Periodico Libertaria.

Faz tempo desde que tivemos oportunidade de escrever sobre um tema pouco abordado nos círculos antifascistas da região (algo que nasceu coletivamente em uma comunidade de discord, recentemente atacada por fascistas espanhóis). É possível que questões geracionais e de inclusão digital tenham sido os principais obstáculos para a criação e difusão de escritos sobre a extrema direita na internet, em específico nos círculos da juventude.

Considerando o texto anterior [leia aqui], acreditamos que precisamos fazer alguns esclarecimentos:

Foi dito que no Peru não haveria tanta repercussão das redes sociais, pelo fracasso das campanhas presidencias no digital. Essa é uma afirmação parcialmente correta, buscando mais informações encontramos um conceito ou uma espécie de metáfora denominada “efeito cascata”, que nos ajuda a entender e desarmar xs fachxs.

Normalmente, quando se analisa a Alt-Right se mede sua repercussão pela efetividade e não por suas consequências posteriores. Ou seja, uma análise dessa natureza subertima a força discursiva fascista e nos cega (como estão cegas hoje, as esquerdas legalistas e eleitorais do Peru).

O “efeito cascata” é uma avalanche invisível, ou seja, se a Alt-Right acusa fraude eleitoral, com teorias absurdas, o objetivo final não é apoiar um candidato nesse exato momento, mas expor um discurso extremo que gere uma corrente de opiniões que facilite a destruição de um bode expiatório em específico. Estamos falando de instituições, adversários políticos, ideologias políticas, pessoas e mesmo outras espécies de animais. Pondo de forma simples… preparar o terreno para impor seu totalitarismo.

Outra correção a ser feita sobre o texto anterior é: a efetividade das redes sociais para contrapor ao establishment midiático em um contexto de repressão cruel por parte do Estado. As redes sociais, para o bem ou para o mal, serviram para expor o verdadeiro rosto da ditadura cívico-militar-econômica e para gerar uma corrente de opinião contrária a do status quo (vide o caso da Primavera Árabe de 2010).

Concluindo, não podemos subestimar nem superestimar a influência das reedes sociais na sociedade peruana.

A tarefa das comunidades digitais de pedófilos no Peru é atuar como uma caixa de ressonância para os influenciadores facínoras.

Há alguns meses, em diferentes plataformas (telegram, twitter, fb, wsp, ytb, reddit, etc.) buscava-se dar maior repercussão a certos posts de certas mobilizações da direita, da extrema direita e neofascistas. Estas mobilizações buscavam pressionar ao parlamento para depor o conservador Pedro Castilho (hoje preso).

Nesse contexto, vimos uma coincidência entre diferentes grupos fascistas, um aumento de suas mobilizações e o uso de discursos inadmissíveis no século XXI (racistas, misóginos e especistas). Eles falharam parcialmente, o corrupto Castillo renunciou, mas aprenderam sobre a importância do algoritmo, do trabalho de coleta de dados e do viral como algo além do militante (o econômico e o “prestigioso”, ou seja, as recompensas para os trolls fascistas mais furiosos).

O uso de bots, trolls e outros recursos que vêm de certos softwares comprados de países “democráticos” como Israel ou E.U.A., formam parte da inteligência peruana e o aproveitamento destas ferramentas estão definidas pelo vai-e-vem da política (um dia serviu a Castillo, no dia seguinte a Dina).

Assim, os fachos se deram conta da importância dos troll centers (uso de trolls e bots para influenciar algoritmos). Por muito tempo, gastando recursos financeiros, a direita foi capaz de tornar viral suas hashtags mais famosas.

Mas o que aconteceu quando o algoritmo foi utilizado pelas pessoas que participaram das manifestações antiautoritárias contra o regime assassino de Dina Boluarte ?

Financeiramente esgotados, os troll centers nada puderam frente a viralização de assassinatos e a indignação nas redes sociais. Refugiados em suas comunidades esperaram pela pesada mão da realidade, a repressão cruel e a perseguição política (a verdadeira, não a que Apra ou Pedro Castillo dizem sofrer).

No Peru, existe um racismo estrutural, um status quo que se aproveita disso continuamente para marginalizar certas regiões e oprimi-las. Entretando também existem certos propagadores de ódio, misoginia e racismo, cuja tarefa é servir como amplificador para os discursos mais retrógrados e torná-los de vanguarda para gerar uma versão peruana da “Noite dos Longos Punhais”. Assim, suas táticas já não eram a mobilização em si mas a reafirmação de uma Lima unida pelo racismo… Uma forma de gerar uma identidade doentia, que no futuro se materialize em mobilizações massivas contra nós indígenas.

Já denunciamos que nas comunidades virtuais de videogames, anime e kpop, onde se encontra a maior quantidade de jovens desta região, vem acontecendo uma infiltração por parte da extrema direita. Ainda é necessário denunciar a infiltração nas universidades, onde certos elementos se lançam na “guerra cultural” e criam seus “think tanks” liberais-libertarianos (espécies de ongs ao estilo neoliberal). E existem outros espaços que ainda não foram denunciados, onde a propaganda é dirigida para crinaças e jovens (nas escolas, através de propaganda religiosa).

Entretanto, em nossas pesquisas e investigações nos deparamos com um repulsivo pacto nas comunidades da Alt-Right peruana… a aliança entre fachos, racistas e pedófilos, o fascismo como identidade que une estes infelizes (em sua maioria homens héteros que se assumem como “mestizos”).

O uso de dox, o ataque a outras comunidades digitais com a infiltração de pedófilos e conteúdos desprezíveis, não são circunstanciais. Anteriormente denunciamos a complacência das redes sociais com aqueles seres repugnantes que viralizam ou fazem dinheiro dentro das plataformas (com hashtags, criando conteúdo, ou se protegendo na “liberdade de conteúdo”), entretanto acreditamos que existe não apenas uma militância de extrema direita, mas também certas questões que sustentam essa militância. Se as tropas de choque do fujimorismo e do aprismo (que têm dinheiro de sobra para financiar estas delinquências), podem protestar de segunda a domingo sem exaurir suas economias familiares, estes fascistas de internet que gastam seus dias propagando merda racista, misógina, etc. Como se autofinanciam ?

Nas comunidades fascitas digitais fazem suas campanhas de dox, e pela derrubada de páginas, vídeos, etc, através de raqueamento, roubo de identidade ou difusão de material repugnante com o propósito de desaparecer com a vítima. Nem todo o dinheiro pode vir dos partidos políticos, também existem recursos de origem mais sinistra, ligados a crimes na internet (golpes, vendas na dpweb, etc.), certamente não representam uma quantia fixa ou um salário mínimo. Nem tudo corresponde as atividades na internet ou ao financiamento de partidos (talvez complementem a renda com ambos, lembrando de que existem trolls centers privados.).

Durante os protestos enquanto as pessoas se manifestavam e eram reprimidas cruelmente, estes neofascistas formaram parte da campanha de viralização do racismo (como pode ser visto no histórico de conversas de suas comunidades) e o tempo que sobrava de suas jornadas dedicavam a pornografia, os crimes violentos e abusos infantis.

Também vimos que certos “influencers” libertarianos continuamente os incentivam a manter campanhas de dox, e assédio digital, ou os convidam a fazer parte de seus novos partidos. A pergunta continua: como se financiam ? De onde vem esse conhecimento de raquemanto ? Por que motivo a polícia não os prende ?

Há quem diga:

  • Não exagere sobre essas coisas!

Eu responderia:

  • Eu encontro essas coisas em partidas online, nos nossos armys de kpop, ou mesmo em discord de fanarts de genshin impact: Por que não poderia denunciá-los ?

Enquanto o lixo da extrema direita, através da pornografia gratuita, trata de levar a seus grupos para adolescentes héteros e transformá-los em militantes. Que fazemos nós ? O mínimo deve ser denunciar, mas frente ao descaso das redes socias ou o policial que informa aos pedófilos de certas denúncias para os proteger de incursões de sua “instituição”… Que fazemos nós frente um problema estrutural relacionado com a misoginia e o tecnofeudalismo ?

Discutir o problema na internet é o mínimo. Relacionar o fascismo com esses problemas é expor como o conservadorismo é a porta de entrada para as ideias mais destrutibas como o totalitarismo e a pedofilia, entratanto também é um problema que vai além desta ideologoa de merda (vide o número de denúncias de pedofilia em círculos de esquera, animalistas e mesmo supostos anarquistas em Lima). No momento permanecemos com essa dúvida, com essa coincidência entre as comunidades digitais da extrema direita: pedófilos, racistas e fascistas ?

PS: Como toda investigação deste tipo depende de infiltração nas comunidade de extrema direita, como vemos em trabalhos jornalísticos sérios, expor-se a conteúdos repulsivos tem graves consequências psicológicas (já que não queremos ser em nada semelhante a essa gente, queremos apenas sua destruição). Pedimos para que outras pessoas antifascistas se ocupem de denunciar e expor essa problemática, que a polícia tolera (na maioria de casos de captura de pedófilos é por intervenção da polícia de outros países, e muitas vezes o problema do abuso infantil está associado com o tráfico de pessoas e o narcotráfico, problemas que a polícia e políticos encobrem).

Como os fachos peruanos buscam se reproduzir na internet ?

Publicado originalmente em espanhol, no Periodico Libertaria, site do coletivo anarquista de compas que residem no território hoje dominado pelo Estado do Peru.

É uma feliz surpresa encontrar anarquistas do continente escrevendo sobre as movimentações e tendências fascistas de seus territórios.

Pela defesa e enraizamento de um ecossistema informacional anarquista e antifascista.

Introdução

Antes de nos aprofundarmos no tema, cabem algumas explicações.

1. O uso da internet em nossa região não engloba a totalidade do território e isso se demonstra pelas campanhas políticas fracassadas nas plataformas digitais e o êxito do conservador, corrupto e assassino Castilho sem a necessidade de “influencers”. No entanto, acreditamos que tais plataformas estão aumentando seu raio de influência em nossa região, algo inevitável já que o maquinário de infraestrutura, muitas vezes financiada pelo capital estrangeiro, e o “progresso” que o Estado deseja impor está associado diretamente com o mundo digital.

2. Os quadros que impulsionam este projeto de “progresso” são em sua maioria de direita, é nessa parte do campo político que as plataformas digitais têm prioridade, e onde podemos observar a quantidade de campanhas à favor de projetos de mineração, propaganda política e até o financiamento de periódicos digitais (vale relembrar que a Odebrecht financiou a publicação de um jornalista medíocre que se diz “livre pensador” , que não é mais que apenas outro neoliberal)…[2].

Em síntese, o que vemos atualmente nas plataformas digitais têm um viés diferente do que se via uns anos trás, por exemplo, aumentou o número de trolls de direita, muitos financiados por empresários-políticos e outros que simplesmente acreditam no lixo neoliberal. Outra novidade repugnante é a escalada de “influencers” de extrema direita e fascistas, há alguns anos era raro de se encontrar uma quantidade tão grande de fãs “militantes” de ditadores e genocidas, o lixo monarquista e de livre mercado, etc…

Existe outra novidade: o financiamento de trolls por parte da esquerda. Castillo e suas tropas tem ativado uma máquina de guerra suja em duas frentes: jornais e trolls. O esquerdista, e o chamamos assim em forma de piada, segue a tática de Comitern de “classe contra classe” mas de trolls, assim com um gene autoritário trata de dar contra a mídia de massa da direita neoliberal [3]. Damos ênfase na novidade já que a direita fascista já tem experiência na com trolls e não se envergonham disso, por exemplo, desde o parlamento fujimorista [4] do período anterior se financiava estes trabalhos… Hoje em dia se sabe que esses trolls mudaram de patrões e andam espalhando suas merdas de extrema direita de algum call center de Lima.

Assim os trolls fazem suas campanhas de propaganda, de “doxx” de seus oponentes, o cyberbulling e infiltração de comunidades digitais. Este último é o ponto ao qual queremos dedicar mais tempo.

O T A K U P E R O N U N C A F A C H O!

Sobre as comunidades digitais peruanas, a infiltração fascista e os jovens militantes.

Exposta a face mais conhecida dos fachos peruanos da internet, passaremos por alguns lugares não tão visíveis para os imigrantes digitais (quer dizer, aqueles que ainda não manejam bem o uso da internet devido a sua idade ou questões econômicas).

Antes, é preciso indicar que ser nativo digital não necessariamente te torna alguém imune a propaganda fascista… Pelo contrário, como nos E.U.A., podes ser até hacker e cair nas redes dessa ideologia lixo (existem casos de ataques de hackers a portais anarquistas e de esquerda, todos com autoria fascista).

