Bombas de Semente, Hortas Autônomas e Você

Publicado originalmente em anarchosolarpunk, em 11 de Maio de 2021

Como você, como indivíduo, pode impactar sua comunidade sendo zika pra carai semeando em locais públicos.

Se você é estadunidense está mais que familiarizado com o inferno capitalista que pontuam as cidades, subúrbios, áreas industriais e shoppings ao nosso redor. Terrenos vazios onde antes haviam lares mas agora são lembranças vazias de um passado esquecido. Parques públicos vazios onde ninguém caminha pois caminhar é esquisito e perigoso em um país e numa cultura que gira em torno de carros. Shoppings com nada além de filiais de multinacionais, pequenas manchas de folhagem morta nas sarjetas e estacionamentos. Por alguma razão, elas têm irrigação mas nada cresce lá. Imensos data centers e galpões cercados por nada além de terreno aberto. Grama alta em terrenos baldios em vizinhanças que são desertos alimentares, onde as pessoas não têm acesso a vegetais frescos e baratos.

Hora de você mudar isso. Arranje algumas sementes, um pouco de terra, e um aglutinante para manter tudo em uma linda bolinha e comece a plantar vegetais, polinizadores, plantas nativas, ervas medicinais, tudo que quiser!

Transforme desertos alimentares em florestas de alimento com muito pouco investimento e esforço.

O que é uma bomba de sementes?

Uma bomba de sementes é basicamente um monte de sementes dentro de bolinhas que você pode arremessar, jogar ou largar em um lugar onde as plantas podem crescer. Pode ser em qualquer lugar. Você passa por lugares vazios com frequência, podem ser campos, parques, terrenos vazios, ou pequenos espaços em estacionamentos com um pouco de terra.

Normalmente se usa terra, argila e sementes e as amassa no formato de uma bolinha, mas você pode usar qualquer aglutinante orgânico pra manter tudo junto.

A maioria das misturas tradicionais usa 1 xícara de sementes com 5 xícaras de composto e 2-3 xícaras de argila em pó. Se você tem argila em pó, é uma boa opção. Eu vivo no Texas então eu só preciso ir no meu quintal pra encontrar argila. Você não precisa usar argila, qualquer aglutinante dá conta do recado.

Fazendo bombas de semente com farinha!

Sementes, Sementes, Sementes

Consiga algumas sementes. Pra isso, eu tenho usado sementes de vegetais mas use qualquer coisa que você quiser ver crescer. As vezes é bom plantar algumas polinizadoras para tornar um espaço mais bonito, talvez algumas ervas medicinais se você vive em uma área em que herbalismo é algo que faz parte das práticas culturais. Com os vegetais, não tem como dar errado, todos podem comê-los, e são úteis pra quem não pode pagar por eles em um mercado ou não tem acesso a legumes frescos.

Alface e quiabo crescem muito bem onde eu vivo. Você vai precisar dar uma olhada em alguns legumes que crescem na sua região e quando eles devem ser plantados. Ou você pode só não se importar e ver oque acontece, a vida é cheia de experimentos.

Role suas sementes no aglutinante + terra / composto com um pouco de água, molde em bolinhas, e deixe secar.

Agora você está pronto para começar a plantar. Eu estive no parque do meu bairro e vi que a prefeitura instalou um irrigador próximo de uma jovem muda de carvalho. Isso resolve qualquer problema que pudesse surgir. Há bastante água durante os duros verões do Texas, vindos da irrigação e do escoamento da chuva de uma pequena colina. Proteção contra cortadores de grama por conta dos suportes tutorando as jovens árvores e alguma sombra à tarde vinda das mesmas árvores. Talvez você não encontre um lugar propício como esse, mas a natureza sempre encontra um caminho, tente de qualquer forma.

A História das bombas de semente

Historicamente, pelo que podemos ver, essa prática parece vir do Japão onde é chamado Tsuchi Dango ou “Bolinho de Terra”. Em 1930 Masanobu Fukuoka escreveu o livro “A Revolução de Uma Palha”, que reviveu a prática durante uma época de mudança na agricultura. Se você tem interesse em agricultura regenerativa, ele escreveu muitas sobre o tema e muitos fãs de hortas populares seguem as técnicas que ele aplicava.

“Por que fazer isso? É só comprar comida no mercado.”

Nem todos que vivem sob o capitalismo podem pagar por alimento.

Reflita um minuto sobre isso. Nós vivemos em um dos países mais ricos da história do nosso planeta e ainda assim grande parte da população não tem acesso a frutas e vegetais frescos.
Em muitos lugares sequer existem lojas onde se possa comprar comida de verdade. No interior de muitas cidades e áreas rurais as únicas opções são fast food, carregar suas compras em um péssimo sistema de transporte público, ou dirigir até um supermercado distante (se você tiver sorte o suficiente de ter um carro).

Autonomia é liberdade

Para sermos capazes de mudar esse sistema social capitalista, individualizado, altamente atomizado, racista e exploratório em que vivemos, precisamos construir autonomia. Precisamos ser capazes de sobreviver sem intervenção do estado (mesmo que o estado escolha nos ajudar). Não podemos depender de cadeias de abastecimento normais para nossas necessidades básicas, Covid-19 de fato nos mostrou como as cadeias de suprimento podem rapidamente colapsar durante uma catástrofe. Se os estados capitalistas não agem para combater a pobreza, fome, a escassez de comida e desertos alimentares, o povo vai precisar se unir e resolver seus problemas. Sem os problemas arbitrários, sem as diretrizes de qualificação ou regulamentações exageradas. Se você precisa de alimento, você recebe alimento. Se uma comunidade não tem acesso a alimentos frescos, nós plantamos. Fazendo isso nós nos fortalecemos coletivamente. Nenhum estado, governo, político, ou força é capaz de quebrar um grupo de pessoas trabalhando junto para resolver seus problemas.



Mais Informações

Como começar uma horta descentralizada

Se você está interessado nestas ideias, isso se chama poder dual. Construir redes autônomas para resolver problemas que envolvam comida, água, educação, riqueza, pobreza, moradia, está dentro do que chamamos apoio mútuo. Você pode não se considerar “de esquerda”, mas se você busca se libertar da exploração e quer dar fim a exploração humana, talvez você seja um.

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Um Anarquista Contra Hitler

Friedrich Kniestedt no Brasil

Tom Goyens

publicado originalmente em tomgoyens.substack.com

29 de Dezembro, 2022

Em Outubro de 1945, sessenta e seis alemães vivendo no Brasil peticionaram ao governo, exigindo que fossem reconhecidos como ativistas anti-nazismo, diferente de seus compatriotas que simpatizavam com o Terceiro Reich e agora estavam sendo assediados. O representante da petição era Friedrich Kniestedt, um anarquista alemão de setenta e dois anos, pinceleiro e editor, figura de liderança do movimento anti-nazista do Brasil, onde os anarquistas desempenharam um papel significante.

Vamos olhar mais de perto para os anarquistas transnacionais combatendo o militarismo e fascismo através da figura de Kiestedt. A razão é simples: para melhor nos capacitar a lidar com a atual ascensão do fascismo da Extrema Direita em inúmeros países e para descobrir as possibilidades de uma resistência antifascista com sólida tendência anarquista. Kniestedt nunca serviu ao exército e nunca cometeu um ato de violência, mesmo assim lutou incansavelmente contra o autoritarismo. Ele começou a vida combatendo o Kaiser e acabou enfrentando Hitler; deixou sua terra nativa às vésperas da Grande Guerra apenas para enfrentar os camisas marrons no Sul do Brasil. Militantes como Kniestedt reimaginaram as possibilidades anarquistas de acordo com as novas circunstâncias de repressão e exílio. Eles atacaram o autoritarismo na Direita assim como na Esquerda e debateram o quanto colaborar com grupos liberais para conter a maré hitlerista. Anarquistas alemães, em especial, combateram duramente a imagem nazificada de sua terra natal. Todas essas reflexões são tão relevantes hoje quanto era em 1933.

Friedrich Kniestedt era apenas um adolescente quando se tornou socialista, no fim dos anos de 1880, quando a Lei Anti-Socialistas de Bismarck estava com força total. Depois de 1890, quando a lei repressiva foi revogada, e um movimento abertamente socialista era possível novamente, continuou a frequentar encontros socialistas. Kniestedt se voltou ao anarquismo como artesão autônomo, prometendo se opor ao centralismo, autoritarismo e militarismo. Esteve ativo no movimento de trabalhadores e começou a falar publicamente, o que resultou em vários encontros com a lei, incluindo uma sentença de nove meses de prisão quando tinha vinte anos. Ele leu Peter Kropotkin, Mikhail Bakunin, Pierre-Joseph Proudhon, Max Stirner, e especialmente Leon Tolstoy, que por sua vida toda foi uma influência em seu anti-militarismo e oposição a violência de estado. Através de seu ativismo independente, se tornou amigo de anarquistas conhecidos como Gustav Landauer e Eich Mühsam, que mais tarde o levou ao anarquismo.

Conforme a Alemanha imperial escalava seus gastos militares, as atividades de Kniestedt foram sendo mais vigiadas. Esse foi um dos motivos que levou sua família a se mudar para Paris em 1908, onde continuou sua agitação antimilitarista e se tornou tesoureiro para um grupo que auxiliava pessoas radicais no exílio. Ele também ouviu a fala de Rudolf Rocker quando esteve em Londres. Entretanto, tensões internas do movimento e a descoberta de espiões eram profundamente frustrantes, e Kniestedt começou a pensar em sair da vida política. Em 1909, ele e sua família decidiram se unir a uma comunidade cooperativa nas florestas tropicais do Brasil, mas essa experiência comunal foi uma decepção por diversos motivos; atividades anarquistas sobre antimilitarismo não eram permitidas por medo de se oporem ao governo. Kniestedt tentou viver como agricultor, então se mudou brevemente para São Paulo, mas eventualmente retornou à Alemanha em 1912. Mas sua terra natal estava ainda pior; havia se tornado uma sociedade militarizada, envolta em chauvinismo hierárquico e mortificante obediência cega, como Kniestedt declarou [1]. Ele voltou ao circuito de palestras, chamando trabalhadores a recusarem se tornarem assassinos a serviço do estado e a apoiarem uma greve geral para barrarem a guerra. Em 27 de Janeiro de 1913, Kniestedt fez uma fala em um dos maiores protestos de desempregados da história da Alemanha, mas novamente a vigilância levou a prisões e a cadeia [2]. Refletindo sua recente experiência transatlântica, Kniestedt agora via o Brasil como uma terra onde ainda existia alguma liberdade sem a mentalidade de obediência cega a um líder. O Brasil podia ser a terra do futuro. Então, mais uma vez a família emigrou para o Brasil. “Deixei a Europa,” Kniestedt escreveu mais tarde, “sabendo que eu havia dado o máximo dentro das minhas habilidades e energias, para impedir a guerra” [3] Kniestedt partiu de Amsterdam; dois dias depois a Alemanha declarou guerra com a Rússia.

Dessa vez Kniestedt não se instalou no interior mas em Porto Alegre, a capital do estado mais ao sul, o Rio Grande do Sul, onde viveu entre trabalhadores germano-brasileiros e se tornou uma das lideranças da anarcossindicalista Associação de Trabalhadores Socialistas Alemães. Guerra e revolução na terra natal também abalou a vida de outros anarquistas alemães. Enquanto Kniestedt veio para o Brasil, Rudolf Rocker retornou à Alemanha após a guerra para ajudar e reviver o movimento anarcossindicalista. O amigo de Kniestedt, Erich Mühsam foi liberto da prisão, mas Landauer, com quem ele havia compartilhado o púlpito, teve um terrível fim nas mãos das milícias de extrema-direita. As tensões políticas e ideológicas da República de Weimar puderam ser sentidas nas comunidades em diáspora do sul do Brasil, onde Kniestedt emergiu como uma das principais figuras do movimento de trabalhadores. De 1920 a 1930, ele editou o jornal anarquista Der freire Arbeiter, o único periódico anarquista de língua alemã nas Américas, e abriu uma livraria internacional. Nesse papel, ele atacou o chauvinismo racial enquanto promovia tradições humanistas radicais. Em 1925, por exemplo, ele ridicularizou os alemães conservadores de Porto Alegre por celebrarem o aniversário do Kaiser, sete anos após sua renúncia [4].