Um sociólogo francês do fim do século passado já nos esclarecia sobre as novas formas de socialização dos jovens das chamadas tribos urbanas, não falava de forma pejorativa como alguns idiotas pensam, mas se tratava de analisar e esclarecer o motivo da união dessas pessoas e os valores que os moviam – bons, maus, o que for – por exemplo, são conhecidos os trabalhos sobre punks, metaleitos, torcidas organizadas de futebol, etc.

E por qual motivo falar disso ?

Imagine tudo o que dissemos no parágrafo à cima, acontecendo na internet… É isso!

Sim. Agora falamos de tribos digitais (fãs de memes, otakus, kpopers, gamers, etc.) e de outros subgrupos, com coisas mais específicas (seguidores do moe, jogadores de dota, fãs de vtubers, tiktokers de asmr e o que mais pudermos imaginar).

Dado o panorama, a propaganda fascista no Peru tem maior ressonância em alguns subgrupos, mas antes disso, deve ter quadros que ocupem o papel de formadores de opinião, ou “Influencers”.

Com a chegada da internet o “faça você mesmo” se tornou algo de direita e capitalista. A televisão que nos oferecia lixo, foi a base para as futuras tendências mais utilizadas ndas redes sociais… Se nos primeiros momentos da internet existia uma busca utópica que buscava a socialização total do conhecimento da cultura humana, isso se degradou na busca por lucrar com nossos clicks e a imposição da ditadura do “algoritmo” das grandes empresas (compare a denúncia de pirataria que Metallica fez ao site Napster, com a atual competição do Spotify e YouTube para oferecer música com copyright, os tempos mudaram!).

Retomando, o conteúdo oferecido em nossa região é muito precário, mesmo que haja boas intenções. Por exemplo, existe um youtuber de nossa região que fala sobre “história peruana” e que veio a ser um dos primeiros influencers desse tipo de conteúdo. Até aqui, nenhum problema… Mas acontece que esse tal influencer nunca cita as obras de “história” que ele “lê” para fazer seu conteúdo. Muitas pessoas confundem o “academicismo” ou os “direitos do autor” com a verdadeira natureza das notas e citações, que servem para a ampliação de nossos conhecimentos sobre tópicos que estejam sendo expostos. Assim, este influencer pode nos enganar ou simplesmente estar lendo a Wikipedia (portal não tão seguro pois é modificável por qualquer um) e nós o tornamos popular e no processo enchemos sua carteira (o mesmo pode acontece com os que criam conteúdo de “react” que são simplesmente uma sequência de elogios a um certo país, em busca de views, likes e dinheiro).

E por qual motivo falamos disso ? Somos haters ? É inveja ? NÃO!

Se atacaremos aos influencers fachos também devemos atacar essa atitude que nos fecha num pensamento ignorante onde o conhecimento é recebido por simples auto complacência (“eu consumo isso e me torno melhor que você” ou “me faz formar parte de certa comunidade”).

Assim, o “faça você mesmo” se misturou com a bobagem neoliberal do “empreendedorismo” jogando com as ideias repugnantes de Tv-lixo que assistimos desde pequenos… Só falta adicionar a “liberdade” e o “livre mercado” e teremos a influencer fachos de nossa região; se adicionar “negócio” tens um Coach.

É através desse “economização” da busca do conhecimento (em palavras simples, supostamente saber mais ou de se esforçar para saber mais), que é graças a educação de merda que o estado nos oferece, isto faz da gente de nossa região o público indicado para irradiar lixo de todo tipo. Um exemplo ?

Uma vez, em uma kombi, ia cansada de trabalhar rumo minha casa, quando de repente uma pessoa “xis” subiu, e já com o volume alto se pôs a ver um vídeo no Facebook. Nesse vídeo se falava do “socialismo que mata de fome”, sobre o melhor do “livre mercado”, etc. E logo vieram outros três vídeos mais, um deles sobre os Incas terminou a fascista de Beto Ortizz [5] Sem ser grosseira,pedi para que ele usasse fones de ouvido. Essa pessoa está em busca de conhecimento que nunca pode ter por conta da precariedade econômica e lamnetavelmente o “algoritmo” o devorou, e talvez seja um facho a mais, desses que existem aos montes em Lima.

Esta auto complacência e “economização” da bisca do saber no beneficia apenas a extrema direita, mas também há certos esquerdistas conservadores e xenofóbicos que vomitando seus discursos ultranacionalistas tem repercursão nas redes sociais.

Assim, vemos que é transversal esse fenômeno pois nativos e imigrantes digitais caem nas redes destes medíocres “influencers” e da ditadura do “algoritmo”. Esta seria a forma mais explícita de como as ideias de extrema direita tratam de posicionarem-se na internet, óbvio que também há investimento de dinheiro… Também há o sensacionalismo, também pagam pelo clickbait automatizado (em especial em páginas populares no país).

De gamers a fascistas

Nos protestos fascistas de Lima [leia nosso editorial de emergência] apareceu um certo personagem que transmitiu ao vivo, para um grupo “xis” de gamers, tudo o que aconteceu, pedindo doações e narrando com uma espécie de “humor negro” o que via.

Cobrir protestos fascistas de forma militante é algo que se vê em diferentes partes de nosso planeta, mas o que esse personagem fez foi uma transmissão em busca de algo mórbido. Essa busca de gerar algo politicamente mórbido, seja com haters ou trolls, é a primeira missão para maquiar a propaganda da extrema direita. Tática que é importada do conteúdo mais lixo da internet, vide todos aqueles influencers que através de atos viscerais querem criar tendência.

É conhecida a postura antifeminista e antifuna[NT1] que impregnou parte das comunidades gamers, justificando essas posturas com o rótulo de “humor negro”, este é o contexto em que se germinam mentes autoritárias.

No Peru, devido ao aumento exponencial do uso da internet, a comunidade gamer se ampliou muito, integrando até os chamados “normies” (gente que não é tão interessada em jogos como a comunidade, jogadores casuais).

No Peru, existem comunidades tóxicas conhecidas e emergentes[6], não citaremos o nome, pois o deixariam orgulhosos mas indicaremos sobre qual jogo falam (o mais popular no Peru), os tópicos nos quais engajam e como estão relacionados com a extrema direita.

Todo o chorume antifeminista dessas comunidades serviu como plataforma de “anti progressismo”, um delírio da nova direita ocidental que já está se alastrando pela América Latina.

No Peru, essa postura era minoritária no espaço público e na internet, há alguns anos atrás. Mas agora temos comunidades de gente tóxica, trolls e haters, estes têm servido para transformar em tendência certas posturas dessa extrema direita.

Há comunidades, em específico do dota2, que em seus grupos, passa a ter uma postura mórbida e de “humor negro”, até mesmo uma apologia anti-direitos e delírios fascistas. O impulso da suposta “rebeldia” de direita tomou conta dessa comunidade, onde tradicionalmente se fazia “zuera”[7] do seu streamer favorito (uma espécie de amor e ódio tóxico).

Incentivam o cyberbulling contra pessoas LGBTQ e feministas, racismo, assediam kpopers e por vezes são seduzidos pela esquerda conservadora (as pessoas do Ágora[8] lhes dão uma atenção especial). São pintados como vigilantes ao “desmarcarar” figuras da televisão-lixo mas no fundo o público não chega a compreender o que realmente são.

Nestes grupos e seus anexos, se compartilha material de conteúdo ilegal, se faz apologia à violência de gênero, a pedofilia, se faz doxx (pagando el padrón de la reniec) e sem justifica tudo como sendo “zueira”.

Seus “ídolos” são streamers que desde muito toleram a existência destes grupos de gente tóxica pelo simples fato que conseguem monetizar os chamados “olinhos” (ou seja, a quantidade de pessoas que vê seu conteúdo)

Por serem uma comunidade “zueira” compartilhar conteúdo para polemizar ou gerar sentimentos mórbidos, assim a propaganda política foi entrando fortemente. Houve mesmo candidatos que queriam financiar campanhas publicitárias com streamers.

O político da esquerda conservadora, irmão do corrupto Acuña (empresário amigo de Vargas Llosa) e adorador do facho Antaurro Humala (irmão do ex presidente que está preso e criador de uma ideologia fascista chamada Etnocacerismo e seus membros, em sua maioria ex-soldados, militares inativos, etc.) não teve tanto êxito, diferente do candidato López Aliada, fascista da opus dei (seita católica ultra conservadora), que teve certa recepção nas comunidades gamer mais tóxicas da internet.

Após um princípio de sedução com a esquerda conservadora, os antifeministas, acabaram por aderir à extrema direita. Em seus grupos compartilham conteúdo de “libertários”[9], supostos “debates” onde derrotam a esquerda, vídeos de doutrinamento neoliberal e piadas sobre a “izmierda”. Na prática, essa comunidade aceita ser a caixa amplificadora do lixo que vem dos novos influencers fachos.

Mas também se observam grandes contradições nestas comunidades (durante a campanha de 2021, dentro delas houveram debates intensos entre fujimoristas e antifujimoristas) o que predomina é uma aposta no fascismo, única plataforma que legitima suas ações antifeministas, anti direitos e a total “liberdade” de desfrutar o conteúdo mais criminoso e repugnante da internet.

Com os questionamentos ao Facebook por vender dados a Putin e a chegada das denúncias internacionais sobre o conteúdo ilegal que se compartilhava no Facebook, a resposta de Zuckerberg foi implantar monitoramentos mais intensos em sua rede (obviamente por gente terceirizada do terceiro mundo e mal paga para ver toda essa porcaria), isso afetou as comunidades tóxicas peruanas e as fez migrar para redes mais “seguras” como o telegram.

Os novos militantes da extrema direita se alimentam assim, de uma rota onde se tolera conteúdos fascista: educação peruana militarizada, sociedade decadente e misoginia, exploração neoliberal, comunidades gamers tóxicas e finalmente replicam a propaganda das tendências e dos influencers fascistas peruanos, para terminarem por se tornarem fascistas.

Ainda há tempo de combater essa praga, a internet ainda não é de uso generalizado na nossa região, o que favorece a luta nas ruas. E o fascismo está circunstrito a Lima, o que faz com que a propaganda de nossos compas de outras regiões sejam muito importantes: escutemos!

Nota do tradutor

[NT1] “Funa” é semelhante a “doxx” ou “exposed”, quando alguém, geralmente uma vítima de abuso, conta sua história e dá informações sobre seu suposto abusador, como fotos, telefone, perfil de redes sociais, etc.

[1] Na última campanha eleitoral presidencial (2021) aconteceu algo estranho para os limenhos; um candidato nada conhecido chegou a segundo turno e isso se deu graças a incredulidade da maioria e de uma campanha da esquerda ainda apostando em formatos tradicionais (rádio, tv). Isso pode ser ilustrado por aquela cena no canal de televisão da capital onde o candidato com a maior intenção de voto, aparecia sem foto na divulgação das pesquisas. Além disso, no segundo turno houve um gasto milionário em uma campanha suja contra o presidente, atitudes típicas da direita neoliberal. A indiferença em regiões frente as campanhas políticas digitais também está relacionada com a ausência da internet, tanto em infraestrutura como serviços, e o afastamento do tal “progresso” que o capital trata de impor.

[2] Existem empresas especialistas em áudio visual e marketing que são as favoritas da direita neoliberal. Estas empresas limpam a reputação dos projetos mais vis, e o fazem em meio aos escândalos, ou quando acontecem ações diretas da população em oposição ao empresariado, sobretudo quando se trata dos relacionados a mineradora: Mina Tia Maria (Argentina), Arequipa para os arequipeños, Plus Petrol-Repsol (2022), Empresa de lacteos Gloria, etc. Esta empresa ou conjunto de empresas de marketing tem uma trabalho nas redes sociais e bombardeiam a tv, em busca de anular as opiniões de quem protesta.

[3] A direita peruana, cuja maioria abraçou o fascismo, acusa o atual presidente de ser comunista, chavista, castrista, etc. O usaram inicialmente para evitar que ganhasse as eleições e agora o usam para pedir seu impedimento. O irônico é que o atual presidente é um completo principiante ideológico, é um convidado de um partido corrupto chamado Peru Libre (que diz ser Marxista, Leninista, etc. e no fundo é mais uma corrupção chavista). O estranho é a aparição de jornais amantes de Castillo e Peru Libre, após ele ter chego ao poder, assim como a aparição de trolls nas redes sociais, defendendo a esquerda conservadora.