No começo dos anos 30, Kniestedt parecia afastado do movimento quando foi abordado por um empreendedor que o ofereceu uma fábrica de vassouras, mas no fim, ele se recusou a participar da exploração dos trabalhadores. Enquanto isso, elementos nazistas se tornaram mais ativos no Brasil depois de tomarem poder na Alemanha. O Brasil era uma terra fértil para fascistas buscando influenciar as comunidades italianas e alemãs, especialmente após o populista e autocrata Getúlio Vargas chegar ao poder em 1930. A polícia brasileira tolerava os grupos nazistas encorporados no Nazi Party’s Foreign Organization. Em 1932, quando os camisas marrons tentaram se apoderar da sociedade de apoio mútuo que Kniestedt era um dos representantes, os anarquistas revidaram e venceram [5]. Ele e outros fundaram a sessão de Porto Alegre da Liga dos Direitos Humanos, que reunia várias vertentes da esquerda, mas se consolidou como grupo anarquista. Lançaram o jornal Aktion com Kniestedt como editor e uma circulação de 9.000 exemplares (com 3.000 sendo enviados para Alemanha). Esse documento se tornou a única organização anti-nazista no Brasil e um competidor com os jornais de língua alemã simpáticos ao nazismo e assim combatendo o fascismo [6].

O ativismo nazista no Brasil continuou a perseguir e intimidar, e tiveram algum sucesso se infiltrando em escolas onde se falava alemão e associações culturais. Kniestedt reportou incidentes onde o ideal anarquista de autodeterminação derrotou esses abusos. Por exemplo, quando nazistas entraram para a Federação de Ginástica, a maior organização germano-brasileira em Porto Alegre, membros enfurecidos se organizaram e expulsaram os nazistas na assembleia geral seguinte [7]. O jornal antifascista Aktion também se tornou alvo com ativistas nazistas acusando seu editor de difamação ou de ser comunista, acusações que obviamente envolveram a polícia [8]. Novamente, Kniestedt ganhou dois casos de difamação e relançou seu jornal sob dois nomes diferentes. Aktion era uma ameaça para o Terceiro Reich. Em 1937, a intimidação nazistas chegou a sua própria família quando descobriu que seu filho Max foi forçado a integrar a Frente de Trabalho Alemã, um grupo nazista, por medo de perder seu trabalho. Kniestedt, agora com aproximadamente sessenta anos, foi para prisão e para a cadeia inúmeras vezes, o tornando uma figura notória no Brasil.

Em 1934, Kniestedt teve a oportunidade de falar diretamente para o regime nazista como se sentia. Quando o Ministro das Relações Exteriores nazista revogou sua cidadania e a de outros vinte e sete exilados, Kniestedt respondeu que se sentia honrado com a decisão. “Me considero um opositor desse Estado,” escreveu , “Considero meu dever fazer o que sempre fiz, dizer somente a verdade e agir sobre ela” [9]. Declarou a si mesmo um cidadão do mundo, sem estados. Apesar de celebrar a diversidade brasileira, ele não estava ansioso para se naturalizar. Em 1936, declarou que se o Brasil continuasse a negar o direito de asilo aos cidadãos do mundo, ele juntaria suas coisas e encontraria outro lugar. Enquanto isso, Rudolf e Miller haviam chego aos EUA em 1933 onde palestraram sobre os perigos do nacionalismo, antissemitismo, e um mundo à beira da guerra. Os Rocker acreditavam que cerca de metade dos germano-estadunidenses apoiariam Hitler. Eles também se sentiam apátridas, mas a constante incerteza de seus passaportes causavam grande ansiedade. Isso mostra quão ineficiente era a política de emigração estadunidense frente um iminente desastre humanitário na Europa.

Quando os Estados Unidos e o Brasil foram à guerra com a Alemanha, Rocker e Kniestedt anunciaram apoio aos Aliados. Essa era uma mudança de suas posições anti guerra de 1914, mas agora, ambos traziam o mesmo argumento em favor do apoio, o que provocou criticismo por parte de alguns anarquistas. Para Rocker, não era sobre conservar democracias burguesas mas sobre preservar o que chamava de “possibilidades de livre desenvolvimento” [10] Para Kniestedt uma vitória dos Aliados a possibilidade de um novo movimento de trabalhadores e alguns direitos e liberdades democráticas. Em 1943, numa entrevista, Kniestedt explicou pelo quê o Movimento de Alemães Antinazistas lutava: um acordo com a Declaração de Casablanca que exigia rendição incondicional sem punições injustas do povo alemão, repúdio ao racismo e antissemitismo, a união de todos os alemães livres; um apelo para os prisioneiro de guerra alemães juntarem-se ao movimento; construindo sociedades de apoio mútuo e ajudando fugitivos, e uma saudação ao povo Sul americano que haviam recebido bem os alemães livres. Em 1945, Rocker e Kniestedt, ambos com setenta e dois anos, ajudaram a organizar uma campanha de apoio à anarquistas vítimas do fascismo, juntos de Helmut Rüdiger, um anarquista de quarenta e dois anos em exílio na Suécia.

É fato notório que um movimento antifascista, liderado por anarquistas e esquerdistas sem afiliações, foi capaz de resisti ao nazismo através da palavra impressa e da ação direta pacífica. A força desse movimento liderado por anarquistas no Brasil foi significativa, dado o fato que manteve uma contínua infraestrutura jornalística e organizacional por vinte anos. Mesmo elementos nazistas no Brasil entenderam que esse contramovimento era de alguma forma efetivo e não podia ser ignorado. É preciso deixar explicado que Kniestedt e Rocker não eram pacifistas; eles eram militante antimilitarismo nos dizendo que quando se trata de fascismo nós não podemos dar a outra face. Eles não podiam impedir guerras globais, mas eles inspiraram e preservaram autonomias locais.

***

Tom Goyens é professor na Universidade de Leuven, Bélgica; e PhD em História.

[1] Kniestedt, Fuchsfeuerwild: Erinnerungen eines anarchistischen Auswanderers nach Rio Grande do Sul, memórias de Friedrich Kniestedt (1873-1947) (Hamburg: Verlag Barrikade, 2013), p. 101.

[2] Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 111-2.

[3] Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 134. [4] [Kniestedt,] “Kaiser Geburtstagfeier 1925,” Der freie Arbeiter (Porto Alegre), January 1925.

[5] Deutsches Volksblat (Porto Alegre), January 31, 1933, quoted in Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 171.

[6] Kniestedt, “Rück-und Ausblick,” Aktion: Organ der Liga für Menschenrechte, Ortsgruppe: Porto Alegre (Porto Alegre), December 23, 1935, p. 1. See also Rivadavia de Souza, “Começou Combatendo o Kaiser e Acabou Combatendo Hitler,” Diretrizes (Rio de Janeiro), June 11, 1942, p. 16.

[7] [Kniestedt,] “Vorbeigelungen,” Alarm (Porto Alegre), February 15, 1937.

[8] “Processos por crime de injurias impressas,” O Estado (Florianopolis), June 9, 1934, p. 4.

[9] Kniestedt to Frick, February 10, 1935 (Porto Alegre), printed in Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 182.

[10] Qoted in Peter Wienand, Der ‘geborene’ Rebell: Rudolf Rocker, Leben und Werk (Berlin: Karin Kramer Verlag, 1981), p. 419. 3

Um Anarquista Contra Hitler

Friedrich Kniestedt no Brasil

Tom Goyens

publicado originalmente em tomgoyens.substack.com

29 de Dezembro, 2022

Em Outubro de 1945, sessenta e seis germano-brasileiros peticionaram ao govern do Brasil, exigindo que fossem reconhecidos como ativistas anti-nazismo, diferente de seus compatriotas que simpatizavam com o Terceiro Reich e agora estavam sendo perseguidos. O representante da petição era Friedrich Kniestedt, um anarquista alemão de setenta e dois anos, pinceleiro e editor, figura de liderança do movimento anti-nazista do Brasil, onde os anarquistas desempenharam um papel significante.

Vamos olhar mais de perto para os anarquistas transnacionais combatendo o militarismo e fascismo através da figura de Kiestedt. A razão é simples: para melhor nos capacitar a lidar com a atual ascensão do fascismo da Extrema Direita em inúmeros países diferentes e para descobrir as possibilidades de uma resistência antifascista com sólida tendência anarquista. Kniestedt nunca serviu ao exército e nunca cometeu um ato de violência, mesmo assim lutou incansavelmente contra o autoritarismo. Ele começou a vida combatendo o Kaiser e acabou enfrentando Hitler; ele deixou sua terra nativa as vésperas da Grande Guerra apenas para enfrentar os camisas marrons no Sul do Brasil. Militantes como Kniestedt reimaginaram as possibilidades anarquistas de acordo com as novas circunstâncias de repressão e exílio. Eles atacaram o autoritarismo da Direita assim como na Esquerda e debateram o quanto colaborar com grupos liberais para conter a maré hitlerista. Anarquistas alemães, em especial, combateram duramente a imagem nazificada de sua terra natal. Todas essas reflexões são tão relevantes hoje quanto era em 1933.

Friedrich Kniestedt era apenas um adolescente quando se tornou socialista, no fim dos anos de 1880, quando a Lei Anti-Socialistas de Bismarck estava com força total. Depois de 1890, quando a lei repressiva foi revogada, um movimento abertamente socialista era possível novamente, e ele continuou a frequentar encontros socialistas. Kniestedt se voltou ao anarquismo como artesão autônomo, prometendo se opor ao centralismo, autoritarismo e militarismo. Esteve ativo no movimento de trabalhadores e começou a dar palestras, o que resultou em vários encontros com a lei, incluindo uma sentença de nove meses de prisão quando tinha vinte anos. Ele leu Peter Kropotkon, Mikhail Bakunin, Pierre-Joseph Proudhon, Max Stirner, e especialmente Leon Tolstoy, que se por sua vida toda foi uma influência no seu anti-militarismo e oposição a violência de estado. Através de seu ativismo independente, se tornou amigo de anarquistas conhecidos como Gustav Landauer e Eich Mühsam, que mais tarde o levou ao anarquismo.

Conforme a Alemanha imperial escalava seus gastos militares, as atividades de Kniestedt foram sendo mais vigiadas. Esse foi um dos motivos que levou sua família a se mudar para Paris em 1908, onde continuou sua agitação antimilitarista e se tornou tesoureiro para um grupo que auxiliava pessoas radicais em exílio. Ele também ouviu a fala de Rudolf Rocker quando esteve em Londres. Entretanto, tensões internas do movimento e a descoberta de espiões eram profundamente frustrantes, e Kiestedt começou a pensar em sair da vida política. Em 1909, ele e sua família decidiram se unirem a uma comunidade cooperativa nas florestas tropicais do Brasil, mas essa experiência comunal foi uma decepção por diversos motivos; atividades anarquistas sobre antimilitarismo não eram permitidas por medo de se oporem ao governo. Kniestedt tentou viver como agricultor, então se mudou brevemente para São Paulo, mas eventualmente retornou a Alemanha em 1912. Mas sua terra natal estava ainda pior; havia se tornado uma sociedade militarizada envolta em chauvinismo hierárquico e obediência cega mortificante, como Kniestedt declarou [1]. Ele voltou ao circuito de palestras, chamando trabalhadores a recusarem se tornarem assassinos a serviço do estado e a apoiarem uma greve geral para barrarem a guerra. Em 27 de Janeiro de 1913, Kniestedt fez uma fala em um dos maiores protestos de desempregados da história da Alemanha, mas novamente a vigilância levou a prisões e a cadeia [2]. Refletindo sua recente experiência transatlântica, Kniestedt agora via o Brasil como uma terra onde ainda existia alguma liberdade sem a mentalidade de obediência cega a um líder. O Brasil podia ser a terra do futuro. Então, mais uma vez a família emigrou para o Brasil. “Deixei a Europa,” Knietedt escreveu mais tarde, “sabendo que eu havia dado o máximo dentro das minhas habilidades e energias, para impedir a guerra” [3] Kniestedt partiu de Amsterdam; dois dias depois a Alemanha declarou guerra com a Rússia.

Dessa vez Kniestedt não se instalou no interior mas em Porto Alegre, a capital do estado mais ao sul, o Rio Grande do Sul, onde viveu entre trabalhadores germano-brasileiros e se tornou uma das lideranças da anarcossindicalista Associação de Trabalhadores Socialistas Alemães. Guerra e revolução na terra natal também abalou a vida de outros anarquistas alemães. Enquanto Kniestedt veio para o Brasil, Rudolf Rocker retornou a Alemanha após a guerra para ajudar e reviver o movimento anarcossindicalista. O amigo de Kniestedt, Erich Mühsam foi liberto da prisão, mas Landauer, com quem ele havia compartilhado o púlpito, teve um terrível fim nas mãos das milícias de extrema-direita. As tensões políticas e ideológicas da República de Weimar puderam ser sentidas nas comunidades em diáspora do sul Brasil, onde Kniestedt emergiu como uma das principais figuras do movimento de trabalhadores. De 1920 a 1930, ele editou o jornal anarquista Der freire Arbeiter, o único periódico anarquista de língua alemã nas Américas, e abriu um livraria internacional. Nesse papel, ele atacou o chauvinismo racial enquanto promovia tradições humanistas radicais. Em 1925 por exemplo, ele ridicularizou os alemães conservadores de Porto Alegre por celebrarem o aniversário do Kaiser, sete anos após sua renúncia [4].

No começo dos anos 30, Kniestedt parecia afastado do movimento quando foi abordado por um empreendedor que o ofereceu uma fábrica de vassouras, ma sno fim, ele se recusou a participar da exploração dos trabalhadores. Enquanto isso, elementos nazistas se tornaram mais ativos no Brasil depois de tomarem poder na Alemanha. O Brasil era uma terra fértil para fascistas buscando influencias as comunidades italianas e alemãs, especialmente após o populista e autocrata Getúlio Vargas chegou ao poder em 1930. A polícia brasileira tolerava os grupos nazistas encorporados no Nazi Party’s Foreign Organization. Em 1932, quando os camisas marrons tentaram se apoderar da sociedade de apoio mútuo que Kniestedt era um dos representantes, os anarquistas revidaram e venceram [5]. Ele e outros fundaram a sessão de Porto Alegre da Liga dos Direitos Humanos, que reunia várias vertentes da esquerda, mas se consolidou como grupo anarquistas. Elas lançaram o jornal Aktion com Kniestedt como editor e uma circulação de 9.000 exemplares (com 3.000 sendo enviados para Alemanha. Esse documento se tornou a única organização anti-nazista no Brasil e um competidor com os jornais de língua alemã simpáticos ao nazismo e assim combatendo o fascismo [6].

O ativismo nazista no Brasil continuou a perseguir e intimidar, e tiveram algum sucesso se infiltrando em escolas onde se falava alemão e associações culturais. Kniestedtd reportou incidentes onde o ideal anarquista de autodeterminação derrotou esses abusos. Por exemplo, quando nazistas entraram a Federação de Ginástica, a maior organização germano-brasileira em Porto Alegre, membros enfurecidos se organizaram e expulsaram os nazistas na assembleia geral seguinte [7]. O jornal antifascista Aktion também se tornou alvo com ativistas nazistas acusando seu editor de difamação ou de ser comunista, acusações que obviamente envolveram a polícia [8]. Novamente, Kniestedt ganhou dois casos de difamação e relançou seu jornal sob dois nomes diferentes sobre diferentes nomes. Aktion era uma ameaça para o Terceiro Reich. Em 1937, a intimidação nazistas chegou a sua própria família quando descobriu que seu filho Max foi forçado a integrar a Frente de Trabalho Alemã, um grupo nazista, por medo de perder seu trabalho. Kniestedt, agora com aproximadamente sessenta anos, foi para prisão e para a cadeia inúmeras vezes, o tornando uma figura notória no Brasil.

Em 1934, Kniestedt teve a oportunidade de falar diretamente para o regime nazista como se sentia. Quando o Ministro das Relações Exteriores nazista revogou sua cidadania e a de outros vinte e sete exilados, Kniestedt respondeu que se sentia honrado com a decisão. “Me considero um opositor desse Estado,” escreveu , “Considero meu dever fazer o que sempre fiz, dizer somente a verdade e agir sobre ela” [9]. Declarou a si mesmo um cidadão do mundo, sem estados. Apesar de celebrar a diversidade brasileira, ele não estava ansioso para se naturalizar. Em 1936, declarou que se o Brasil continuasse a negar o direito de asilo aos cidadãos do mundo, ele juntaria suas coisas e encontraria outro lugar. Enquanto isso, Rudolf e Miller haviam chego aos EUA em 1933 onde palestraram sobre os perigos do nacionalismo, antissemitismo, e um mundo à beira da guerra. Os Rocker acreditava que cerca de metade dos germano-estadunidenses apoiariam Hitler. Eles também se sentiam apátridas, mas a constante incerteza de seus passaportes causavam grande ansiedade. Isso mostra quão ineficiente era a politica de imigração estadunidense frente um iminente desastre humanitário na Europa.

Quando os Estados Unidos e o Brsil foram a guerra com a Alemanha, Rocker e Kniestedt anunciaram apoio aos Aliados any. Esse era uma mudança de suas posições antiguerra de 1914, mas agora, ambos traziam o mesmo argumento em favor do apoio, o que provocou criticismo por parte de alguns anarquistas. Para Rocker, não era sobre conservar democracias burguesas mas sobre preservar oque chamava de “possibilidades de livre desenvolvimento” [10] Para Kniestedt uma vitória dos Aliados a possibilidade de um novo movimento de trabalhadores e alguns direitos e liberdades democráticas. Em 1943, numa entrevista, Kniestedt explicou pelo quê o Movimento de Alemães Antinazistas lutava: um acordo com a Declaração de Casablanca que exigia redição incondicional sem punições injustas do povo alemão, repúdio ao racismo e antissemitismo, a união de todos os alemães livres; um apelo para os prisioneiro de guerra alemães juntarem-se ao movimento; construindo sociedades de apoio mútuo e ajudando fugitivos, e uma saudação co povo Sul americano que haviam recebido bem os alemães livres. Em 1945, Rocker e Kniestedt, ambos com setenta e dois anos, ajudaram a organizar uma campanha de apoio a anarquistas vítimas do fascismo, juntos de Helmut Rüdiger, um anarquista de quarenta e dois anos em exílio na Suécia.

É fato notório que um movimento antifascista, liderado por anarquistas e esquerdistas sem afiliações, foi capaz de resisti ao nazismo através da palavra impressa e da ação direta pacífica. A força desse movimento liderado por anarquistas no Brasil foi significante, dado o fato que manteve uma continuada infraestrutura jornalística e organizacional por vinte anos. Mesmo elementos nazistas no Brasil entenderam que esse contramovimento era de alguma forma efetivo e não podia ser ignorado. É preciso deixar explicado que Kiestedt e Rocker não eram pacifistas; eles eram militante antimilitarismo nos dizendo que quando se trata de fascismo nós não podemos dar a outra face. Eles não podiam impedir guerras globais, mas eles inspiraram e preservaram autonomias locais.

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Tom Goyens é professor na Universidade de Leuven, Bélgica; e PhD em História.

[1] Kniestedt, Fuchsfeuerwild: Erinnerungen eines anarchistischen Auswanderers nach Rio Grande do Sul, memórias de Friedrich Kniestedt (1873-1947) (Hamburg: Verlag Barrikade, 2013), p. 101.

[2] Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 111-2.

[3] Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 134. [4] [Kniestedt,] “Kaiser Geburtstagfeier 1925,” Der freie Arbeiter (Porto Alegre), January 1925.

[5] Deutsches Volksblat (Porto Alegre), January 31, 1933, quoted in Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 171.

[6] Kniestedt, “Rück-und Ausblick,” Aktion: Organ der Liga für Menschenrechte, Ortsgruppe: Porto Alegre (Porto Alegre), December 23, 1935, p. 1. See also Rivadavia de Souza, “Começou Combatendo o Kaiser e Acabou Combatendo Hitler,” Diretrizes (Rio de Janeiro), June 11, 1942, p. 16.

[7] [Kniestedt,] “Vorbeigelungen,” Alarm (Porto Alegre), February 15, 1937.

[8] “Processos por crime de injurias impressas,” O Estado (Florianopolis), June 9, 1934, p. 4.

[9] Kniestedt to Frick, February 10, 1935 (Porto Alegre), printed in Kniestedt, Fuchsfeuerwild, 182.

[10] Qoted in Peter Wienand, Der ‘geborene’ Rebell: Rudolf Rocker, Leben und Werk (Berlin: Karin Kramer Verlag, 1981), p. 419. 3

A Internet sempre foi anarquista, por isso as Anarquistas precisam aprender a serem responsáveis por opera-la

publicado originalmente por Tech Learning Collective 2020-10-08

O princípio fundamental do Anarquismo é a resistência a um Archos, grego para

“mestre”. Advogar pelo anarquismo é se posicionar em oposição a um mestre, ou seja, reivindicar o direito fundamental de auto determinação, autonomia, e liberdade de um sistema centralizado de controle (especialmente controle coercitivo). Agir de maneira anárquica significa agir independente de um mestre. Não significa agir de maneira não coordenada ou desorganizada, e nem sempre significa uma total ausência de camadas de responsabilidades, mais comumente conhecidas como “hierarquias”.

A Internet é anarquista pois o parágrafo acima descreve não apenas os protocolos básicos de operação da Internet como Ethernet e TCP/IP, mas também as intenções originais de seus criadores. Quando Bob Metcalfe inventou a Ethernet em 1970, ele intencionalmente criou seu sistema de maneira que funcionaria anárquicamente. Diferente de tecnologias competidoras daqueles tempos como Token Ring, na qual participantes individuais se distinguiam entre si baseado em qual deles detinha todo o poder de falar em determinado momento (o portador do “token” da rede), a Ethernet de Metcalfe propositalmente permitia que o aparelho de qualquer participante pudesse dizer qualquer coisa na rede a qualquer momento que ele desejasse. Colisões e conflitos eram resolvidos de forma independente, pelos aparelhos individuais que estava criando o conflito, através de um simples conjunto de regras ( carrier sense multiple access with collision detection, ou CSMA/CD), um processo sem a medição de controladores externos.

Muitos engenheiros acreditaram que essa abordagem seria muito caótica para ser bem-sucedida. Como podia um sistema de coordenação funcionar sem um comando central ? Isso seria pura anarquia!

Hoje, toda conexão com a Intenet, rede local, uplink telefônico, datacenter backhaul, e sinal de WiFi que chega ao seu computador usa Ethernet. A abordagem anarquista se provou mais simples, mais eficiente, e absolutamente mais exitosa. Isso não é nenhuma surpresa para nenhum anarquista praticante, de todo modo muitos anarquistas praticantes ainda não reconhecem o anarquismo em ação quando postam mais um tuíte.

A maioria das pessoas, incluindo e talvez especialmente a maior parte dos tecnologistas digitais, são capazes de compreender intuitivamente os princípios de coordenação anárquicos. Existe uma miríade de exemplos modernos de tecnologias com nomes como algoritmos de concenso, orquestra de clusters, e distributed ledgers (como as “blockchains”) que, quando você para para analisa-las, em seus fundamentos, são abordagens anárquicas para resolução de problemas complexos em ambientes com vários níveis de confiança entre os participantes.

Ferramentas de organização de clusters de larga escala como Kubernetes, uma invenção da Google, funcionam primariamente graças a coordenação de uma série componentes cada um com uma responsabilidade específica, organizados horizontalmente para agirem independente uns dos outros, apenas respondendo a mudanças em seu ambiente conforme elas acontecem. O próprio Certificate Transparency Log (CTL) da Internet, que audita a emissão de certificados de segurança de websites como os que são oferecidos gratuitamente para donos de websites pela Let’s Encrypt, é um imenso banco de dados de concenso distribuído, mantido por muitas organizações independentes que usam a mesma tecnologia em que se baseia a Bitcoin. A própria espinha dorsal da Internet o Domain Name System (DNS) e o Border Gateway Protocol (BGP), são sistemas delegáveis onde qualquer um, a qualquer hora, pode participar simplesmente conectando-se com um computador com software livre e de código aberto na Internet e reivindicando responsabilidade sobre uma nova região autônoma chamada “domínio” na linguagem do DNS ou um “autonomous system number” (ASN) na linguagem do BGP..