[4] Fujimorismo; é uma força política encabeçada por Keiko, a filha do ditador e genocida Alberto Fujimori; O uso de trolls foi uma de suas contribuições a política peruana, tanto que, do parlamento financiava pessoas para comandar trolls contra todos aqueles que eram seus antagonistas. Essa forma de fazer política vem de seu pai, que junto de seu assessor Montesinos, que em plena ditadura comprava a oposição ou a destruía nos jornais que criou.

[5] Jornalista fascista que compartilha fake news, ataca aos opositores da extrema direita. Trabalha para o canal mais fascista da televisão peruana: Willax. Esse canal é de um empresário que financiou todas as marchas contra o atual presidente e onde se expõem uma grande quantidade de gente de extrema direita, protofascistas, fascistas, etc. (hispanistas, libertários-ancaps, pór vidas, ultracatólicos, etc.) O mesmo jornalista vive no México pois recebeu denuncias por difamação e publicamente, ainda se discute sua acusação de pedofilia, que até agora não está bem explicado mas há indícios de que tenha usado seu poder pata destruir o caso.

[6] Modelos parecidos com 4chan, LegiònHolk, etc.

[7] A origem do grupo virtual mais tóxico do país, vem de um streamer de dota2 que permitia que as pessoas fizessem bully com ele pois isso lhe dava visibilidade e dinheiro. A “zuera” escapou de seu controle e agora o grupo age de maneira independente a ela. Tanto que roubaram a identidade deste streamer e agora está sendo levado aos tribunais por acusações de fraude e roubo.

[8] O Ágora é um grupo político da esquerda conservadora que reivindica o nacionalismo xenofóbico, suas atividades se limitam a uma praça da capital e também fazem lives através do Facebook. É através dessa plataforma digital que buscam seduzir aos membros dessa comunidade tóxica.

[9] Gente anarcocapitalistas (que grande idiotice) e todo esse lixo ultra neoliberal que vêm dos EUA.

Uma mensagem anárquica vinda do território peruano [24.01.23]

Considerando as distorções de informação que as esquerdas e direitas fazem sobre a rebelião peruana, desejamos compartilhar nossa percepção anarquista do que acontece nas mesmas entranhas desse corrupto e apodrecido estado chamado “Peru”.

Os protestos tem como vanguarda o campesinato, os primeiros a se mobilizarem. Ainda que as exigências sejam de caráter político (novas eleições, assembleia constituinte, etc.) estas passaram para o social e pouco a pouco vão se aderindo diversas reivindicações (que tanto a mídia de massas como a esquerda trata de maquiar como sendo políticas). No início os protestos foram esvaziados mas a repressão indignou o povo a ponto de acontecer um levante geral; o sentido de identidade unificou a nós andinos para lutarmos contra o opressor (quechuas, wanks, aymaras, chankas, etc.)

E agora estamos na etapa onde à força se fará cair a autoritária Dina Boluarte, que está escondida no castelo da extrema direita do Peru: Lima (a capital).

Essa crise desmascarou o que sempre foi maquiado com algo chamado: “democracia representativa”. Assim, a pobreza e a violência estatal extrema nas alturas dos andes, deliberadamente ignoradas pelas instituições do ESTADO e do CAPITAL, têm sido explícitas. O genocídio de Dina Boluarte e seu açougueiro Otarola, são uma pequena mostra do que historicamente se viveu e do que experimentaram nossas famílias e/ou etnias.

Xs assassinados pelas forças repressoras do Estado do PERU não deixam de aumentar, no exato momento em que nos encontramos escrevendo, os policiais e milicos mataram mais de 60 pessoas; crianças ou idosxs todxs faleceram frente os disparos a seus torços e cabeças… enchendo necrotérios e hospitais dos andes e do território do altiplano. Os feridos, detidos e torturados aumentam, a perseguição se aprofunda a ponto de censurar textos e perseguir editoriais e livrarias. Se mete bala ao transeunte e se paga bônus a polícia por seu trabalho de açougueiro.

Em 21 de janeiro a polícia fez operações em espaços autônomos como as universidades (as quais abrigavam manifestantes das províncias dessa região), casa de gente que deu guarida a seus conterrâneos de província, associações e coletivos que oferecem primeiros socorros. A polícia se sente empoderada pela presidenta assassina e apela para a violência para calar a boca de qualquer crítico (não se salva nem o pacifista, o legalista, todxs levam pau por serem “bocones”). E eis que a democracia peruano deu seus frutos, e nos faz viver o “agradável” caráter “legal” dos ESTADOS DE EMERGÊNCIA… momentos no qual as forças repressoras têm total liberdade de assassinar sem nenhuma responsabilidade penal. Enquanto os endinheirados das cidades celebram, aplaudem e beijam os assassinos. Outros são encarceradxs, perseguidxs, torturadxs ou assassinadxs.

Os ESTADOS DE EMERGÊNCIA também significam corrupção, algo que é da genética destas instituições repressoras, já que têm total liberdade de gasto e toda boa vontade do Ministério da Economia (o qual se caracteriza por ser dos mais tecnocratas e discriminatórios, quase um quarto poder).

Saem de Lima: Helicópteros, caminhonetes, ônibus, aviões de guerra, munição, e pessoal (desde a velha polícia de trânsito até o iniciante inexperiente do primeiro ano da escola de policiais). E logo, de acordo com que planejaram os açougueiros, distribuem a polícia nas zonas de bloqueios. As Forças Armadas, graças ao apoio dos EUA, se encontram empoderadas e mandam seus soldados matar na altura dos andes e infiltram suas equipes nas manifestações com o objetivo de ter caguetas, voyueristas e sabotadores.

Ao perceber que a resistência persiste e suas munições estão por acabar, mandam seus lambe-botas a loja de doces com 661 mil 530 dólares para adquirir todo tipo de guloseimas pelas quais são viciados (balas de borracha, gás lacrimogênio, sprays de pimenta, munição, etc.), dão bônus aos policiais e lhes prometem mais dinheiro por sua efetividade (até se financia contramarchas de fascistas, se compra líderes comunitários, etc.). Buscam todo tipo de apoio que seja… mobilizam pessoas dos círculos mais ilógicos (desde udex, trânsito, turismo), disfarçam carros de guerra dos milicos para os tornar democracy friendly, usam a mobilidade e a equipe de serenazgo (espécie de segurança municipal) e logo celebram (O PODER ECONÔMICO-POLÍTICO SEMPRE RECOMPENSA AO AÇOUGUEIRO)

Assim chegamos a uma encruzilhada onde fazer frente a esta loucura sangrenta significa ser um número a mais no necrotério. Onde o limenho racista te considera sub-humano por protestares. Onde te assassinar não trás problemas éticos ou religiosos (ao contrário as forças religiosas o celebram).

Também expomos que a luta que se observa nesta região é diversa, não acreditamos nos meios de comunicação ou influencers que expõem os protestos como “pacíficos”, “civilizados” ou “pela assembleia constituinte”, ou mesmo o delírio de serem “pela liberdade de Pedro Castilho”, não se deixem enganar. Tão pouco se deve dar atenção a propaganda de direita que superdimensiona a atividade de esquerda nos protestos, ao ponto e quererem levar o Peru a uma guerra com a Bolívia (por uma suposta “ingerência política”) ou de forçar uma guerra civil nesta região.

Para concluir; nós, mulheres, trans, machonas, maricones, lesbianas, trakas, não bináries, qhariwarmis, cabrxs, bissexuais e diversidades anarcas marrones, andines, aymaras, precarizadas que não sabemos de “justiça” aqui ou no exterior e sofremos o racismo continuamente… manifestamos que nunca estivemos fora dessa crise, jamais seremos indiferentes ao abuso de quem tem poder. Jamais esqueceremos os assassinatos, balas, golpes e agressões, e vamos devolvê-los. E a toda esquerda conservadora que quer se apropriar da luta como veículo político (Perú Libre, Antauristas, UPP, etc.) e que desejam que nos desapareçam, lhes dizemos: resistiremos e lutaremos pela libertação total!

SAÚDE Y ANARQUIA.

[DE ALGUMA PARTE DOS ANDES DO ESTADO GENOCIDA PERUANO]

O Modelo shac (II de II)

parte I publicada aqui.

O Futuro da SHAC

Apesar dos contratempos e sérios desafios que encontra nos Estados Unidos, a campanha SHAC continua até hoje. Algumas organizações regionais permanecem ativas, e ações autônomas continuam acontecendo, mas não existe organização em termos nacionais, não existem mais newsletters, nem sites confiáveis para publicizar alvos e reportar ações. Consequentemente existem menos alvos estratégicos e eventos nacionais, o que leva a um menor alcance e dificulta a criação de redes. O ponto positivo é que essa configuração torna mais difícil para as empresas saberem quem precisam intimar judicialmente, mas esse é um ponto positivo bastante limitado.

Esse declínio pode ser atribuído de maneira geral a repressão do governo e de maneira mais específica ao julgamento dos Sete da SHAC. O medo de repercussões legais aumentou ao mesmo tempo em que os principais organizadores foram tirados de ação. Com novas leis locais proibindo piquetes em residências, e o Animal Enterprise Terrorism Act de 2016 tornando ações contra alvos terciários interestaduais ilegais, muitas táticas que antes envolviam baixo risco hoje não são mais viáveis.

Agora que formas mais públicas de organização estão sendo punidas de maneira mais agressiva, parece possível que a próxima geração de ativistas pela libertação animal terá mais foco em táticas clandestinas. Uma das características mais fortes da campanha SHAC era a combinação de abordagens públicas e clandestinas, então essa não é necessariamente uma boa notícia para o movimento.

É bastante surpreendente que a HLS ainda exista; meia década atrás, organizadores da SHAC deviam estar apostando em já ter vencido a essa altura. Quando a Stephens Inc. retirou seu investimento, seus empréstimos eram tudo o que mantinham a HLS em pé; foi apenas outra intervenção do governo britânico que permitiu a HLS negociar um refinanciamento e continuar existindo. Essencialmente, a SHAC venceu, mas teve sua vitória roubada. A mesma situação aconteceu quando a SHAC forçou a Marsh Inc. a retirar sua participação, e HLS foi posta na situação de talvez ter de operar sem os seguros obrigados por lei. Outra vez, o governo britânico interveio, e a HLS obteve uma cobertura sem precedentes pelo Departamento de Comércio e Indústria. Sem a proteção desse bastião do poder, HLS já teria desaparecido há muito tempo, mas é precisamente pra isso que governos existem: para proteger corporações e preservar a tranquilidade do funcionamento do sistema capitalista. Talvez tenha sido inocente acreditar que os governos dos EUA e da Inglaterra permitiriam que mesmo a mais feroz das campanhas de libertação animal pudessem encerrar os negócios de uma empresa influente. Não é possível lutar como se não houvesse amanhã, indefinidamente, e as repetidas vezes que a HLS voltou dos mortos deve ter sido o suficiente para enlouquecer os organizadores mais antigos da SHAC, que deram tudo de si várias vezes no que sempre parecia ser o golpe final. Os participantes não tem acordo sobre quão significante foi o fator da exaustão, mas seria tolice desconsidera-lo. A campanha SHAC tem sido orientada como ativismo em tempo integral desde o começo, a mentalidade sendo, da mesma forma que os funcionários da HLS trabalham todos os dias, seus oponentes deveriam trabalhar no mínimo com o mesmo afinco. Artigos como “Rotina de Exercícios do SHACtivista” indicam uma abordagem com bastante pressão, que provavelmente se correlaciona com o alto nível de exaustão. Por mais difícil que seja, encontrar diferença entre os efeitos da exaustão do medo da repressão, muitos ativistas se afastaram da SHAC não voltaram a se aproximar de outras campanhas. A SHAC continua ativa no continente europeu e na América Latina, e incansável na Inglaterra. A campanha britânica da SHAC talvez ofereça um melhor modelo de como lidar com a repressão federal; parece que os ativistas britânicos já estavam preparados para isso, com pessoal pronto para assumir os postos de organizadores centrais, e mais abertos para o envolvimento de novas pessoas. Mas a Inglaterra é mais densamente populosa que boa parte dos Estados Unidos e tem uma história mais rica de luta pelo direito dos animais , então é injusto comparar tão de perto as duas campanhas.

A SHAC um dia vai conseguir fazer a HLS fechar as portas definitivamente ? É possível, apesar de que parece menos provável do que parecia alguns anos atrás. Alguns ainda acreditam que o mais importante é fechar a HLS custe o que custar, para obter uma vitória que inspiraria ativistas e aterrorizaria executivos pro décadas. Outros pensam que a HLS fechando ou não, a SHAC serviu seu propósito, demonstrando a força e as limitações de um novo modelo de organização anticapitalista.

Características do Modelo SHAC

Quando as pessoas pensam na SHAC, elas pensam em protestos na frente da casas de empregados e investidores; alguns anarquistas não se referem a nada além disso quando citam o “modelo SHAC”. Mas manifestações na frente de residências são uma pequena parte do que permitiu a SHAC aterrorizar a HLS. Para compreender o que fez a campanha efetiva, nós precisamos olhar para a totalidade de suas suas características essenciais.

Alvos secundários e terciários: O objetivo da campanha SHAC era negar a HLS sua estrutura de apoio. Assim como um organismo vivo depende de todo um ecossistema para recursos e relações que o mantém vivo, uma empresa não consegue funcionar sem investidores e parceiros de negócios. Nesses ternos, mais do que em qualquer boicote, destruição de patrimônio, ou campanha pública, a SHAC confrontou a HLS da maneira mais ameaçadora possível para uma empresa. A Starbucks poderia pagar facilmente dez mil vezes o prejuízo das vidraças quebradas pelos blackblocs durante os protestos de Seattle, mas a história seria bem diferente se ninguém repusesse aqueles vidros, ou se os vidros quebrados fossem das casas dos investidores, fazendo com que ninguém quisesse investir na empresa. Os organizadores da SHAC aprenderam as maquinações internas da economia capitalista, assim atacavam de modo mais estratégico.

Alvos secundário e terciários funcionam pois os alvos não tem um interesse tão firme em continuar seu envolvimento com o alvo primário. Existem outros lugares para onde eles podem levar seus serviços, e não há nada que os impeça. Esse é um aspecto vital para o modelo SHAC. Se uma empresa está sendo pressionada, ela irá lutar até a morte, e nada além da força bruta que cada parte é capaz de exercer sobre a outra fará diferença; o que não tende a ser vantajoso para os ativistas, já que empresas podem acionar a polícia e o governo. É por isso, que exceto pelo incidente com os cabos de machado, tão poucos esforços na campanha SHAC foram direcionados a HLS em si. Em algum lugar entre o alvo primário e as empresas associadas que provém sua estrutura de apoio, parece haver um nervo exposto, onde a ação se torna mais efetiva. Pode soar estranho agir contra alvos terciários que não tem conexão direta com os alvos primários, mas incontáveis aliados da HLS cortaram relações após um de seus clientes sofrer algum constrangimento.

• Relação de apoio entre ações públicas e clandestinas: Mais do que qualquer outra campanha de ação direta na história recente, a campanha SHAC alcançou uma simbiose perfeita entre organização públicas e ações clandestinas. Para esse fim, a campanha era caracterizada por um uso bastante sofisticado da tecnologia e networking moderno. Os sites da SHAC disseminavam informações sobre alvos e ofereciam um fórum para relatos de ações para aumentar a moral e as expectativas, permitindo que qualquer um simpático aos objetivos da campanha pudesse contribuir, sem chamar atenção para si.

• Diversidade de táticas: Ao invés de colocar um tipo de tática em oposição a outra, a SHAC integrou todas as táticas possíveis em uma campanha, onde cada abordagem complementava a outra. Isso significava que seus participantes podiam agir dentro de uma gama ilimitada de opções, o que manteve a campanha acessível para um público amplo e preveniu conflitos desnecessários.

• Alvos concretos, motivações concretas: O fato de que haviam animais específicos sofrendo, cujas vidas podiam ser salvas por ação direta específica, tornou essas questões concretas e deu a campanha um senso de urgência que se traduziu em uma vontade de alguns dos participantes de arrancarem a si mesmos de suas zonas de conforto. Do mesmo modo, a cada conjuntura na campanha SHAC, haviam objetivos intermediários que podiam facilmente serem alcançados, assim a tarefa monumental de enfraquecer toda uma empresa nunca pareceu algo grandioso de mais. Isso contrasta drasticamente com o modo como o impulso de certos círculos do anarquismo verde morreu após a virada do século, quando os objetivos e alvos se tornaram muito vastos e abstratos. Até então era fácil para indivíduos motivarem a si mesmos a defender árvores e áreas naturais específicas, mas uma vez que o objetivo de alguns participantes se tornou “destruir a civilização” e qualquer coisa menor que isso fosse mero reformismo, se tornou impossível construir qualquer ação significativa.

Vantagens do Modelo SHAC

Quando o modelo criado pela SHAC é aplicado corretamente, suas vantagens são óbvias. Ela atinge corporações onde elas são mais vulneráveis: empresas não fazem o que fazem por terem compromissos éticos ou para manter certa imagem na opinião pública, seu único objetivo é a busca por lucro, e o modelo SHAC foca exclusivamente em trazer prejuízos a empresa. Se tratando da construção e manutenção de uma campanha de ação direta a longo prazo, o modelo SHAC oferece direção e motivação aos participantes, apresentando um modelo para ações menos abstratas e mais concretas. O modelo SHAC contorna o conflito sobre táticas, oferecendo a oportunidade para ativistas com diferentes capacidades e níveis de conforto trabalharem juntos. Ao estabelecer uma ampla gama de alvos, isso dá aos ativistas a oportunidade de escolher a hora, o lugar e o caráter de suas ações, ao invés de estarem constantemente reagindo ao seus inimigos. Acima de tudo, o modelo SHAC é eficiente: em nenhum momento a SHAC USA teve mais do que umas poucas centenas de participantes ativos.

Em contraste com a maioria das estratégias de organização, o modelo SHAC tem uma abordagem ofensiva. Ela oferece um meio de atacar e derrotar projetos capitalistas bem estabelecidos, tomar iniciativa, mais do que apenas responder ao avanço do poder empresarial. A SHAC não surgiu motivada a impedir a construção de um novo laboratório de testes de animais ou a aprovação de algumas leis, mas para derrotar e destruir uma empresa de testes em animais que já existia há décadas. O modelo SHAC pede e incentiva uma cultura que não apenas celebra a ação direta mas que constantemente age através dela, encorajando os participantes a irem além de seus limites. O que se contrasta drasticamente com os círculos auto intitulados insurrecionarios, onde anarquistas falam muito sobre se rebelar e resistência sem entrar no confronto diário com os poderes que nos oprimem. Ativistas Antiglobalização em Chicago as vezes pediam aos organizadores da SHAC pra puxarem palavras de ordem em seus protestos, por conta da fama que tinham de serem enérgicos e confiantes: os que afiaram seus dentes na campanha SHAC, se não se afastaram totalmente das atividades de ação direta, estão equipados para serem efetivos em um espectro amplo de contextos. Uma vantagem mais discreta do modelo SHAC é que ele deixa nítido as tenções de classe que geralmente estão abaixo do radar nos EUA. Ativistas de classe média baixa, e de contextos trabalhadores podem considerar confortante usar o pixo como maneira de desafiar executivos ricos em seu próprio território. Isso também expõe os ativistas de uma causa só a suas interconecções com a classe dominante. Ao visitar a casa de executivos, é possível descobrir que todas empresas farmaceuticas e de investimentos estão conectadas: todos possuem ações das companhias uns dos outros, eles sentam nas mesmas mesas de diretoria, e vivem e suas idênticas mansões suburbanas em condomínios de muros altos.

Por fim, o modelo SHAC tomou vantagem de oportunidades oferecidas por eventos e comunidades maiores. Os protestos na frente das casas geralmente aconteciam após uma assembleia ou show; o imenso número de potenciais alvos significava que sempre havia algum não muito distante.

Por muitos anos, protestos da SHAC aconteciam durante a National Conference on Organized Resistance em Washington, DC, e também aconteceram após os protestos anti-biotecnologia na Philadelphia e Chicago.

Algumas vezes essa tática causou conflitos com outros organizadores, não é preciso mais do que duas dúzias de pessoas para fazer um protesto efetivo em uma zona domoiiliar, então sempre foi muito fácil criar a situação.

A SHAC em si, tende a criar e repercutir uma subcultura própria, completa com pontos de referência internas e rituais. Em assembleias e eventos maiores, ativistas comparavam anotações sobre investidores, campanhas locais, e problemas judiciais. Cenas musicais simpáticas ajudaram a financiar organizações e a trazer sangue novo para a campanha. Seria difícil imaginar a campanha SHAC nos EUA sem a cena do hardcore das últimas duas décadas, que constantemente serviu como base social para os militantes dos direitos dos animais. Certamente existem pontos negativos em aproximar tanto uma campanha a uma subcultura da juventude, mas é melhor atrair participantes e fôlego de uma comunidade do que de nenhuma.

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Falsas Polêmicas

Alguns anarquistas, impulsivamente acusaram a SHAC de reformismo. Isso é um absurdo: o objetivo da SHAC não é de mudar a maneira como a HLS conduz seus negócios, mas acabar totalmente com a empresa. É mais preciso descrever a SHAC como uma campanha abolicionista: sendo incapaz de acabar com a exploração animal de um só golpe, ela busca alcançar o passo mais ambicioso e plausível dentro deste fim. De forma similar, alguns críticos entediados ridicularizaram os esforços de libertação dos animais com o argumento de que eles seriam “ativistas”, implicando que isso seria algo inerentemente ruim. Os que adotam essa posição deveriam dar uma passo adiante e assumir que eles não se comovem com a opressão de outras criaturas vivas e não enxergam valor em tentativas de encerrar esse sofrimento, o que quer dizer que, eles dificilmente sejam anarquistas.

Desvantagens e Limites

Falsas acusações à parte, o modelo SHAC têm limitações reais, que merecem ser examinadas.

Primeiro, existem alguns pré requisitos sem os quais ela irá falhar. Por exemplo, o modelo SHAC não pode ser bem sucedido fora de um contexto onde a ação direta seja aplicada regularmente. Todo pensamento estratégico do mundo é inútil se ninguém está de fato disposto a agir. Nos círculos dos militantes pelo direitos dos animais, as questões em jogo eram entendidas como concretas e urgentes o suficiente para participantes serem motivados a assumir riscos regularmente; sem essa motivação, a campanha SHAC não teria saído do chão. Do mesmo modo, o modelo SHAC não tem poder contra alvos que não dependam de alvos secundários e terciários, ou que tenha um suprimento infinito deles para escolher. Acima de tudo, os alvos secundários e terciários devem ter outro lugar para onde levar seus negócios, o modelo SHAC depende do resto do mercado capitalista oferecendo melhores opções. Nesse sentido, embora não seja reformista, ela também não oferece uma estratégia para combater frontalmente o capitalismo.

Em segundo lugar, por mais eficazes que sejam em termos puramente econômicos, os alvos secundários e terciários põem o local do confronto longe da causa pela qual os participantes estão lutando. Falando e maneira geral, quanto mais abstrato o objeto da campanha, pior para a moral. Muito vitalidade das lutas por defesa ecológica nos anos 80 e 90 vem da conexão imediata, visceral, que os defensores da floresta experenciaram com a terra que estavam ocupando; quando o ativismo pelo meio ambiente começa a se mover para terrenos mais urbanos uma década atrás, ele perdeu parte de seu ímpeto. Talvez seja específico para a campanha SHAC que os participantes sejam capazes de manter sua revolta e audácia mesmo tão longe do objeto de sua preocupação; é arriscado assumir que isso sempre acontecerá em outros contextos.

Exceto por esses desafios, o modelo SHAC talvez seja inefetivo justamente por sua efetividade. É razoável mirar em fechar empresas poderosas, ou o governa sempre irá interceder ? É possível que por se apresentar como uma ameaça para as empresas, em termos econômicos, que o modelo SHAC compre uma briga que não pode vencer. Uma vez que o governo tenha se envolvido em um conflito, é preciso mais que uma rede de militantes para vencer, é necessário todo um movimento social de larga escala, e a abordagem da SHAC sozinha não é capaz de dar origem a algo assim. Nesse caso, a maior força do modelo SHAC é também sua maior vulnerabilidade.