Para os recém iniciados, isso tudo soa bastante frágil. Ainda assim, de algum modo, a Internet se provou surpreendentemente resiliente. Mas a maioria dos tecnologistas não são capazes de ver os paralelos entre sua amada tecnologia e o ponto de vista anarquista especialmente por que não passam muito tempo pensando sobre organização e política. Ao menos, não além do próximo ciclo eleitotral a cada quatro anos.

Isso precisa mudar, E nós somos a mudança.

Como ? Tal mudança não vai acontecer em cursos ou iniciativas tipo “aprenda a programar”. Não acontecerá através de campanhas sobre diversidade patrocinadas e centradas dentro da indústria da tecnologia. Tecnologistas, como a maioria das pessoas em uma posição social confortável e com posições sociais privilegiadas e estratificação de classes, não são propensas a examiar seus preconceitos ou mudar sua visão de mundo. É pouco razoável e estratégicamente imprudente de nossa parte esperar que isso ocorra.

Sendo sucinto, o custo de mudar a visão de mundo de um indivíduo é um esforço imenso. Como estratégia ampla, não é plausível. Não vale a pena lutar a “batalha pelos corações e mentes”, ao menos, não diretamente, pois o que muda corações e mentes não é a razão, mas a experiência. Não é citando fatos sobre o presente, mas tomando ações que inspirem a imaginação sobre o futuro. Não é engajando em debates, mas de fato fazendo mudanças concretas nas circusntâncias materias de alguém.

Já o custo de se treinar pessoas radicais em tecnologias modernas de informação, por outro lado, é menor. Também é difícil, certamente, mas aprender um novo conjunto de habilidades não é nem de longe tão difícil quanto aprender uma visão de mundo nova e totalmente oposta. Como estratégia geral, “tecnologizar radicais” tem potenciais ilimitados, enquanto “radicalizar tecnocratas” tem se provado uma desastrosa perda de tempo.

O cenário ativista de hoje é bem diferente dos dias das marchas dos Direitos Civis, do Movimento Anti Guerra, ou mesmo do Movimento Anti-Globalização, anterior ao 9/11. Se devemos cruzar um tipo diferente de terreno, nós precisamos de de um tipo difrente de veículo.

Essa não é uma ideia particularmente nova. Alguns vão se lembrar das Crypto Wars dos 1980 e 1990, nas quais os governos reservaram o uso de criptografia unicamente para usos militares. Cypherpunks e o começo da cultura “Hacker” nasce dessa época. Mas nem cypherpunks nem comunidades “hacker” eram particularmentre anarquistas, nem em ideologia nem em prática. Invés disso eles importaram e espelharam ideias vigentes como gênero, economia, e estereótipos raciais, gastando boa parte de seu tempo ingenuamente se imaginando em alguma longínqua utopia onde a mera existência de tecnologias baseadas em métodos anárquicos iriam inevitavelmente levar a uma reforma na sociedade com igualdade e justiça para todos mesmo quando a realidade se voltava cada vez mais rumo distopias dignas de pesadelos.

y the time they awoke from their Matte-fueled reveries several decades later, their world had been colonized and their comrades would be targeted as criminals under laws like the Computer Fraud and Abuse Act enacted a decade or more earlier. Famous exceptions such as Pirate Bay founder Peter Sunde notwithstanding, the earlier generation of hackers fumbled because they failed to recognize and center the importance of the anarchist principles underlying the very technologies they wrongly treated as inherently liberating.

Hacker tecnicamente habilidosos se embrulharam no brilho de seus computadores da mesma maneira que políticos se embrulham nas bandeiras de seus países. Em sua maioria, eles ignoraram as forças da indutrialização re-centralizando a Internet e a transformando em imensos shopping centers como Facebook. Décadas depois, quando acordaram de seus sonhos de descanso de tela, o mundo deles havia sido colonizado e seus camaradas seriam marcados como criminosos por leis como o Computer Fraud and Abuse Act promulgado dez anos antes. Exeções famosas à parte, como o fundador do Pirate Bay,Peter Sunde , a primeira geração de hackers falhou, pois falharam em perceber e dar importância aos princípios anarquistas sustentando as mesmas tecnologias que eles errôneamente consideraram como inerentemente liberatórias.

Se eles tivessem trazido consigo um olhar mais explicitamente anarquista, teriam reconhecido que nem anarquia nem liberação são estados que podem ser descritos por suas máquinas do estado, mas que esses são processos constantes em que os indivíduos devem repetidamente agirem para reafirmar sua resitência contra a formação de um Archos.

Hoje isso significa que Anarquistas politicamente conscientes devem tomar a responsabilidade pela operação e administração das redes interconectadas de comunicação, se não mesmo, a Internet com I maiúsculo, para nos certificarmos que o fascismo será constantemente combatido e freado. Isso vai além de simplesmente não dar plataforma para fascistas e criar o código do próximo app de rede social ou mensageiro criptografado que vai virar hype. Isso não é o suficiente. Não passa nem perto de ser o suficiente.

Ao invés disso, nós anarquistas devemos nos tornar de fisicamente correr cabos de um bairro para outro. Devemos nós mesmos aprender a administrar funções vitais da internet como o Domain Name Syste, independente dos nossos provedores comerciais. Nós devemos aprender a criar uma infraestrutura, não necessariamente maior, mas paralela aos imensos datacenters e instalalos fisicamente nas comunidades que dependem deles, ao invés de deixa-los a um meio globo de distância, exatamente pela mesma razão nós devemnos abolir as delegacias de polícia cujas patrulhas são conduzidas por equipes que nem vivem na vizinhança pela qual são responsáveis por policiar.

Isso é uma enorme quantia de trabalho, mas não tanto parece a primeira vista. E o melhor de tudo, os recursos que são necessários em termos de dinheiro e equiopamento são mínimos e cada dia mais acessíveis. Também não há necessidade de escrever novos códigos ou criar novos apps para fazer isso acontecer. Nós já temos todos os materiais básicos que precisamos para o trabalho. A única coisa que nos falta é um amplo compromisso dos próprios anarquistas.

Na cidade de Nova York, vários coletivos Anarquistas e anarco-autonomistas tem lentamente convergido para fornecer a apoio na insfraestrutura digital e tecnológica para organizações anti-fascistas, anti-racistas, e anti-capitalistas de maneira reproduzível. Esses serviços vão desde treinamento em computação para ativistas e grupos de advocacia a assistência direta com componentes digitais para esforços de advocacia, e quando solicitado, até mesmo audições privadas quanto a segurança de algum aliado.

Alguns grupos como Anarcho-Tech NYC, são totalmente mantidos por trabalho voluntário operando sem nenhuma licença ou reconhecimento legal e uma caixa intencionalmeente o mais perto possível do zero.

Outros, como Tech Learning Collective, dão treinamentos técnicos livres, de contribuição voluntária, e de baixo custo para comunidades pouco assistidas e organizações que lutam pela justiça social, em um esforço de ajudar a financiar projetos radicias de bem estar social enquanto simultâneamente ajudam a melhorar as habilidades de estudantes politicamente motivados e tecnologicamente curiosos. O Tech Learning Collective é uma escola fundada e mantida exclusivamente por tecnologistas radicais, mulheres e queers, baseada na mentoria, e com foco na segurança, oferece aulas virtais (remotas/online) de computação em tópicos que vão desde o uso básico de computadores até as mesmas técnicas ofensivas de raqueamento utilizadas por agências nacionais de inteligência e agentes militares.

Junto de grupos focados em tecnologia como Shift-CTRL Space que conecta militantes a recursos tecnológicos livres, essa “coalizão arco-íris digital” com foco em assuntos como TI, infraestrutura de telecomunicações e iniciativas educacionais vem demonstrando como ter um grande impacto em organizações antifascistas no século 21.

Como anarquistas, nós gostamos de dizer que outro mundo é possível. A verdade é que, outro mundo está aqui todo esse tempo. Está na palma da nossa mão toda vez que lemos uma mensagem de texto de uma de nossas amigas. Tudo que precisamos fazer é aprender ccomo isso de fato funciona.

Apontamentos sobre o Uso de Tecnologias nos Protestos de Hong Kong

Esse texto é uma tradução-adaptação , o original pode ser encontrado aqui.

Consideramos esse texto, por si só, muito interessante para uma breve análise das táticas empregadas na revolta de Hong Kong em 2019, unos oferece uma visão bastante nítida dos potenciais insurrecionais que o uso criativo e difuso de tecnologias cotidianas nos oferecem.

Importante ressaltar, o texto data de 2019, de lá pra cá muita coisa mudou no contexto da guerra social local, e Hong Kong parece uma vez mais, pacificada sob as botas do regime chinês. Enquanto nossoscamaradas de lá aguardam o momento de se rebelaram novamente, nós nos reunimos pra aprender e discutir seus feitos.

Se te instigar a curiosidade sobre esses eventos, te recomendo fortemente conferir o documentário em três partes que o Popular Front fez, sobre esses mesmo conflitos.

Morte ao Estado e que Viva a Anarquia.

Boa leitura.

Os protestos pró democracia em Hong Kong estão entrando em sua décima quarta semana. Mais de mil pessoas já foram presas, e muitos ativistas já foram seriamente feridos pela polícia. A festividade de aniversário de setenta anos da China está chegando em primeiro de Outubro, e o quinto aniversário dos protestos de Occupy Central [1] serão em 29 de Setembro, então o clima é de alta tensão.

Irei explicar brevemente o contexto legal dos protestos, e as ameaças que os manifestantes enfrentam, antes de explicar as maneira que eles tem utilizado redes sociais e aplicativos de mensagem para coordenar protestos.

Contexto Legal

Hong Kong é uma Região Administrativa Especial da China, com altos níveis de autonomia formal . O território foi cedido à China em 1997 sob o modelo “Um País, Dois Sistemas”, criado para preservar seu sistema legal e econômico. Pelo tratado, Hong Kong supostamente desfruta desse status especial até 2047.

Os protestos atuais são uma série de confrontos entre manifestantes e as autoridades em Hong Kong, com pressão de Beijing nos bastidores, mas sem interferência aberta. De um lado do conflito está o Chefe do Executivo e os 30.000 membros da polícia de Hong Kong. Do outro, lado, temos essencialmente, todo o resto da população. Nos protestos de 9 e 16 de Junho foram estimados, respectivamente 1 e 2 milhões de participantes nas manifestações, em uma cidade de 7 milhões. Até agora 1.000 pessoas foram presas e manifestantes tiveram ferimentos graves, alguns sofridos após as pessoas serem levadas sob custódia da polícia.

Apesar de existirem bolsões de Hong Kong que apoiam o continente (como a vizinhança de North Point, que tem laços com a província de Fujian), os protestos gozam de amplo apoio social, em parte por conta da violência policial ter escandalizado uma sociedade onde violência é algo raro.

É compreendido que a polícia de Hong Kong é uma autoridade executiva que responde as diretivas de Beijing, mas o sistema de corte de Hing Kong é genuinamente independente.

Hong Kong está fora do Great Firewall[2], com acesso irrestrito a internet. Isso não é apenas uma escolha política, mas uma realidade física; A infraestrutura não está posta de um modo que facilite a expansão rápida dos controles de internet da China continental sobre Hong Kong.

É importante compreender as restrições da China. Hong Kong é a rota da China para o sistema financeiro global, e esse status depende da continuação da independência o sistema legal de Hong Kong. Tanto investimento financeiro estrangeiro, quanto o sistema bancário internacional dependem de Hong Kong por conta de suas fortes garantias oferecidas por suas cortes. Qualquer violação dessas leis, pela China poderiam ter repercussões catastróficas caso espantassem as empresas internacionais.