O tempo dirá se a HLS foi um alvo muito ambicioso; a empresa ainda pode vir a colapsar. Mesmo assim, provavelmente seria inteligente que os próximos a experimentar com o modelo, escolher objetivos menores, e não algo ainda mais ambicioso, já que a campanha SHAC em si, ainda não foi bem sucedida. Talvez um terreno inexplorado aguarde entre fechar lojas de peles específicas e tentar fechar a maior empresa de testes em animais da Europa. Isso não quer dizer que o modelo SHAC é inútil caso não resulte no fechamento de seu alvo. As vezes é válido lutar e perder em uma batalha para desencorajar um oponente de começar outra batalha; em outros momentos, mesmo ao perder, é possível ganhar experiência e aliados valiosos. Ironicamente o modelo SHAC talvez seja mais efetivo em recrutar pessoas para organizar ação direta, do que para seu suposto objetivo, precisamente porque, ao contornar o recrutamento e focar em outros objetivos, isso atrai participantes que são sérios e comprometidos.

Mas se o objetivo for trazer mais pessoas a organização de ação direta ao invés de simplesmente fechar uma única empresa, existem desafios relevantes a serem considerados, por exemplo o alto nível de stress e a propensão ao burnout. Nesse sentido, não é necessariamente uma vantagem que o modelo SHAC ensine ativistas a pensar dentro da mesma lógica que economistas capitalistas (eficiência, economia, cadeia de comando) ao invés de priorizar as habilidades sociais necessárias para construir comunidades de resistência a longo prazo.

Assim como, ao focar em alvos secundários e terciários, o modelo SHAC enfatiza e recompensa uma atitude agressiva que é menos vantajosa em em outras situações. Quais são os efeitos psicológicos de longo prazo nos participantes que passaram metade de uma década ou mais, gritando em um megafone na frente da casa de funcionários ? Que tipo de pessoas são atraídas para uma campanha que consiste primariamente em tornar a vida de outras pessoas um pesadelo ? Não podemos deixar de apontar que alguns anarquistas relataram interações frustrantes com organizadores da SHAC.

Considerando o modelo por uma perspectiva anarquista, com qual intensidade a abordagem da SHAC tende a consolidar ou contestar hierarquias ? A segurança necessária para ações diretas clandestinas podem incentivar um tribalismo que se intensifica conforme aumenta a repressão, impedindo assim a campanha de atrair mais participação justamente quando for mais necessário. Hierarquias informais são um problema em todos tipos de organizações, aqueles que fazem pesquisas geralmente tem uma influência desproporcional sobre a direção da campanha e acabam sendo responsáveis pode tomadas de decisões que tem efeitos no logo prazo.

É possível argumentar que o foco numa só questão e a natureza focada em objetivos práticos da campanha SHAC não age contra outra hierarquia que não a opressão dos animais. Não é segredo que grupos organizados dentro da SHAC foram destruídos por conflitos sobre dinâmicas de gênero e nem todos participantes foram responsabilizados por seus comportamentos. Em uma campanha que enfatiza a sobretudo vitória, isso não é surpreendente, se vencer é o mais importante, é fácil abafar conflitos internos, especialmente com a adição do stress da repressão federal. Inevitavelmente, as pessoas que tiveram más experiências afastam-se da campanha, levando junto as críticas que outros deveriam ouvir.

Essas prioridades questionáveis também se manifestaram em algumas táticas de mau gosto. Em um caso, um alvo que estava lutando para escapar do alcoolismo recebeu uma lata de cerveja com junto com um bilhete; em outro caso a calcinha de uma mulher foi roubada e supostamente posta a venda. Utilizar a assimetria de poder da sociedade patriarcal para atingir aliados de alvos que contribuem para a opressão animal dificilmente serve como exemplo de luta contra todas as dominações.

Existem outras questões éticas sobre utilizar alvos secundários e terciários. É aceitável arriscar aterrorizar ou machucar secretárias, crianças, e outras parte que não estão diretamente envolvidas ? O que separa anarquistas de governos e outros terroristas, se não a recusa de aceitar dano colateral ?

Em essência, a SHAC é um modelo de campanha de coerção, para ser usada em situações em que não há possibilidade de outra forma de resolução de conflito. Isso não entra em conflito com valores anarquistas, quando um opressor se recusa a se responsabilizar por suas ações, é necessário obriga-lo a parar, e isso se estende para aqueles que o auxiliam e incentivam. Mas envolver pessoas que não estão participando diretamente da opressão, é uma área cinza. Quando um organizador expõe um alvo, não há como saber que tipo de ações vão ser tomadas. Talvez encerrar a opressão animal pese mais que esses riscos e custos, mas anarquistas não deveriam ficar muito confortáveis com esse tipo de racionalização.

Outras Aplicações do Modelo SHAC

Muito tem se falado de aplicar o modelo SHAC em outros contextos, mas poucos desses esforços produziram algo comparável com a campanha SHAC. Algumas reflexões são necessárias. É válido apontar que parte do hype sobre as possibilidades de aplicação do modelo SHAC vem direto de declarações da HLS, e por isso deveriam ser tomadas com ceticismo. A HLS não está interessada em promover novos métodos de ação direta, mas sim em criar medo o suficiente para que outros membros da classe dominante venham ajuda-los; assim, quando eles dizem que as táticas da SHAC podem ser usadas efetivamente contra qualquer alvo, isso não necessariamente é real. O mesmo vale para análises sensacionalistas de organizações como Stratfor, cujo objetivo primário para ser aterrorizar o público e faze-lo sentir necessidade de consumir a “inteligência” que a empresa vende.

É possível que por conta da campanha SHAC ter se mantido ativa enquanto outras formas de organização se desmobilizaram, que ela tenha exercido uma influência desproporcional na imaginação dos anarquistas, de tal maneira que muitos tendem a imitar o modelo organizacional do modelo SHAC mesmo quando ele não é estrategicamente efetivo. Falhas podem ser tão instrutivas quanto sucessos; infelizmente, como elas são esquecidas mais rapidamente, tendem a ser repetidas de novo e de novo. Por isso, qualquer consideração sobre o modelo SHAC deve ter em mente o exemplo do Root Force.

Root Force surge dos círculos do Earth First! Anos atrás, com a intenção de promover uma campanha no estilo SHAC, mirando a infraestrutura do capitalismo global, um objetivo exponencialmente mais ambicioso que fechar a HLS. Os organizadores pesquisaram as empresas envolvidas em projetos de infraestrutura sensíveis como rodovias transnacionais e usinas elétricas. Foi criado um site para divulgar essas informações e quaisquer ações que fossem realizadas; eventos foram realizados por todo o país para divulgar o projeto. Parecia que todas as peças estavam em seus devidos lugares, e mesmo assim, nada aconteceu.

No começo de 2008, Root Force publicou uma declaração sob o título de “Uma Estratégia Revisada” na qual reconhecia que seus esforços haviam falhado em produzir uma campanha de ação direta efetiva e descreveu suas dificuldades de tentar inspirar ações contra projetos de infraestrutura localizados a uma distância tão grande que parecem totalmente abstratos.

Root Force não entendeu como campanhas de ação direta ganham fôlego. Tanto a ação quanto a inação, são contagiosos. Se algumas pessoas estão comprometidas o suficiente com uma causa a ponto de arriscarem sua liberdade, outros podem vir a fazer o mesmo; ninguém deseja se isolar, uma estratégia razoável sozinha não é o suficiente para inspirar ações. Uma ação direta séria, devidamente bem publicizado pela Root Force teria valido cem eventos de divulgação.

A campanha da Root Force teve outras falhas. Se o objetivo era simplesmente dar aos participantes algo para fazer, a estratégia foi tão boa quanto qualquer outra; mas se eles tinham esperanças de impedir a construção de qualquer rodovia ou usinas de energia essenciais para a expansão do mercado capitalista, eles teriam de mobilizar muito mais força que a campanha SHAC. Se os alvos que escolheram realmente fossem de importância crítica para os poderosos, o governo teria mobilizado todos seus recursos para os defender. Exagero na escala é o erro número um dos movimentos de resistência: ao invés de optar por objetivos alcançáveis e lentamente construir através de suas vitórias, os organizadores cavam a própria derrota ao pular diretamente para um embate final com o capitalismo global. Nós podemos lutar e vencer batalhas ambiciosas, mas pra isso precisamos reconhecer de forma realista nossas capacidades.

Outras abordagens inspiradas pela SHAC se caracterizaram pela ênfase nos protestos na frente da casa de alvos. Por exemplo, nos últimos anos, manifestantes anti-FMI e o World Bank têm experimentado com protestos na frente77 da casa de executivos e financiadores. Em 2006, enquanto Paul Worfowitz era presidente do World Bank, houve uma série de manifestações na casa de sua namorada; eventualmente ela se mudou. Isso não parece ter impactado o FMI no mesmo nível que levantes antiglobalização ao redor do mundo. Sarcasmo à parte, há pouco a se ganhar ao assediar pessoas como Wolfowitz: diferente dos alvos terciários que a SHAC mirava, eles não vão simplesmente levar seus negócios pra outro lugar.

De maneira similar, durante a Convenção Republicana de 2004, alguns organizadores chamaram por protestos com foco em assediar delegados. O risco dessa abordagem é que ela pode retratar o conflito como uma rixa mesquinha entre os manifestantes e as autoridades, ao invés de um movimento social que é capaz de atrair participação massiva. Assim como Wolfowitz, delegados republicanos dificilmente vão se aposentar porque meia dúzia de manifestantes gritou com eles, e mesmo se alguns se aposentassem, eles seriam substituídos instantâneamente. Uma proposta para os protestos na RNC em 2008 envolvia ativistas mirando empresas que prestavam serviços a convenção. Mirar empresas prestando serviços talvez tivesse ajudado a dar fôlego ao que viria, mas é pouco provável que essas ações fossem capazes de privar uma organização tão podersa como o Partido Republicano, dos recursos necessários. O mesmo vale para propostas de mirar nas empreiteiras do ramo de armamentos, servindo o exército dos EUA, pode ser algo excitante para os manifestantes fazerem, mas ninguém deveria subestimar o que seria necessário para fazer uma corporação como a Boeing cortar laços com os militares dos EUA.

Alguns enxergam a Rising Tide e a Rainforest Action Network como campanhas contra o bank of América como parentes da campanha SHAC; embora sejam descendentes diretas de campanhas ambientais que a precederam, também adotaram assediar alvos secundários. No fim de 2008, num contexto de caos econômico, Bank of America declarou que estaria deixando de financiar empresas que se envolviam majoritariamente com mineração no cume de montanhas. Por mais insincera que essa declaração seja, ela indica que a campanha obrigou o BOA a tomar uma inciativa. Ambientalistas em Indiana obtiveram menos sucesso tentando parar a construção da rodovia I-69 via uma combinação protestos em residências e escritórios, e táticas de ocupação de floresta. Em “A Revised Strategy”, Root Force cita a I-69 como um projeto de infraestrutura essencial; seria interessante ver como o estado responderia caso a luta contra a I-69 tivesse ganho força.

Com tudo isso, não queremos dizer que o modelo SHAC não pode ser aplicado efetivamente, mas enfatizar que ativistas devem ser intencionais e estratégicos sobre onde e como fazê-lo. É provável que existam situações em que o modelo pode alcançar ainda mais do que foi capaz com a SHAC; sem dúvidas existem outros contextos em que ele pode ser contraproducente.

Repetimos, a campanha SHAC nos EUA envolveu apenas umas poucas centenas de participantes; uns poucos milhares possivelmente poderiam enfrentar um adversário maior. Mesmo forçar o governo a resgatar uma empresa da falência, pode ser considerado uma importante vitória. Até hoje, ainda não sabemos onde serão encontradas aplicações eficazes do modelo SHAC para além da campanha onde teve origem.

O Modelo shac (I de II)

Retirado da Anarchist Library, publicado originalmente pela CrimethInc. em primeiro de Setembro de 2008.

Dedico com carinho a todas e todes que pensam e agem contra as grandes empresas que fazem nossa terra e nossas comunidades sangrarem. Morte ao garimpo, morte as mineradoras, morte as madeireiras. Viva o povo auto organizado e a autodefesa popular.


“Nós estamos cientes desses ativistas, mas não sabemos até que ponto eles estão dispostos a ir.”

– Warren Stevens, que apesar de ter jurado não recuar do investimento de 33 milhões de dólares que faria à Huntingdon Life Sciences, desistiu após encarar protestos nos seus escritórios em Little Rock e vandalismo na sua casa.

“O número de ativistas não é grande, mas o impacto que eles possuem é incrível… É preciso compreender que essa é uma ameaça para todas as indústrias. Essas táticas podem se usadas contra qualquer setor da economia.”

– Brian Cass, diretor da HLS

“Onde todos os grupos de bem estar animal e a maioria dos grupos de direitos dos animais insistem em agir dentro da legalidade, abolicionistas da causa animal insistem que estados são irremediavelmente corruptos e que uma abordagem legal sozinha, nunca irá garantir justiça para os animais.”
– ALF

Na última década, Stop Huntington Animal Cruelty – SHAC – sustentou uma campanha internacional de ação direta contra a Huntington Life Science, a maior empresa europeia de testes em animais. Ao mirar em investidores e parceiros de negócio da HLS, a SHAC repetidamente levou a HLS à beira do colapso, e essa precisou de apoio direto do governo britânico e de uma contra-campanha internacional de repressão para manter a empresa funcionando.

Durante a campanha, haviam propostas de aplicar o modelo SHAC em outros contextos, como defesa ambiental e protestos anti guerra. Mas o que é exatamente o modelo SHAC ? Quais são suas forças e limitações ? É de fato um modelo efetivo ? E se sim, para o quê ?


Primeiro, um Glossário

Visto de fora, o círculo dos direitos dos animais pode ser difícil de compreender, mesmo para outros radicais. Por um lado, o foco intenso nessa única problemática pode contribuir para uma mentalidade mais isolada, ou mesmo míope; Por outro lado, existem incontáveis ativistas da causa animal que veem seus esforços como parte de um conflito maior, contra todas as formas de opressão.

Aqueles que não estão familiarizados com o funcionamento interno destes círculos frequentemente confundem as posições de facções opostas. Aceitando o risco de ser simplista, é possível identificar três escolas de pensamento distintas:

Bem-Estar Animal – A ideia de que animais devem ser tratados com piedade e compaixão, especialmente quando são usados para benefício humano como alimento e produção. Por exemplo, alguns ativistas do bem-estar animal fazem lobby no governo para a criação de leis mais humanas para o abate.
Exemplo: a Sociedade Humana dos Estados Unidos (HSUS)

Direitos dos Animais – A ideia de que animais têm seus próprios interesses e merecem uma legislação que os proteja. Aqueles que acreditam nos direitos dos animais comumente são veganos e se opõem ao uso de animais para o entretenimento, experiências, alimentos ou vestimentas. Eventualmente participam de protestos ou desobediência civil, mas geralmente acreditam em trabalhar de dentro do sistema, através de lobby, marketing, e o uso de mídias corporativas.
Exemplo: Pessoas pelo Tratamento Ético aos Animais (PETA)

Libertação Animal – A ideia de que animais não deveriam ser domesticados ou mantidos em cativeiro. Já que isso não é possível dentro da lógica do atual sistema social e econômico, abolicionistas da causa animal normalmente estão alinhados com o anarquismo, e podem quebrar leis para resgatar animais ou preservar seus habitats.
Exemplo: a Frente de Libertação Animal (ALF)[1]

Muitos grupos com foco no bem-estar e nos direitos dos animais criticam aqueles que se engajam em ação direta, argumentando que tais ações ferem a imagem de todos ativistas e afastam possíveis simpatizantes. Também é possível interpretar essas críticas como motivadas pela intenção de se criar uma base de simpatizantes ricos e pelo medo de ser alvo de repressão governamental. Além de não apoiarem ação direta, proibirem seus funcionários de interagirem com quem as faz, e não participar de conferências que incluam palestrantes mais militantes, organizações como a HSUS já agradeceram ao FBI por reprimir ações do campo da libertação animal. Em 2008, HSUS ofereceu uma recompensa de $2500 para qualquer um que desse informações que levassem a prisão das pessoas envolvidas em um incêndio criminoso, que segundo o FBI, possuía conexões com ativistas dos direitos dos animais.

[1] Diferente do HSUS e PETA, a ALF não é oficialmente uma organização, mas sim uma bandeira sob a qual agem células autônomas que não necessariamente têm conexões umas com as outras.


A História da SHAC: Origens do Outro Lado do Oceano

A campanha da SHAC começa no Reino Unido, após uma série de fechamentos de laboratórios de reprodução animal, onde se usou desde táticas de piquete a invasões da ALF, e confrontos com a polícia. Vídeos gravados secretamente dentro das instalações da HLS em 1997 foram exibidos na televisão britânica, mostrando os funcionários chacoalhando, agredindo e gritando com beagles no laboratório da HLS. Em Novembro de 1999, após ser ameaçado de processo, o PETA parou de organizar protestos contra a HLS, e a SHAC ganhou corpo para avançar a campanha.

Huntington Life Sciences era um inimigo mais formidável que qualquer empresário do ramo da criação de animais; a campanha SHAC foi uma escalada no ativismo pelo direitos dos animais no Reino Unido. A ideia era focar especialmente nas finanças da empresa, usando táticas que já haviam funcionado para fechar pequenos negócios, para liquidar toda a corporação. Ativistas agiram para isolar a HLS assediando qualquer um envolvido com qualquer empresa que fizesse negócio com eles. O papel da SHAC como uma organização era simplesmente de distribuir informação sobre potenciais alvos e reportar as ações conforme iam acontecendo.

Em Janeiro de 2000, ativistas britânicos publicaram uma lista dos maiores acionistas da HLS, incluindo aqueles que mantinham ações através de empresas de fachada, para se manterem anônimos; um deles inclusive, era do partido trabalhista britânico. Após duas semanas de manifestações organizadas, muitos acionistas venderam suas ações; finalmente, 32 milhões em ações foram postas na London Stock Exchanges por um penny cada e as ações da HLS despencaram. Nesse caos, o Banco Real da Escócia concedeu um empréstimo de 11.6 milhões de libras por apenas uma libra, na tentativa de se distanciar da empresa, e o governo britânico arranjou uma conta para eles no Banco da Inglaterra, pois nenhum outro banco queria aceita-los. O preço das ações da companhia, que valiam em torno de 300 libras em 1990, caíram para 1.75 em Janeiro de 2000, estabilizando em 3 no meio de 2001.

Em 21 de Dezembro de 2000, HLS foi retirada da Bolsa de Valores de Nova York; três meses depois, perdeu seu lugar na Bolsa de Valores de Londres também. HLS só foi salva da falência quando o seu maior acionista restante, o banco americano de investimentos Stephens, deu a companhia 15 milhões de dólares de empréstimo. Esse capítulo da história se encerra com a HLS movendo seu centro financeiro para os Estado Unidos para tirar vantagem das leis que permitem maior anonimato para os acionistas.

Nos EUA

Enquanto isso, nos EUA, as campanhas contra abate de animais que caracterizaram a maior parte do ativismo pelos direitos dos animais havia estagnado; as táticas de desobediência civil desenvolvidas nessas campanhas haviam chego a um limite, e muitos ativistas estavam em busca de novos alvos e estratégias. Uma facção dos grupos pelos direitos dos animais, exemplificada pela Vegan Outreach e DC Compassion Over Killing, passou a promover o veganismo. Ativistas mais militantes buscavam outras perspectivas. Alguns, como Kevin Kojnaas, que veio a se tornar presidente da SHAC USA, estiveram no Reino Unido nos anos 90, como militantes antiglobalização, e testemunharam o apogeu da campanha da SHAC britânica, e voltaram trazendo histórias inebriantes de ações do Reclaim the Streets.

A campanha da SHAC EUA surgiu do diálogo entre ativistas pelo direito dos animais em diferentes partes do país. Enquanto a campanha pela divulgação do veganismo buscava apelar para o mínimo denominador comum para convencer consumidores, a SHAC atraiu militantes que queriam fazer um uso mais eficiente de seus esforços individuais. Alguns argumentaram que era pouco provável que todo o mercado baseado em exploração animal fosse vencido pelo veganismo, mas praticamente todos concordavam que matar animaizinhos era intolerável.

A SHAC EUA teve início em Janeiro de 2001, no mesmo momento que Stephens Inc. salvou a HLS da falência. Stephens tinha sede em Little Rock, Arkansas, então alguns ativistas foram para lá para se mobilizarem. Em Abril, 14 beagles foram libertos do novo laboratório da HLS em New Jersey; no fim de Outubro, centenas de pessoas se reuniram em Little Rock para um fim de semana de manifestações na casa de Warren Stephen e escritórios da Stephen Inc. Na primavera seguinte, Stephens desligou a HLS, quebrando um contrato de cinco anos, após apenas um ano.

A SHAC se espalhou rapidamente pelos EUA, como uma campanha de tamanho e efetividade sem precedentes. Em parte, graças a seu financiamento superior [2], suas peças de propaganda eram brilhantes e empolgantes, como vídeos de divulgação que intercalavam imagens de violência contra animais com ações inspiradoras com uma trilha sonora de tecno acelerada. A campanha oferecia a seus participantes uma vasta gama de opções, incluindo desobediência civil, ligações, trotes, e rodas de conversa. Em contraste com os melhores dias do movimento antiglobalização, os alvos estavam espalhados, e disponíveis, por todo o mapa dos Estados Unidos. Os objetivos imediatos de forçar investidores específicos e parceiros comerciais de se desligarem da HLS, geralmente eram facilmente atingidos, dando uma sensação de gratificação imediata para os participantes.

Enquanto um indivíduo poderia se sentir insignificante em um protesto anti guerra com milhares de pessoas, se ela fosse uma das dezenas que participaram de um protesto na casa de um investidor que desistiu de apoiar a HLS, ele poderia sentir que conquistou algo concreto. A campanha SHAC ofereceu o tipo de conflito contínuo de baixa intensidade através do qual as pessoas puderam ser radicalizadas e desenvolverem um senso de poder coletivo. Fazer táticas de blacblock com seus amigos, escapar da polícia depois das manifestações, ouvir falas inspiradoras juntos, invadir escritórios gritando com megafones, ler sobre as atividades de outros ativistas na internet, a sensação de estar no lado vencedor de um esforço efetivo de libertação – tudo isso contribuiu para o sentimento de que a campanha SHAC era imparável.

[2] Diferente de muitos movimentos sociais, o movimento pelos direitos dos animais é apoiado por doadores ricos, e nós podemos assumir isso pois alguns deles doaram para a SHAC.

Ação

“A Carr Securities começou a fazer o marketing das ações Huntington Life Sciences. No dia seguinte, o Iate Clube Manhasset Bay, o qual certos executivos da Carr fazem parte, foi vandalizado por ativistas pelo direitos dos animais. Os extremistas enviaram uma nota ao site da SHAC assumindo a responsabilidade, e três dias depois do incidente a Carr encerrou seus negócios com a HLS.”
– John Lewis, Diretor assistente de Monitoramento do FBI do assim chamado “Eco-terrorismo”.

Ação direta contra os parceiros da HLS tomou inúmeras formas, ocasionalmente escalando para incêndios criminosos e violência. Em Fevereiro de 2000, Brian Cass, o diretor da HLS foi hospitalizado após levar uma surra de cabo de machado em sua casa. Em Julho daquele ano, os Piratas Pela Libertação Animal afundaram o iate de um executivo do Banco de Nova York, e o banco logo cortou seus laços com o laboratório. Um ano depois, bombas de fumaça foram lançadas contra os escritórios da Marsh Corp em Seattle, causando a evacuação do arranha-céu e o fim de sua relação com a HLS. No Outono de 2003, um dispositivo incendiário foi deixado nas empresas Chiron e Shaklee, por estarem associadas a HLS. Em 2005, a corretora Canaccord Capital, com sede em Vancouver, anunciou que estava encerrando sua parceria com a Phytopharm PLC, em resposta a uma ataque incendiário ao carro de um executivo da Canaccord, Phytopharm vinha fazendo negócios com HLS. Tudo isso acontecendo em um cenário de constantes ações de menor escala.

Em Dezembro de 2006, HLS foi impedida de ser listada na Bolsa de Valores de Nova York, algo sem precedentes que resultou em uma propaganda de página inteira no The New York Times, mostrando um caricatura de um ativista, de jaqueta de couro e balaclava, declarando “Eu controlo Wall Street”[3]. Em 2007, oito empresas cortaram relações com a HLS, incluindo seus dois maiores investidores, AXA e Wachovia, após protestos na casa de acionistas e visitas da ALF na casa de executivos. Em 2018, dispositivos incendiários foram deixados de baixo de caminhões da Staples e lojas da empresa foram vandalizadas. Ao longo da campanha, cerca de 250 empresas desistiram da HLS, incluindo o Citibank, a maior instituição financeira do mundo; HSBC, o maior banco do mundo; Marsh, a maior seguradora do mundo; e o Bank of America.