O status especial de rota financeira protege Hong Kong. A corrupção nos níveis mais altos do Partido Comunista Chinês oferecem um nível adicional de proteção. Oficiais chineses contam com o funcionamento de Hong Kong para várias formas de lavagem de dinheiro. Não existe maneira fácil de comprar uma vila italiana com renminbi[3] que não passe por Hong Kong.

Beijing tem uma combinação de incentivos “macroeconômicos” e “microeconômicos” para deixar Hong Kong sem interferência. Intervenção direta iria ferir a economia chinesa, e o fim da rota financeira de Hong Kong afetaria pessoal e drasticamente grande parte das elites.

Isso torna boa parte das estratégias chinesas de como lidar com dissidências internas, impossíveis de serem usadas em Hong Kong. Em especial, Blackout de Internet, prisões arbitrárias, extradição para o continente ou o uso direto do Peoples Armed Police, o PLA, seriam todos métodos inaceitáveis para o interesse financeiros internacionais.

O problema com essa proteção é que ela é frágil. Uma vez que a China cruze a linha e espante o capital internacional (impondo restrições de internet, ou atropelando as cortes locais), possivelmente não haverá mais defesas contra outras formas de interferência direta.

Ameaças

A Lei Básica de Hong Kong garante aos seus cidadãos a liberdade de expressão e de imprensa. O ponto fraco é a liberdade de reunião. Se a polícia declarar uma reunião de três ou mais pessoas como ilegal, a pena pode ser de até dez anos de cadeia. Os organizadores dos protestos de 2014 responderam ou estão respondendo à essas penas.

A China também tem posto uma enorme pressão sobre empresas de Hong Kong para que demitam trabalhadores que participam dos protestos, mais publicamente a empresa aérea, Cathay Pacific. Pressão semelhante tem sido observada sobre as escolas, agora que o ano letivo está em andamento.

Então, as maiores ameaças para os manifestantes são serem presos por fazerem assembléias públicas, ou serem identificados individualmente, por fotografias ou outros meios. Além das complicações legais, Hong Kong tem uma cultura de doxxing, que não carrega o mesmo estigma que nos EUA. Essa é uma ameaça, tanto para os manifestantes quanto para a polícia.

Outra ameaça que os manifestantes enfrentam são os ataques físicos, tanto por parte da polícia durante os protestos, quanto por parte dos bandidos afiliados à China continental, que possuem permissão para atacar impunemente. Figuras proeminentes da oposição já foram atacadas em plena luz do dia[4].

E por fim, visitantes e moradores de Hong Kong estão enfrentando repressão na fronteira de Shenzhen, onde guardas revistam aparelhos eletrônicos na busca de qualquer conteúdo relacionado aos protestos. Ao menos uma universidade de medicina retirou seus estudantes dos hospitais do continente para evitar submetê-los a essa intimidação.

Seja lá por qual motivo for, as autoridades de Hong Kong tem se mostrado relutantes em fazer prisões em massa. Eles podem não possuir a capacidade física pra isso, ou ter outras outros razões. A estratégia parece ser a prisão de alguns, para desmotivar os demais. Do lado dos manifestantes, o objetivo é não ser um dos 20 à 150 detidos à cada evento.

A ameaça da vigilância em massa é parte do cenário cataclísmico onde a China está enviando pessoas para campos de reeducação semelhantes aos dos uigure. O que não parece afetar as decisões cotidianas das pessoas, mais do que a ameaça de ser pessoalmente identificado.

Aqui, o sistema de corte de Hong Kong também oferece alguma proteção, a China não pode simplesmente pegar uma quantidade massiva de dados de torres de celular e apresentar nos julgamentos; É necessário que haja algum tipo de construção paralela.

Dito isso, a polícia de Hong Kong pode obter amplos dados de vigilância sem mandato, e a falta de medo da vigilância de massa pode ser mais psicológica, ligadas a falta de prisões em massa. As pessoas estão preocupadas em serem identificadas individualmente, e não que em algum momento do futuro as autoridades possam identificar centenas de manifestantes.

Por isso, manifestantes se concentram nas ameaças que podem enfrentar; Usam guarda chuvas e máscaras para esconder seus rostos, alguns usam cartões MTR descartáveis ao invés do Octopus card [5] que é ligado a sua identidade (já que a polícia pode escanear o cartão para saber que trajetos fizeram).

Quase todos trazem telefones celulares para os protestos, destes, poucos são do tipo descartável

Uso de Tecnologia

É importante enfatizar que os manifestantes de Hong Kong são pessoas jovens, improvisando dentro de um cenário bastante estressante. Eles não são ubernerds como vem sendo retratados em alguns canais da mídia ocidental, mas sim, centenas de milhares de pessoas comuns, preocupadas e corajosas, que vem desafiando a China. Retrata-los como especialmente competentes é um desserviço e desconsidera a coragem que demonstram.

Como lideranças se mostraram uma vulnerabilidade em 2014, os manifestantes de 2019 adotaram uma abordagem descentralizada. Não existem lideranças formais, e a coesão se dá à partir de redes sociais e laços de relacionamentos pessoais. O resultado é processo decisório do tipo “protesto twitch play” (aqueles que são velhos de mais para entender essa referência, podem pensar no processo, como uma decisão por tábua Ouija).

Os manifestantes fazem uso constante de duas ferramentas de software: LIHKG (Li-dan), um fórum de mensagens semelhante ao Reddit, e o aplicativo de mensagens Telegram.

LIHKG

LIHKG é um local para proposição de novas ideias e discussão. Existem duas categorias de usuários, destacados visualmente, baseados em se entraram no site ante ou depois da data limite do começo das manifestações. O site requer um email ISP para ser acessado. As duas medidas existem para impedir trolls.

O site é administrado de forma anônima.

As conversas acontecem em cantonês e ao menos uma vez os usuários adotaram uma forma de escrita de cantonês que é incompreensível para falantes do mandarim, como modo de defesa contra os trolls. Os trolls foram de certa forma, impedidos pelo chauvinismo da China continental que vê o cantonês como um dialeto. Esse chauvinismo impediu a China de mobilizar uma comunidade de falantes de cantonês pró China continental, capaz de influenciar ou desmobilizar as discussões públicas do fórum.

Em 31 de Agosto, LIHKG foi sujeito a um ataque de DDOS que derrubou o site. O fórum mudou seu domínio para Cloudflare e se mantém ativo até o momento.

Telegram

Telegram é o mensageiro favorito entre manifestantes. É usado para mensagem um-pra-um entre indivíduos, entre pequenos grupos de pessoas para coordenação, e entre grupos muito grandes para amplificar e disseminar informações. A ferramente de enquete também é uma maneira de firmar consenso no processo de tomadas de decisão em coletivo.

Muitas ferramentas do Telegram o tornam atrativo para os manifestantes.

· Mensagens que Desaparecem — Se a polícia te forçar a destravar o telefone, você não entrega seus aliados.

· Grupos com um número muito grande de membros (dezenas de centenas ou mesmo centena de milhares). O que permite uma rápida difusão de notícias.

· Enquetes. Já que os protestos são descentralizados, alguns mecanismos de tomada de decisão são necessários. Na prática, enquetes são usadas para confirmar decisões, onde o consenso parece nítido.

· Interface amigável para os usuários.

Em agosto foi revelado, após um cyber ataque, que era possível identificar a quais grupos os usuários do Telegram pertenciam.

O Telegram respondeu com uma atualização que permite aos usuários esconder seus números de telefone. O evento parece não ter afetado o uso do Telegram com o público, o que ajuda a comprovar a tese de que os manifestantes estão mais preocupados em serem identificados pessoalmente do que com a vigilância em massa.

Exemplo — O Modo Hong Kong

Um exemplo pode nos ajudar a demonstrar como essas tecnologias são usadas na prática.

Em 19 de Agosto, alguém postou no fórum LIHKG, dando a ideia de formar uma corrente humana em Hong Kong, no aniversário de 30 anos do protesto de Baltic Way, que aconteceu na antiga União Sovietica. Rapidamente, surgiram grupos organizados no Telegram. Eles apresentavam mapas e a logística de quantas pessoas seriam necessárias, e onde.

Logo, grupos de Telegram foram formados para cada setor da rota, que seria paralela ao sistema de metrô.

No dia dos protestos, voluntários monitoraram m tempo real os mapas e enquetes que informavam para onde as pessoas estavam se dirigindo e quais estações MTR precisavam de mais participantes. Voluntários nas saídas dos metrôs ajudaram na formação, se certificando que quando o protesto começasse às 8 PM, todos estariam em suas posições e não haveriam espaços vagos.

Um grupo no Telegram organizou a ação final da noite, com cada manifestante tapando um de seus olhos e cantando “give back the eye” às 9 PM (uma referência ao fato que um dos partcipantes que cegado por uma munição menos letal, disparada por um policial).

Essa grande ação, que seria impressionante em qualquer contexto organizativo, foi feita em quatro dias por voluntários que eram completos estranhos uns aos outros. Imagens dos manifestantes foram então usadas em artes de fãs, posters, materiais de publicidade, e também compartilhadas via KIHKG e Telegram.

HKmap.live

HKmap.live é um mapa mantido por trabalho voluntário, que acompanha protestos em tempo real, incluindo marcadores para presença policial, unidades de elite da polícia, gás lacrimogênio, e alertas sobre a presença da polícia em vias públicas. As informações no mapa são alimentadas por dados através do Telegram. Entrou no ar em Agosto.

Outros Serviços

Manifestantes em Hong Kong compreenderam que o Twitter tem um impacto desproporcional na cobertura da mídia, e que muitos jornalistas ocidentais utilizam o site. Nas últimas semanas tem acontecido um esforço de aumentar a presença de Hong Kong no Twitter, mas relatos mostram que as pessoas tem tido dificuldade de se adaptar ao site.

Alguns hong konguers usam Whatsapp, mas a limitação de tamanho dos grupos o torna menos atrativo que o Telegram. A relativa preferência pelo Telegram também tenha ha ver com desconfiança com relação as políticas de privacidade do Facebook.

O Facebook possui uma relação financeira com Xinhua, a agência de notícias do estado chinês. Xinhua se referiu aos manifestantes como “baratas” em um infame post de facebook (deletado).

Enquanto o Twitter impediu Xinhua de comprar espaço publicitário, Facebook e YouTube continuam vendendo espaço para a estatal mesmo depois de terem dito que iriam dar menos prioridade para esse tipo de conteúdo em seu algoritmo. Na prática, significa que Facebook e YouTube estão tornando o conteúdo da Xinhua menos popular, para que a Xinhua pague mais.

Esse relacionamento não contribui para criar um público cativo do Facebook e WhatsApp entre hong konguers.

[1] Occupy Central; O equivalente ao Occupy Wallstreet e toda aquela onda de eventos que se desenrolaram pelo mundo por 2013

[2] Great Firewall;

[3] Renminbi; Moeda oficial do governo chinês

[4] Alguns casos de violência contra opositores do governo chinês.

[5] Octopus Card e MTR, são cartões pré-pagos que podem ser utilizados para pagar por transporte e compras em pequenos estabelecimentos, a vantagem do Octopus, é que ele não é ligado aos documentos de identidade do usuário

Borboletas, Duques Mortos, a Roda Cigana e o Ministério da Estranheza

[tradução do capítulo 08 do livro Anarchy in the Age of Dinosaurs, por Curious George Brigade]

Anarquistas, no mínimo desde os dias de Kropotkin, têm conscientemente se distanciado da ideia de caos. Lendas foram sussurradas, que um misterioso A dentro de um círculo representa a ordem dentro do caos. Nos últimos anos, praticamente todo escrito anarquista “sério” tentou distanciar o anarquismo do caos. Ainda assim, para a maioria das pessoas comuns, caos e anarquia estarão ligados para sempre. A conexão entre caos e anarquismo deveria ser repensada e acolhida, invés de ser minimizada e reprimida. Caos é o pesadelo dos governantes, estados, e capitalistas. Por essa e outras razões o caos é um aliado natural em nossas lutas. Nós não deveríamos polir a imagem do anarquismo apagando o caos. Invés disso, devíamos relembrar que o caos não é apenas incendiar ruínas mas também asas de borboletas

“Predição é poder.”

— Auguste Comte, pai da sociologia

Desde o Iluminismo, políticos têm tentado usar princípios científicos na política e economia para controlar a população. A arrogância de sociólogos, economistas, e outros ditos especialistas é evidente na crença que o desejo humano pode ser quantificado, organizado, e assim controlado. As tentativas de prever e controlar todas as possibilidades há muito são o sonho molhado de totalitários e executivos da publicidade ao redor do mundo. Desde Marx que se considerava um “cientista do comportamento das massas”, revolucionários vanguardistas de todo tipo tem acreditado que eles descobriram a equação perfeita para a revolução: uma abordagem matemática para a mudança social. Tanto políticos quanto revolucionários profissionais lutam para se tornarem especialistas absolutos na administração da máquina política; os políticos de verdade casualmente são melhores nisso que seus primos, os ativistas. Não é novidade que os sociólogos da revolução, universitários marxistas sinceros, e os anarco-literários são apaixonados por plataformas, políticas, história, e teorias áridas. Infelizmente para eles, e felizmente para nós, o caos se recusa a respeitar quaisquer regras.


Um Pouqinho Rende Muito

O bater de asas de uma única borboleta hoje, produz uma pequena mudança no estado da atmosfera. Ao longo de um período de tempo, o que a atmosfera faz diverge do que ela teria feito. Então em um mês, um tornado que teria devastado a costa da Indonésia não acontece. Ou talvez, um que não iria acontecer, de fato acontece.”

— Edward Lorenz, meteorologista, 1963

A menor mudança nas condições iniciais de um sistema podem mudar drasticamente seu comportamento a longo prazo. Esse fenômeno, comum à teoria do caos, é conhecido como “sensibilidade às condições iniciais”. Uma pequena diferença em uma medida pode ser considerado ruído experimental, estática de fundo, ou uma pequena imprecisão. Mudanças tão facilmente ignoráveis podem crescer exponencialmente e se acumular de formas inesperadas para criar resultados igualmente inesperados maiores do que qualquer um poderia imaginar.

Esses glitches e fantasmas na máquina são aleatórios demais para serem previstos por qualquer supercomputador governamental. Portanto, anarquistas podem tomar vantagem de estranhos acontecimentos, usando o caos como uma arma secreta contra regimes de controle. Quem sabe se uma mulher se recusando a dar seu lugar no ônibus vai dar origem ao movimento pelos Direitos Civis, ou se um um pequeno mas furioso grupo de adolescentes reunidos na barraquinha de cachorro quente local, em algum momento vão dar início a uma insurreição? O Caos é capaz de virar o jogo mesmo contra o mais estabelecido dinossauro. Em situações fluidas tais como manifestações, ações aparentemente sem consequências podem mudar o tom ou a direção de todo o “sistema”, levando ao caos no melhor sentido possível.

Os políticos do mundo dificilmente anteviram o assassinato do Arquiduque Ferdinando no interior do Império Austro-húngaro levaria ao rompimento de três dos maiores impérios do mundo em menos de uma década. Obviamente, as tensões políticas daqueles dias existiam independentes do duque morto, mas seu assassinato acendeu um pavio cuja explosão destruiu as realidade políticas e econômica dos impérios. Da mesma maneira, uma borboleta batendo suas asas em uma oficina na área rural de West Virgina tem potencial para criar um furacão; ou uma revolução na Argentina.

Surfando as Ondas Fractais da Revolução


Caos é na verdade, mais real que um mundo facilmente dividido entre objetos distintos e equações lineares. Esses objetos fantásticos são perfeitos demais para serem reais em qualquer lugar que não livros de matemática. O mundo real é bagunçado, animado, e sujeito a mudanças constantes além da compreensão de qualquer humano. Abstrações podem ser úteis às vezes, quando se planeja confrontos com a polícia, quando rascunhamos planos para o ano seguinte, e ao lermos mapas em cidades onde nunca pisamos. Ainda assim, a maioria das abstrações fazem um desserviço ao mundo real por negligenciarem os pequenos detalhes. O mundo é caótico e cada vez que alguém acredita que pode controlá-lo, o mundo encontra uma maneira nova de lhe passar uma rasteira.

A teoria fractal demonstrou que o mundo real é menos “real” do que imaginamos a princípio. Em um muito discutido ensaio sobre a costa da Inglaterra, foi demonstrado que a forma e tamanho da unidade de medida afetava dramaticamente o resultado final. Se usarmos uma régua rígida de um metro, vamos medir uma costa mais curta do que se usarmos uma fita milimétrica curva. A costa da Inglaterra, goste ou não, é infinitamente flexível. Mesmo que você tivesse um mapa de escala um para um de uma cidade, ele nunca poderia representar a totalidade da cidade. Existem muitas “cidades” em qualquer cidade e nossa visão disso depende de como observamos nosso entorno, e o que escolhemos dar ênfase. A vantagem dessas realidades borgesianas é que anarquistas têm acesso a múltiplas lentes para usar e entender o mundo. No campo político, as autoridades concordam em se limitarem para uma única representação “verdadeira”, enquanto nós mantemos nossos olhos abertos para possibilidades caóticas. Anarquistas podem usar diferentes perspectivas e escalas para determinar quais projetos valem o esforço. Na medida linear e grandiosa da régua da Revolução Global, os detalhes saem de foco, e muitos projetos essenciais parecem menos importantes. Nós podemos utilizar essa flexibilidade em nossas réguas para nossa vantagem. Dever e Prazer são apenas parte do alcance de nossas motivações. Libertação pessoal, guerra de classes, ambientalismo global, e lutas por autonomias políticas são todas diferentes fórmulas de medir o valor de uma ação ou projeto. Quando aplicados a uma situação, cada um terá um resultado diferente.


A Sorte é Amiga dos Rebeldes

Nós devemos nos tornarmos aliados da sorte se quisermos superar as chances que estão contra nossas empreitadas. Nós não podemos entrar no cassino da revolução política e não perceber que a Casa (o status quo) está contra nós. Nós podemos buscar a sorte onde outros a perderam. Sorte é a combinação de coincidências espontâneas que nós podemos reconhecer e usar em nossa vantagem. Esses eventos não podem ser planejados ou fabricados. Por sorte nossa, esse mundo complexo está transbordando de coincidências potencialmente críticas que estão disponíveis para qualquer rebelde intrépido o bastante para buscá-la. Isso significa tornar nossos planos flexíveis e sermos capazes de lidar com essas possibilidades a qualquer momento. Encontrar uma lixeira esquecida fora da rota de uma manifestação pode facilmente ser a diferença entre conseguir atravessar uma barreira da polícia ou ser bloqueado, especialmente se a lixeira for usada como um aríete!

Como podemos usar o caos em nossa vantagem em nossas resistências diárias? Quando situações são imprevisíveis e os resultados são imprevisíveis, como podemos ter esperança de usar um amigo tão inconstante como aliado? Essas são perguntas para cúpulas anarquistas e think-tanks ao redor do mundo. Nós podemos aprender com toda experiência e não nos tornarmos tão arrogantes a ponto de pré planejar cada evento com antecedência. Sistemas hierárquicos rígidos temem o caos, rejeitam os fractais, e rejeitam a sorte. A arrogância do dinossauro é uma grande vantagem para a nossa resistência. Resistência fractal não pode ser adequadamente contida por estratégias pré programadas de gerenciamento e estratégias de controle de multidões. É importante compreender que nós não somos os primeiros a usar o caos como tática. O caos está integrado a várias culturas ancestrais e outras não tão ancestrais, dos Hopi aos mateiros San. Inúmeras comunidades não só encontraram conforto com o inerente caos do mundo como encontraram formas efetivas de usá-lo.

Culturas de Caos

Os nômades Rom; também conhecidos como Ciganos, têm sido um “problema” para antropologistas por mais de um século. Relativamente pequeno em números e sem nada que se pareça com um exército, ou poder político, eles têm resistido a assimilação por mais de 600 anos. Os ciganos possuem um caótico e fascinante sistema de apoio mútuo baseado no mito da “Roda Cigana”. A ajuda material é livremente oferecida para outros viajantes com a ideia que vai retornar para o indivíduo em algum momento no futuro, quando for necessária. Apoio mútuo é dado livremente aos que pedem, somente na estrada (tradicionalmente um espaço liminar). Essa forma de apoio mútuo depende de uma complexa e sempre mutante constelação de sinais que acontecem naturalmente, que pessoas de fora consideram superstições bobas. Como esses presságios aparecem aleatoriamente, nenhum indivíduo consegue os manipular conscientemente. Observadores externos apenas começaram a ver isso como uma estratégia fundamental que as pessoas Rom têm usado contra sociedades que desejam assimilá-los ou destruí-los. Essa abordagem não-linear à princípio pode parecer aleatória demais para funcionar para toda uma sociedade, mas ela tem se mantido como um dos pilares da cultura Rom. Nossas próprias interações e generosidade com estranhos hoje comumente nos trazem benefícios inesperados maiores que qualquer medida quantitativa, e sempre na hora certa.

Outro exemplo, de uma comunidade bem maior em uma outra época: por mais de mil anos o império chinês consultava um “Ministério da Estranheza” para conselhos quando os planos imperiais falhavam ou produziam resultados inesperados. Tradicionalmente o Ministério da Estranheza era mantido ignorante sobre os planos originais. O ministério então consultava o I-Ching (aleatoriamente jogando gravetos de mil-folhas) para criar novos planos. Essa prática efetiva foi interrompida quando o conquistador orientado pela ciência Genghis Khan tomou o poder. Ironicamente Kublai Khan reintroduziu e expandiu o Ministério da Estranheza. Invés de servilmente replicar modelos e projetos que não dão resultados, nós devemos ter medo de tentar esquemas absurdos e ainda não testados.

No ramo especificamente revolucionário, o caos é uma ferramenta que pode derrubar mesmo o mais poderoso dos gigantes. Sabotadores sabem que os itens mais simples (por ex: um tamanco de madeira) podem ser usados para causar disrupção no mais eficiente e complicado dos sistemas. Na verdade, quanto mais complexo um sistema é, mais fácil é sabotá-lo. O equivalente econômico da vulnerabilidade do Estado é que conforme Capitalistas se tornam mais e mais dependentes de tecnologias e burocracias, eles aumentam sua vulnerabilidade a formas caóticas de resistência como o hacking.

Vamos reconhecer o caos como uma parte importante da mudança política e social. Nós podemos integrá-lo como um fator em nossas vidas cotidianas. Caos é a carta selvagem que permite que uma pequena comunidade como a nossa tenha um impacto muito maior do que o esperado por especialistas. De fato, grupos maiores tendem a ter mais inércia e raramente tomam vantagem das marés do mundo. Desde que não estejamos amarrados em táticas rígidas e modelos frágeis, seremos capazes de nos adaptar em ambientes em constante mudança. Com uma dose saudável de desconfiança dos vanguardistas e especialistas que têm a visão, plataforma ou política certa para a mudança, nós sempre podemos manter nossos olhos abertos para as inesperadas possibilidades do caos.

O que é Solarpunk ?

Tradução da fala do pensador anarquista youtuber, Saint Andrew .

O vídeo original pode ser encontrado no final da publicação.

Introdução

Solarpunk é tudo que envolve a imaginação positiva do nosso futuro coletivo e a sua criação. Seu nome deriva do gênero cyberpunk, e de todos os outros punks que vieram dele.

Existe o steampunk, que tem como foco a Revolução Industrial e tecnologias movidas a vapor. É um dos mais populares depois do cyberpunk. Existe o dieselpunk, que foca nas criações do período do entreguerras. Existe o atompunk, que foca na energia atômica. Steelpunk, focado em objetos do fim do século 20. Stonepunk, que é do neolítico. Existe até mesmo o nowpunk, que se passa… nos dias de hoje. Solarpunk é uma visão positiva de um futuro possível, baseada no nosso mundo, que enfatiza a necessidade da sustentabilidade ambiental, auto determinação, e justiça social. É um movimento dedicado a fins humano-cêntricos e eco-cêntricos. Ele olha para além das limitações do capitalismo e para além da atual divisão entre a humanidade e a natureza. É um futurismo que foca no que devemos esperançar mais do que o que devemos evitar.