Mantendo o Ritmo

É interessante comparar a trajetória da campanha SHAC com o que chamamos de movimento antiglobalização. Os dois começaram no Reino Unido antes de engrenar nos EUA. A SHAC foi fundada na Inglaterra no mesmo mês dos protestos históricos do WTO em Seattle; começou a ganhar aderência na América do Norte no rastro do fim das mobilizações anti-globalização e manteve impulso após a ala antiglobalização do movimento nos EUA colapsar, nos dias que seguiram o 11 de Setembro de 2001.

Como a campanha SHAC foi capaz de manter seu ritmo enquanto praticamente todas as outras campanhas baseadas em ação direta naufragaram ou foram cooptadas por liberais ? Podemos encontrar lições sobre como lidar com crises, baseadas nesse exemplo ?

Ativistas da SHAC se diferenciavam de participantes da maioria dos outros movimentos sociais por não considerarem que precisavam de uma boa imagem na mídia, nem entediam uma cobertura negativa como algo ruim. Seus objetivos eram aterrorizar corporações até desistirem de fazer negócios com a HLS, não converter outras pessoas para a causa da libertação animal. Quanto mais destemidos e malucos eles pareciam ser nos jornais, mais fácil seria intimidar potenciais investidores e parceiros de negócio. Em outros círculos, ativistas temiam que o pânico da Guerra ao Terror facilitasse que o governo os isolasse, se associados ao terrorismo; para SHAC, quanto mais perigosos e extremos parecessem, melhor.

No fim, tudo isso voltou para os assombrar, quando os organizadores mais influentes foram levados a julgamento e a promotoria facilmente os retratou como representantes de uma rede clandestina de terroristas. Nesse sentido, a maior potência da campanha SHAC – a relação entre organização pública e secreta, a temível reputação – também se mostrou como seu calcanhar de Aquiles. A lição parece ser que essa abordagem pode ser efetiva em uma escala pequena, desde que os organizadores não provoquem confrontos com forças muito mais poderosas que eles mesmos. Com relação a cobertura midiática, talvez nos seja instrutivo observar como os organizadores da SHAC abordavam essas questões. Os porta-vozes da SHAC nunca deixaram de enfatizar a necessidade da ação direta para a libertação animal, mesmo quando o resto da nação estava obcecada com a Al Qaeda; a mobilização histórica em Little Rock aconteceu apenas um mês e meio após os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Independente do que aconteceu em Nova York ou no Afeganistão, eles enfatizaram que lá, naquele exato momento, haviam animais sofrendo, que poderiam ser poupados, caso as pessoas tomassem umas poucas atitudes concretas. Se organizadores de outros círculos fossem capazes de manter esse foco e urgência, a história poderia ter tomado outros rumos no começo desta década.

É possível também, que com outras formas de organização estando em baixa, a SHAC tenha ganho mais participantes do que em um cenário onde outras campanhas de ação direta tivessem mantido seu ritmo. Em contraste com as massivas ações simbólicas do movimento anti guerra, a campanha SHAC era um caldeirão de experimentações, onde novas táticas eram constantemente testadas. Para entusiastas da ação direta preocupados em maximizar esforços – ou apenas cansados de serem tratados como mais um número na estimativa de participantes da multidão, isso deve ter sido sedutor.

Seja qual for o motivo, a SHAC foi capaz de manter seu fôlego até que a repressão federal finalmente começou a ser um peso. Diferente de muitas campanhas, que desapareceram por atrito ou cooptação, foi necessário todo o maquinário do estado para conter seu avanço.

Repressão

Todas as conquistas da SHAC vieram com um preço. Quanto mais empresas abandonavam seus negócios com a HLS, mais a campanha chamava atenção das agências de repressão e de think tanks da direita. Os organizadores da SHAC, no geral, não eram tipos facilmente intimidáveis; era comum que quem participasse da campanha fizesse piadas sobre todos as acusações haviam acumulado e quão pouco isso importava, pois se fossem processados, não teriam dinheiro algum para ser confiscado.

Os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido elevaram o risco constantemente ao longo dos anos, botando ativistas sob vigilância, atingindo-os com processos, impedindo suas tentativas de levantarem fundos, intimidando organizações como o PETA a não se comunicar com eles, passando novas leis contra manifestações em bairros residenciais, e derrubando seus websites. Nos EUA, isso culminou no julgamento dos chamados “Sete da SHAC”: seis organizadores e a própria organização SHAC USA. Em 26 de Maio de 2004, Lauren Gazzola, Jake Conroy, Josh Harper, Kevin Kjonaas, Andrew Stepanian, e Darius Fullmer foram acusados de vários crimes federais, por seus supostos papéis na campanha. Times de agentes do FBI, com armaduras de combate, invadiram as casas dos acusados nas primeiras horas da manhã, apontando armas e ameaçando a eles e seus animais de estimação, algemando seus familiares. Segundo os documentos do FBI, a investigação que levou as prisões, foi a maior de 2003; as gravações das ligações interceptadas superavam em 5 para 1, o volume do segundo caso mais extenso.

Os acusados foram todos indiciados por violar o Animal Enterprise Protection Act, uma lei controversa que pretendia punir qualquer um que impedisse uma empresa de lucrar com a exploração animal; alguns foram acusados de violar direitos de privacidade e outras contravenções. Os acusados não foram condenados de participar pessoalmente de nenhuma atividade de ameaça; o governo baseou seu caso na ideia que eles deveriam ser responsabilizados por todas as ações ilegais que aconteceram para avançar a campanha SHAC, independente de seu envolvimento. Eles foram julgados culpados em 2 de Março de 2006, sentenciados a prisão com penas variando de um à seis anos, e foram obrigados a pagar quantias absurdas de dinheiro a HLS.

O julgamento dos 7 da SHAC nitidamente pretendia criar um precedente para ser usado contra quem organizasse campanhas públicas que envolvessem ações ilegais; sua repercussão foi sentida até mesmo na Inglaterra. Em 2005, o governo britânico passou o “Serious Organized Crimeand Police Act” criado especialmente pra proteger empresas que pesquisam em animais. Em 1 de Maio de 2007, após uma série de buscas envolvendo 700 policiais na Inglaterra, Holanda e Bélgica, 32 pessoas ligadas a SHAC foram presas, incluindo Heather Nicholson e Greg and Natasha Avery, alguns dos fundadores da SHAC no Reino Unido. Em Janeiro de 2009, sete deles foram sentenciados a prisão, com penas variando de quatro a onze anos de prisão.

Primeira declaração oficial da organização anarquista político-militar do leste do curdistão (Rojhelat)

Publicado originalmente em Anarchism ERA.

“A Organização político-militar Anarquista do Leste do Curdistão (Rojhelat) anuncia oficialmente sua existência hoje, 18 de Novembro de 2022. Nós somos uma organização anarquista ativa no leste do Curdistão e nosso objetivo é criar uma revolução social através da luta nas ruas, quebrando a hegemonia e o monopólio do uso de violência do governo fascista e teocrático do Irã. Essa revolução pertence a classe trabalhadora, as mulheres, pessoas oprimidas e minorias do que é hoje a geografia do chamado Irã.

A resposta que damos é uma bala. Essa conclusão não é apenas uma questão prática, mas também um entendimento de nossa identidade, filosofia e políticas. Somos parte do mesmo movimento que ergueu a bandeira do Exército Negro da Ucrânia, que lutou na Guerra Civil Espanhola, e fez da América Latina um inferno para os imperialistas, o mesmo movimento que nos anos 70, 80 e 90 transformou a Europa em um campo de batalha contra os capitalistas….

Hoje somos nós que nos levantamos pelos oprimidos e iremos transformar o Curdistão no cemitério dos fascistas. Em nossa primeira ação…. Fechamos Sanandaj-Mariwan e Sanandaj- Saqez e atacamos os mercenários do governo seu caminhões transportando bens expropriados. Esse é o começo do caminho, dias melhores virão. Essa declaração pertence ao setor político-social da organização e o setor militar da Organização Anarquista do Leste do Curdistão (Rojhelat) irá anunciar sua existência em breve, em outra declaração para todas as pessoas de luta.”

Alemanha – O caso de Johannes Domhover, ou, Por que jamais devemos tolerar abusadores entre nós

Esse é Johannes Domhover, militante antifascista, notório predador sexual, denunciado em inúmeras ocasiões. Permaneceu circulando neste meio, até ser detido pela polícia. Agora, dentro do programa de proteção a testemunha ele é a principal testemunha (cagueta) em um caso montado pelo estado alemão na tentativa de perseguir e desmobilizar inúmeras organizações. No dia 15 de Juho, policiais conduziram buscas na casa de dois de seus antigos companheiros, além de deter ao menos uma pessoa para recolhimento de material de DNA.

No Brasil, não nos faltam casos de abusadores caminhando livres nos meios radicais, normalmente acolhidos e protegidos por outros homens, mas, como não tenho advogados: Que o caso europeu sirva para repensarmos nossas posturas, dentro das organizações e coletivos que compomos.

Nossas companheiras estão exaustas e furiosas, e com motivos de sobra. Não é de hoje que apontam que não se pode confiar em pessoas que tenham condutas graves como abusadores. Essas pessoas demonstram estar em um estado mental incompatível com o da construção social, são um risco para quem os cerca, e também para as organizações que compõem. Além do irreparável terror que causam em suas vítimas, toda violência causada por abusadores pode e eventualmente será usada pelas forças policias.

Existem suspeitas de que Domhover tenha começado a colaborar com a polícia antes mesmo de ser preso. E militantes locais tem evidências o suficiente para acreditarem que os fascistas da região tem acesso livre as centenas de páginas do processo que ele tem ajudado a montar, revelando dados sensíveis que podem comprometer a segurança de anarquistas e antifascistas de toda Alemanha.

Proteger um abusador, seja por amizade, seja pela suposta importância da pessoa para com o coletivo, é ser cúmplice da opressão patriarcal, é um convite para que outras formas mais institucionalizadas de repressão contra revolucionária venham nos assombrar.

Nas palavras das companheiras da Soli Antifa, uma organização implicada nas denúncias;

“Podemos assumir que Domhöver oferecerá todas as informações que a polícia quiser, sejam elas verdadeiras, exageradas ou completamente fictícias.

O fato de um estuprador ser também, sempre um traidor político, deve estar nítido para todos. Não é a exposição e as denúncias que fazem um estuprador trair os seus companheiros. Elas apenas trazem à tona sua falta de convicção política e seu caráter imundo.”

PELA AUTODEFESA EM TODOS OS NÍVEIS, CONTRA OS AGENTES DO PATRIARCADO

fonte: https://www.soli-antifa-ost.org

“Mobilizando terror, barrando autonomia: redes de infraestrutura nas fronteiras indígenas do Chile”

Publicado originalmente em Global Media, em 22 de Outubro de 2019. Josefina Buschmann é pesquisadora e cineasta, explora as relações entre tecnologia, sociedade e meio ambiente. Seus estudos de sociologia, mídia e cinema sustentam suas pesquisas  colaborativas. Seus projetos recentes incluem o estudo do policiamento preditivo, vigilância por drones, e investigação de bancos de dados de inteligências artificiais. Ela é parte do coletivo de cinema chileno MAFI – Filmic Map of a Country.

Mobilizando o terror, contendo a autonomia: redes de infraestrutura nas fronteiras indígenas no Chile”

por Josefina Buschmann

Em Outubro de 2017, imagens de antenas de telefonia, e mensagens de texto do WhatsApp e Telegram, áudios de conversas, e vídeos de vigilância aérea surgiram nas coberturas de jornais em horário nobre no Chile, mostrando a “visão de dentro” de uma operação da inteligência policial (operación hurracán) [1] criada para vigiar e desmobilizar uma suposta organização terrorista ativa no sul do país. Vários dos oito suspeitos detidos eram importantes líderes de comunidades Mapuche. Essas comunidades se mobilizaram para retomar sua autonomia e terras [2] atualmente ocupadas por empresas agro-florestais e historicamente ocupadas durante a invasão militar do estado chileno e a colonização por colonos europeus no fim do século dezenove [3]. Após sete meses em custódia, sob acusações de associação terrorista ilícita (asociación ilícita terrorrista), os suspeitos foram liberados. A evidência – primariamente baseada em mensagens de Telegram “interceptadas” – era falsa. A operação era uma farsa [4].

Figura 01 – Screenshot do noticiário T13, de cima para baixo: vista aérea da ação policial e uma cerimônia Mapuche, antena telefônica da região, e a recriação de (falsas) mensagens no Telegram. (T13, 2017). Disponíveis em https://www.t13.cl/videos/nacional/video-detalles-operacion-huracan

Apesar da natureza falsa da operação, sua transmissão televisiva revelou o papel que as redes de infraestrutura operam na interdição da autonomia das comunidades Mapuche quando suas práticas não estão alinhadas com o limitado reconhecimento multicultural das políticas neoliberais do estado chileno [5]. Distribuídos entre a terra e o espaço, as redes de infraestrutura permitem processos de mediação [6] que são essenciais para sustentar as operações policiais tais como a captação de informação de “inteligência” por interceptação de conversas por telefone, raqueamento de perfis em mídias sociais, e detecção remota dos terrenos, e as práticas cotidianas envolvidas. Além das capacidades tecnológicas atuais dessas infraestruturas, foram as narrativas ao redor de suas capacidades técnicas, sua aura de neutralidade combinada com a opacidade desses sistemas, que deram conta de legitimar as falsas evidências e manter os líderes Mapuche encarcerados. Mais que evidência, essa Mídia de “inteligência” trabalhou como força afetiva. A polícia intencionalmente enviou para canais de notícias chilenas uma visão “de dentro” da operação assim eles poderiam pôr no ar, e criar uma atmosfera pública inflamada. As operações de notícias na mídia foram tão importantes quanto as “evidências” em si. Através de suas sequências cuidadosamente editadas, canais jornalísticos autenticaram as falsas evidências, e colocaram os Mapuche como alvos legítimos da polícia. Tecnologias de telecomunicação trabalharam como meios de fraude enquanto se posicionavam como ferramentas tecnológicas neutras, tanto na cobertura jornalística nacional quanto no sistema judicial. A farsa pôde se sustentar apenas no contexto de baixa alfabetização digital e opacidade de informações sobre o estado de vigilância. Nas palavras do advogado de defesa de um dos Mapuche acusados: “os juízes e promotores, que estavam chefiando a investigação, deram crédito extra às novas tecnologias, como se fossem ótimas formas de determinar qualquer coisa. E abusando da nossa ignorância em como essas tecnologias funcionam, eles inferiram algo e então, após interiorizarem e analisarem o relatório e o conteúdo da tecnologia, você percebe que a tecnologia não diz muito e o resto é mera especulação” [7].

Como parte da minha tese de doutorado [8], eu examinei o papel central dos processos de mediação têm tanto em produzir imaginários dos Mapuche como “criminosos” e “terroristas”, quanto em apoiar operações policiais especiais que miram, percebem e incriminam pessoas indígenas no contexto de suas mobilizações para retomada de suas terras e autonomia. Essas operações também envolvem uma intersecção com passados coloniais [9], continuidades ditatoriais [10], extrativismo neoliberal do presente [11] e práticas e discursos de segurança global [12]. Embasada em teorias de mídia e estudos de governabilidade, eu apresento o termo atmosferas operacionais (op-atmos) como uma maneira de pensar, levando em conta a composição do aparato do estado de segurança e operações na intersecção vertical (aérea, orbital, e eletromagnética), algorítmica e campos de ações afetivas [12]. Op-atmos são emaranhados de sentimentos, imaginários, e práticas discursivas; tecnologias e técnicas; economias e histórias locais e transnacionais; que formam as logísticas de percepção do estado [13] que são contingentes, parciais e calcadas em processos frágeis de trabalho intensivo, através dos quais passam a existir.

Figura 02 – Diagrama das Operações Atmosféricas. Alguns dos ícones usados foram criados por Gregor Cresner, Datacrafted, Ben Devis, Alvaro Cabrera, Nick Bluth, Abdul Karim, H Alberto Gongora, Viral Faisalovers, Ahmad, Madem Arafat Uddin, Symbolon, Oleksander Panasovskyi, Kid Mountain, glyph faisalovers, Juan Pablo Bravo, ProSymbols, e Jaime Yeo. Disponíveis em The Noun Project (diagrama pela autora, 2019)

Entre Junho de 2018 e Abril de 2019, eu conduzi entrevistas com oficiais da polícia, advogados de defesa Mapuche, ativistas locais, antropologistas, figuras políticas, e especialistas digitais; e visitei três famílias Mapuche que estavam sob vigilância, com quem nós contra-mapeamos os eventos policiais em suas áreas. Também analisei publicações na imprensa, documentos legais, processos judiciais, e investigações do congresso; e examinei artefatos técnicos e operações algorítmicas empregadas pela polícia chilena. Ao longo desse processo de pesquisa, dois objetivos específicos se sobressaíram. Primeiro, a necessidade para uma avaliação pública aberta sobre os sistemas técnicos que formam op-atmos, suas materialidades, capacidades e limitações, para que se possa desmistificar essas tecnologias e sua opacidade. Um dos métodos que empreguei foi o desenvolvimento de visualidades críticas, introduzindo fotos e diagramas com a informação coletada. O segundo propósito foi analisar como esses sistemas são postos para funcionar inseridos em culturas específicas, levando em conta as características diferenciais que elas expressam conforme são cruzadas por classe, raça, gênero e etnicidade. Eu estava particularmente interessada em ir além das práticas de percepção para compreender as práticas de pré-visualização [14] que modal o que é percebido e define quem é identificado como suspeito ou terrorista, quando e onde, como resultado, quem é posto na mira, controlado e mesmo assassinado.

Figura 03 – Diagrama dos sistemas de detecção remota aérea e forças de segurança cidadãs no Chile.

Municipalidades em amarelo, Carabineros (polícia) em verde PDI (investigadores da polícia) em azul, e Forças Militares em vermelho. Falta neste diagrama o satélite Fasat Charlie, orbitando a terra a 620km (baixa órbita terrestre), acumulando imagens multi espectrais de alta resolução. A escala não é proporcional (Diagrama da autora, 2019)

Foquei em especial na análise de sistemas aéreos dado sua presença crescente nos céus locais e seu papel chave no desenvolvimento das atmosferas operacionais. Como aviões espiões, helicópteros e drones com câmeras multi espectrais que sobrevoam sobre terras Mapuche, eles não geram apenas detecções remotas e guiam operações em solo; também produzem terror do [15] e no ar: em seus voos eles provocam medo e tensão nas populações abaixo, e as imagens aéreas gravadas são então transmitidas para dar forma ao medo público. Nesse contexto, a gravação de vigilância aérea de uma cerimônia Mapuche (Figura 01) pode se tornar a imagem de um grupo terrorista; e um vídeo noturno capturado em infravermelho mostrando a assinatura de calor anônima de corpos na floresta pode ser apresentada como Mapuches terroristas responsáveis por incêndios criminosos(Figura 04).

Figura 04 – Imagem térmica de um Flir Star Safire, câmera multi espectro instalada em um avião espião Beechcraft dos Carabineros, seguindo dos alvos (assinaturas de calor) supostamente “suspeitos” de incêndios terroristas em Araucanía, como parte da operacion huracán. Screenshot retirado de matéria sobre a força aérea dos carabineros (24 Horas, 2017)

Essa re-mediação vertical de raça [16] produz novas visualizações do “outro indígena”, que são definidas não pela cor da pele ou aparência étnica mas pela classificação do território e das populações que habitam comunidades Mapuches “radicais”. Essas fronteiras Mapuches são transformadas em espaços de exceção [17] onde se aplicam técnicas e leis especiais, uma condição que continuamente expõe seus habitantes à morte conforme seus corpos são transformados em alvos visíveis. Foi isso que aconteceu em uma tarde de Novembro quando um sargento em um helicoptero – cuja visão parcial o permitia apenas distinguir uma humano de um animal – erroneamente identifcou um suspeito de roubo e levou ao assassinato de Camilo Catrillanca, uma jovem liderança Mapuche.


Figura 5 Screenshot de uma câmera GoPro do sargento Héctor Vásquezno helicoptero que levou ao assassinato de Camilo Catrillanca.  

NOTAS

1  See T13 “Los detalles de la Operación Huracán”  https://www.t13.cl/videos/nacional/video-detalles-operacion-huracan; and 24 Horas “Así fue la Operación Huracán por dentro”  https://www.24horas.cl/nacional/asi-fue-la-operacion-huracan-por-dentro–2514600

2  Lands are particularly significant for the Mapuche, a name that literally means people (che) of or from the land (mapu), for whom “land is actively involved in the making of selves” (Di Giminiani 2016, 888), and there is a profound connection with the place of origin in the creation of selfhood. Contemporary claim for their lands is not only related to this particular ontology – this way of being in the world marked by the connection to their ancestral land -, but also to particular social structures, and a political system of governance, along with a knowing in and from the land, a  kimün  (knowledge). 

3  This historical process is known as “Pacificación de la Araucanía” (Pacification of Araucanía) or, more precisely, the military occupation of Araucanía. 

4  See Nicolás Sepúlveda and Mónica González 2018 “Operación Huracán”: testimonios y confesiones confirman que fue un montaje” Ciper Chile  https://ciperchile.cl/2018/03/13/operacion-huracan-testimonios-y-confesiones-confirman-que-todo-fue-un-montaje/

5  See Hale, Charles R., and Rosamel Millamán. “Cultural Agency and Political Struggle in the Era of the Indio Permitido.” In  Cultural Agency in the Americas, 281–304. Durham and London: Duke University Press, 2006.

6  I understand  mediation  as conceptualized by Sarah Kember and Joanna Zylinska who changed the focus on media from a set of discrete artifacts such as images and screens to an understanding of the continuous processes of mediation, where people’s daily existence is defined by “being in, and becoming with, the technological world, our emergence and ways of intra-acting with it, as well as the acts and processes of temporality stabilizing the world into media, agents, relations, and networks” (xv) (Kember, Sarah, and Joanna Zylinska.  Life after New Media. Mediation as a Vital Process. Cambridge: MIT Press, 2012). 

7  Interview conducted in Temuco, Chile. July 2018.  

8  Buschmann, Josefina. “Operational Atmospheres: Mediating policing in the fight against crime and “rural terrorism” in Chile.” Master’s thesis, Massachusetts Institute of Technology, 2019.  

https://dspace.mit.edu/handle/1721.1/122342?show=full

9  Richards, Patricia. “Of Indians and Terrorists: How the State and Local Elites Construct the Mapuche in Neoliberal Multicultural Chile.”  Journal of Latin American Studies  42, no. 01 (February 2010): 59–90. 

10  Risør, Helene, and Daniela Jacob. “‘Interculturalism as Treason’: Policing, Securitization, and Neoliberal State Formation in Southern Chile.”  Latin American and Caribbean Ethnic Studies  13, no. 3 (September 2, 2018): 237–58.

11  Richards, Patricia.  Race and the Chilean Miracle: Neoliberalism, Democracy, and Indigenous Rights. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2013. 

12  See Lisa Parks’ notion of  vertical mediation  and  cultural atmospherics; Peter Adey’s  security atmospheres; and Eyal Weizman’s  politics of verticality

13  Virilio, Paul.  War and Cinema: The Logistics of Perception. New York: Verso, 2009.

14  Browne, Simone.  Dark Matters: On the Surveillance of Blackness. Durham and London: Duke University Press, 2015.

15  Sloterdijk, Peter.  Terror from the Air. Cambridge: MIT Press, 2009.

16  Parks, Lisa. “Vertical Mediation and the U.S. Drone War in the Horn of Africa.” In  Life in the Age of Drone Warfare. Durham and London: Duke University Press, 2017.

17  Agamben, Giorgio.  Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life. Bloomington: Stanford University Press, 1998. 

18  Basadre, Pablo. 2019. “Muerte de Catrillanca: la versión falsa de los tripulantes del helicóptero.”  CIPER, January 17, 2019.  https://ciperchile.cl/2019/01/17/muerte-de-catrillanca-la-version-falsa-de-los-tripulantes-del-helicoptero/

19  See T13. 2018. “Gobierno Lamenta Muerte de Comunero Camilo Catrillanca y Anuncia Fiscal Exclusivo.” T13.  https://www.youtube.com/watch?time_continue=1264&v=4Mw9CZH-rqU, and Cámara de Diputados Televisión Chile. 2018.  Comisiones Unidas DD.HH. y  Seguridad Ciudadana 19/11/2018https://www.youtube.com/watch?v=j7otI-ySK5g

20    Mbembé, Achille. “Necropolitics.”  Public Culture  15, no. 1 (2003): 11–40.

21  Mansilla Quiñones, Pablo Arturo, and Miguel Melin Pehuen. “A Struggle for Territory, a Struggle Against Borders.”  NACLA Report on the Americas  51, no. 1 (March 29, 2019): 41–48.