Solarpunk reconhece que as mudanças climáticas, as consequências de séculos de danos, não foram totalmente evitadas no futuro. Ainda assim, ele nos tras esperança. Um futuro onde temos muito trabalho a ser feito, mas onde estamos nos saindo melhor. Onde estamos usando tecnologias para fins melhores. Como drones carregando bombas de sementes e fornos solares. Solarpunk enfatiza aplicações no mundo real. É tudo sobre o que podemos fazer aqui e agora, de projetos de faça você mesmo a organizações maiores. Solarpunk também é bastante estético, como você deve ter percebido. Ele usa muitos elementos da natureza e tem a art noveau como inspiração, upcycling, e estilos de design e movimentos artísticos asiáticos e africanos.

Nota: Deixe eu falar rapidinho sobre o que solarpunk não é. Não é sobre colocar flores e árvores em prédios de concreto ou arranhacéus de aço com um pouquinho de grama. Isso é greenwashing, que é ter a aparência de sustentabilidade, mas na realidade ser prejudicial ao meio ambiente. Muita água é usada na manutenção desses prédios “verdes” e eles geralmente não são construídos com materiais sustentáveis ou duráveis. Não seja tapeado.

No curto tempo desde que foi concebido, solarpunk encontrou seu lugar na mídia contemporânea. É um gênero literário que vem sendo retroativamente dado a diferentes coisas, desde que o termo ficou realmente popular em 2014. Solarpunk, por exemplo, inclui filmes como Princesa Mononoke de Miyazaki, ou literatura, como The Fifth Sacred Thing de Starhawk.

Cyberpunk pode ser sombrio e deprimente, explorando um mundo onde o poder darscorporações não encontra limites, mas o solarpunk rejeita isso inteiramente. Ele enfatiza a vida coletiva e a realização tanto da natureza quanto da humanidade em uma relação mutuamente benéfica.

Uma Breve História do Solarpunk

Por volta de 2008 um blog chamado Republic of the Bees publicou, “From Steampunk to Solarpunk”, onde conceituava solarpunk como um gênero literário inspirado pelo steampunk. Houveram alguns artigos e um ou dois outros textos, mas o que ganhou mais popularidade foi o post no tumblr Miss Olivia Louise em 2014, estabelecendo algumas das estéticas do solarpunk. Quote:


“Um mundo no qual crianças crescem sendo ensinadas sobre como construir eletrônicos tão bem quanto manejar hortas e outras habilidades, e as pessoas voltaram a apreciar artesanatos e artesãs, de pedreiros e ferreiros, a costureiros e ourives.”

O post dela depois serviu de referência para Adam Flynn, em seu Notes Towards a Manifesto no fim de 2014. Ele descreve a dificuldade de ser um futurista com menos de 30, observando o mundo mergulhar rumo ao cyberpunk, com a sempre presente ameaça existencial das mudanças climáticas. Solarpunk para ele, é a única alternativa contra a negação ou o desespero. Ele rejeita a abordagem individualista e insustentável de alguns futuristas, que se recusam a considerar o limite de energia da Terra. Solarpunk é sobre “inventividade, pedagogia, independência e comunidade”. Leva o sufixo punk pois se opõe ao nosso mundo como ele existe hoje. Ele cria resiliência local, dos telhados com painéis solares a jardinagem de guerrilha, as autoridades que se fodam. E finalmente, um grupo chamado The Solarpunk Community publicou Un Manifiesto Solarpunk em 2019. É um artigo curto, escrito em espanhol, que basicamente reitera algumas das ideias anteriores, em mais detalhes.

Sobre meu relacionamento com solapunk, eu estou nessa há bastante tempo. Não consigo lembrar exatamente quando ouvi sobre pela primeira vez, mas provavelmente foi no Tumblr. Também foi no Tumblr onde eu fui introduzido aos conceitos básicos de políticas progressistas e revolucionárias.

Política & Arte Solarpunk

Por mais que solarpunk nunca tenha se ligado a uma ideologia política específica, ele foi abraçado por políticas liberatórias de todos os tipos. De ecologistas sociais a anarquistas pós civ, a socialistas verdes. A filosofia do solarpunk e as políticas do anarquismo são particularmente feitas uma para a outra. O anarquismo enfatiza liberdade pessoal e libertação coletiva de hierarquias, autoritarismo, e exploração. Ele busca, como projeto contínuo, posse comum, cooperação voluntária, organização horizontal, e apoio mútuo. O anarquismo tem estado a frente de seu tempo em várias questões políticas, da libertação feminina e queer, e sua abordagem com relação a ecologia não tem sido diferente.

Solarpunk pode ser facilmente sintetizado com o anarquismo, e com muitas de suas várias vertentes conforme ele explora as possibilidades de tecnologias liberatórias, a localização da produção, um fim para o consumo destrutivo e cheio de desperdícios, e uma reorientação da nossa relação com o trabalho, a natureza e nós mesmos.


Tudo isso soa muito bonito e inalcançável. Mas eu quero falar para aqueles que perderam a esperança em um mundo melhor. Que estão paralisados pensando que onde estamos hoje, é o melhor que nós podemos fazer. Existe essa ideia na política contemporânea que imaginação não tem lugar no nosso mundo “pragmático”. O que é simplesmente falso. Humanos são criaturas flexíveis, capazes de um imenso espectro de estruturas sociais. Se todos limitassem a si mesmos aos limites do que está dado, nós não estaríamos aqui hoje. É hora de dar alguns passos adiante, com táticas variadas em mãos.

Uma delas é a arte. Arte tem uma influência tremenda em nós. Música, livros, pinturas, programas de televisão, filmes, etc, eles moldam nossas ideias do que a humanidade pode ser. Ainda não temos grandes exemplos de arte e entretenimento solarpunk, acredito que nós podemos mudar isso. Existem histórias interessantes há serem exploradas e debates a serem feitos através da arte. Imagine uma livro que explore os diferentes lados e dimensões do debate do consumo da carne em um mundo solarpunk ou um gibi que segue a jornada de uma comunidade que busca repovoar e ressuscitar a ecologia ao seu redor.

Ou imagine isso. Talvez ao junto com um jogo que imagina um final horrendo que mantém o capitalismo, como Cyberpunk 2077, nós imaginemos um jogo inspirador, ainda que desafiador que exercite nossa habilidade de balancear as necessidades do nosso ecossistema e lide com decisões difíceis, e conflitos que surgem conforme nós reorientamos nosso lugar no mundo. Pode chamar de Solarpunk 2033 ou algo assim. Essa é uma ideia grátis.

Conclusão

Existem inúmeras maneiras de incorporar solarpunk em sua vida e em seus coletivos. É bastante compatível com prefiguração. Solarpunk é realmente algo que você pode criar no mundo real e praticar, e espalhar. Solarpunks podem ajudar a criar o futuro que eles querem de várias maneiras, do faça você mesmo básico de workshops de cultura maker a criação e expanção de maneiras ecológicas de se viver e autonomia local em nossas cidades. Solarpunk é uma peça importante em um mosáico de possibilidades que centram a adaptabilidade humana e a proteção da natureza, que nosso mundo atual está organizado para destruir, mas que nosso mundo futuro deve priorizar.

“Solarpunk é um futuro com um rosto humano e sujeira atrás das orelhas.”

Psicologia do Colapso

Texto original disponível na Anarchist Library.

Saint Andrew, Jan 20, 2021

Introdução

Honestamente, tem sido exaustivo lidar com o mundo e tudo que vem acontecendo. Tento relaxar com regularidade, mas não é como se eu pudesse ignorar o fato de que tudo está desmoronando. Não posso mentir pra mim mesmo e dizer “Tá tudo bem”, quando a verdade é que, nada está bem.

E eu não estou sozinho. Meus pares e camaradas todos estão lidando com sentimentos parecidos, de exaustão e desesperança com relação ao mundo e ao futuro. Isso me botou pra pensar, e pesquisar, sobre como as pessoas estão lidando com esses tempos tão estressantes, como têm respondido, e como podemos lidar com tudo isso. Eu usei fontes variadas, assim como trouxe minhas próprias experiências, para criar uma espécie de teoria self sobre como eu e meus camaradas humanos temos lidado com esse… colapso.

Não acredito que preciso me aprofundar muito pra definir o que chamo de colapso. Estou me referindo a degradação da sociedade através dos mercados e Estados, a destruição dos nossos ambientes naturais, e a devastação de nosso potencial humano. A consequência final de todas os problemas interdependentes que assolam nossa vida moderna. A aceleração dos processos que irão levar ao fim do mundo como NÓS conhecemos.

Vamos olhar para os estágios de percepção individuais, e como as pessoas têm respondido ao que enfrentamos. E se possível, encontrar alguma resposta de como podemos fazer para arrancar a nós e outros da apatia. Vou dividir esse ensaio em duas seções, para manter as ideias organizadas e compreensíveis: Primeiro, estágios de Percepção, que eu retirei majoritariamente do Climbing The Ladder of Awareness de Paul Chefurka. Vou usar o Morty como exemplo para nos localizarmos nos estágios. Depois disso, vamos olhar às respostas que surgem para o colapso, uma vez que as pessoas o percebem.

Estágios de Percepção

Estágio 01 – Sono Profundo

Nessa fase, Morty tá só curtindo. Claro, ele consegue ver que existem alguns problemas no mundo, aqui e acolá, mas nada que não possa ser consertado, né ? Tudo que precisamos fazer é nos organizarmos melhor, mudar um pouco nosso comportamento, e reformar algumas leis, aí vai ficar tudo bem. Certo… ? Certo ?

Estágio 02 – Percepção de um Problema Fundamental

Ok, parece que não é tudo preto no branco. Morty acabou de ficar sabendo da existência do racismo estrutural, ou imperialismo, ou pesca predatóia ou a morte das tartarugas marinhas ou poluição por plástico ou das grandes mineradoras. Ele tá apavorado. Ele está em pânico e se mobilizando, ou ao menos discutindo o problema. Ele está tentando chamar a atenção das pessoas. Assim elas vão saber, “EI, TEM UMA PARADA ERRADA! VAMOS CONSERTAR ISSO!” Esse problema parece consumi-lo totalmente. Ele continua aprendendo. E então…

Estágio 03 – Percepção de Muitos Problemas

Quanto mais Morty aprende, mais ele se preocupa. Ele consome todo tipo de informação, e começa a perceber quão complexos e multifacetados são os problemas do mundo. Agora ele sente dificuldade até de priorizar qual questão precisa ser solucionada primeiro. De fato, ele está tão sobrecarregado que talvez até se torne relutante em reconhecer novos problemas. Por exemplo, se Morty tomou conhecimento sobre e está lutando contra a mudança climática, ele pode relutar em reconhecer a opressão que indígenas sofrem e o racismo ambiental. Ele sente que, “Aw geez Rick, eu já tô lidando com um monte de coisa, sabe ? Eu não quero me distrair com tantas coisas!”. Ainda assim, Morty não vai poder ignorar os outros problemas para sempre. A menos que ele queira ficar correndo em círculos.

Estágio 04 – Percepção da Interconexão Entre Muitos Problemas

O coitado do Morty começa a entender que não existe solução que não traga novos problemas. A desativação de fábricas pode deixar milhões sem emprego e deixar centenas de milhões sem uma refeição completa. Nossos esforços de aumentar a qualidade de vida geral nos países desenvolvidos através da industrialização está apenas acelerando a destruição da Terra e o enriquecendo uns poucos. De certa forma, Morty começou a… Ascender. Talvez não exista apenas uma solução ? Talvez as consequências dessas soluções sejam um fardo pesado de mais ? A essa altura Morty se recolheu para discutir essas questões com indivíduos que pensem de forma parecida, como pequenas rodas de conversa, assim eles podem explorar os problemas com maior profundidade.

Estágio 05 – Percepção de que a Crise Engloba Todos Aspectos da Vida

Morty está mais que ciente agora. Ele deve até sentir falta da ignorância, confome percebe que essa série de problemas, ou melhor, essa Crise COM C MAIÚSCULO engloba tudo, incluindo tudo que fazemos, como fazemos o que fazermos, como nos relacionamos, e como afetamos todo o planeta. A Crise é tão imensa, ele percebe, que pode não existir Resposta COM R MAIÚSCULO para essa Crise COM C MAIÚSCULO… Sem uma resposta fácil, sem saída rápida, ele não consegue fazer isso sozinho. E agora ?

Chefurka acreditava que cada estágio contém aproximadamente um décimo do número de pessoas do estágio anterior. Por exemplo, 90% da humanidade deve estar no Estágio 1 mas apenas dez mil pessoas devem estar no estágio 5. Eu não encontrei nenhuma evidência disso, e pessoalmente, discordo. Ele deixa nítido que isso é uma observação pessoal, então tire suas próprias conclusões.

Agora vamos ver as diferentes respostas que as pessoas dão ao colapso, novamente considerando minhas pesquisas e experiências pessoais.

Respostas ao Colapso

Sono Profundo

Eu diria que boa parte das pessoas estão nessa categoria. Pode ser que elas tenham começado a entender o que está acontecendo e só resolveram seguir dormindo. Para conscientemente seguir na ignorância, e evitar qualquer entendimento do que acontece. Talvez eles estejam protegendo sua frágil sanidade mental, o que é compreensível. Mas, não precisamos encarar esses problemas, pois eles não está indo a lugar algum. O que nós precisamos é de coragem.

Negação

Quando as pessoas encaram a realidade, e a rejeitam, para construir sua própria versão. Ou quando elas buscam por informações, não pela verdade, mas para que as conforte. Elas constroem uma bolha midiática que as protege, ou um círculo social que pode protege-las e reafirmar suas crenças. Todos são capazes de rejeitar a realidade, mas é algo que se tornou bastante prevalente na era da informação, onde podemos facilmente evitar qualquer verdade que nos deixe desconfortáveis, como, por exemplo, a derrota em uma eleição ou a realidade da mudança climática causada por ação humana.

Apatia

Para essas pessoas, não faz diferença pra qual direção o vento sopra. Sem motivação. Sem sentimentos. Entregues ao cinza absoluto. Assim como Sono Profundo e na Negação, as pessoas respondem com apatia para de algum modo, se protegerem. Afinal, se nada importa, não há motivo para mudar nada. Sem necessidade de pensar. Sendo constantemente bombardeado pela mídia, é mais fácil apenas se desconectar. Se recolher na própria concha, ou

Preocupação


Isso é mais culpa do nossos sistema, as pessoas hoje em dia estão realmente ocupadas. Nem todo mundo pode se dedicar a explorar e entender os problemas do mundo, mesmo que a ameaça seja tão existencial que suas infinitas tarefas no escritório ou sua escravidão no varejo possa ser reduzida a nada. Mas não estou falando dessas pessoas. Estou falando das que respondem distraindo a si mesmas dos problemas do mundo, se enterrando em trabalho, construindo uma desculpa conveniente para não desafiar as estruturas de privilégios sob as quais estão, ou sustentam. Esses, estão fugindo da Crise. Mas a Crise chega pra todos nós, cedo ou tarde.

Hedonismo

Em oposição aos que se mantém ocupados com trabalho estão os que mergulham em consumismo cego. O que pode se conectar com a Apatia até certo nível. Se nada importa e tudo está desmoronando, você pode muito bem simplesmente… consumir. Se satisfazer. Distrair a si mesmo com jogos, música, festas, drogas, e bebidas. É como o Sono Profundo, exceto que você está ciente da realidade e está conscientemente tapando os ouvidos. Ao menos, os que tapam seus ouvidos não precisam encarar a…

Sobrecarga

A Crise que é o colapso, é bastante complexa e multifacetada. Algumas pessoas respondem tentando compreender todas essas facetas e acabam perdendo o contato com a realidade. Não existe mente humana capaz de consumir e compreender cada detalhe dos problemas que nós enfrentamos. É por isso que somos uma espécie social. Nós devemos trabalhar juntos para compreender o colapso. Como indivíduos, pode ser difícil interagir com algo tão complexo, abstrato, distante, e assustador. Nós vamos precisar nos unir, não nos submetermos a um tipo de auto-tortura via isolamento mental das ameaças a existência humana.

Esperança Cega

Muitos de nós caem nessa armadilha, quase que naturalmente. Humanos são biologicamente predispostos ao otimismo, a atitude ou crença que uma empreitada ou resultado específico será positivo e desejável. Nós tendemos a ter esperança em um resultado futuro que simplesmente… Vai dar certo. Por isso eu digo que é cega. Ela não consegue se adequar às mudanças constantes da realidade. Não é apenas ver o mundo “por lentes cor-de-rosa”, e praticamente um headset de realidade virtual. ..

Nós perdemos nossa habilidade de ver nitidamente e de tomar ações realistas e necessárias. Nós abrimos mão de nossa agência e deixamos as coisas nas mãos de líderes e especialistas. Nós permanecemos… Passivos. Nós perdemos tempo, tempo precioso que poderia ser investido em redução de dano real. Com esperança cega deixamos de ter conversas necessárias quando nos fixamos tanto sobre SE podemos, COMO podemos consertar o mundo, sem considerar o que precisamos fazer se não pudermos consertar esse mundo. O que acontece então?

Fé Cega inevitavelmente leva a frustração. Esperar para sempre por um futuro que não vai vir. Que existe apenas na sua mente, alheio a realidade. É, em suma, um tipo de negação, mas é um tipo progressista de negação. É preciso uma certa jornada para se deslocar para para um nível mais alto de maturidade emocional. Mas uma vez que nós nos livremos das falsas esperanças, como a ideia de que de alguma forma vamos reverter os danos que foram feitos ao planeta, e sairmos ilesos. Bem, à partir daí nós podemos fortalecer nossa vontade e nos preparamos para o que já está em curso. Para agir com o conhecimento que, não, nossos líderes não vão fazer nada relevante o suficiente, e o que precisamos vai muito além de quaisquer reformas. É algo duro de se encarar, mas se você conseguir, estará numa posição melhor para resistir. Nós não precisamos de fé cega.

Mudança Individual

Essas são as pessoas com fé cega, mas com umas poucas diferenças aqui e ali, pra elas, nós podemos continuar nosso crescimento infinito, sem problemas. Tudo que temos que fazer é virarmos veganos, reciclar, deixar o carro na garagem e pegar carona uma vez ou outra, pra que os males do mundo sumam. Eles tem fé, e culpam apenas os indivíduos, ignorando as estruturas da nossa sociedade.

Culto ao Progresso

Nossa visão atual sobre o progresso é quase religiosa. Como se todo e qualquer progresso fosse bom. Como se não importasse as consequências na nossa Terra finita, e nós pudéssemos apenas expandir e expandir. Eternamente. Pessoas que cultuam o progresso confiam cegamente em gente como Elon Musk e outros supostos gênios da tecnologia, pra simplesmente… resolverem todos nossos problemas como sociedade. Eles possuem um nível absurdo de tecno-otimismo, acreditando que com um pouco de inovação, nós podemos resolver qualquer problema do planeta, sem levarem em conta os riscos e consequências da tecnologia, atual ou futura. Eles tendem a cair na armadilha do Realismo Capitalista, perdendo qualquer senso de alternativas que não estejam dentro da atual ordem social, destrutiva social e economicamente. Eles também tendem a se sentir privilegiados pelos estado atual das coisas, ou no mínimo confortáveis o suficiente para não querer o ameaçar.

Culto ao Líder
Existem muitas pessoas que simplesmente têm uma fé inabalável em nossos líderes. Que acreditam que, uma vez que a gente coloque a pessoa certa no cargo, as coisas vão funcionar. Mas como Michael Jackson disse, eles não se importam com a gente. A verdade é que, o sistema corrompe mesmo as melhores intenções. Políticos são em si uma classe, e suas ações refletem, em essêcia, seus prórios interesses.

Estados nação, governos, líderes… É parte do trabalho deles manter estruturas que prejudicam a humanidade. Não há muito que eles possam fazer para afetar os status quo. Deixar nossa salvação nas mãos deles é um exercício de futilidade. Investir seu futuro no eleitoralismo é um desperdício. Mas também demonstra quão efetivamente o sistema de ensino e as mídias de massa destruíram e limitaram nossa imaginação. Você pode chamar isso de Realismo Estatista… a ideia que não existe alternativa há hierarquia dos governantes e governados. Que as pessoas precisam apenas ser submetidas a vontades e caprichos de outros, ao invés de se organizarem, através de consenso democrático, por elas mesmas e por suas comunidades.

Culto ao Apocalipse

Isso vai parecer um pouco esquisito, mas os que aguardam ansiosamente o apocalipse também estão demonstrando um tipo de fé cega. Aceleracionistas, preppers do fim do mundo, cultistas, sobrevivencialistas extremos, fãs de videogame de zumbis, ou os que crêem no Fim dos Tempos (pensa nas Gandes Atribulações, o Arrebatamento, e outras crenças fundamentalistas). Parece que existem um monte de gente quase… Empolgada pelo apocalipse ? Ou realmente aficcionados com suas projeções de um fim do mundo ideal. É como se, eles não aguentassem mais esperar pelo fim do mundo. Seja pra que Jesus possa finalmente voltar para a Terra, ou para os pecadores poderem ser purificados ou eles possam finalmente ser vindicados aos olhos daqueles que menosprezaram seus bunker do fim do mundo.

Sinceramente, pessoas que reagem dessa maneira me dão calafrios. Quem olha pra tudo que está acontecendo e… invés de resistir ou tentar mudar as circunstâncias, apenas aceita como se estivesse tudo indo de acordo com o plano/profecia… ou tentan tornar as coisa piores. Por exemplo, você já parou pra pensar por que tantos evangélicos apoiam o estado de Israel, e fazem um lobby tão pesado em apoio, apesar da brutal violência com que tratam os palestinos ? É por que de acordo com a ideologia que seguem, o povo judeu precisa voltar para Israel, pra que Jesus posso retornar, e os palestinos que se danem. Literalmente.

Desespero

Essas são as pessoas que tendem a ficar sentadas lamentando nosso destino. Eles provavelmente falam igual o Bisonho também. Elas são pior que as apáticas, por que elas fazem peso nos nossos esforços com seu pessimismo. Elas só enxergam o pior, só esperam o pior, e vivem em absoluta derrota. De acordo com os em desespero, nada que fizermos tem poder de afetar nosso futuro. Honestamente o pessoal da doomer pill estão desnoreados com alguém que se encheu de ópio.

E Existe uma Saída ?

Como dito antes, nós não precisamos de fé cega. Também fica nítido, que não precisamos de desespero. Essa é uma dicotomia completamente falsa. E como respondemos a essa Crise ?

Precisamos de sobriedade. Clareza. Lucidez. Existem mais duas respostas. Paul Chefurka aponta em seu artigo que aqueles no Estágio 5 de Percepção, que veem que a Crise Engloba Todos Aspectos da Vida, olham pra um desses caminhos. Existe um terceiro, a rejeição dos dois caminhos, mas pra essas pessoas, ele recomenda aconselhamento profissional.

Os Dois Caminhos

O Caminho Interno: Auto-Cura

Para alguns, o caminho interno parace o mais viável. É uma manifestação daquela fresa falasamente atribuída a Gandhi: Seja a mudança que você quer ver no mundo. É um caminho profundo e pessoal, olhar o colapso e se voltar para dentro de si para desenvolver seu autoconhecimento. Para curar o mundo, primeiro cure a si mesmo, é um velho clichê espiritualista, mas ainda carrega alguma verdade.

Algumas pessoas acreditam que isso significa algum tido de pensamento hiper individualista, mas se você fizer um esforço, consegue enxergar isso por outra perspectiva. Não quer dizer se tornar um monge ou um asceta. Não sognifica negar sistemas ou ignorar verdades doloridas. É sobre considerar a gravidade do que estamos lidando. Um prblema de escala monumental, e enquadra-lo em um contexto pessoal. Usando suas ideias para se comunicarem e se modificarem com as ideias de outros. É assim que eu vejo ao menos. Mas eu também não vejo esse caminho como satisfatório pra mim. O que me move é…

O Caminho Exterior: Realismo Equilibrado
Realismos equilibrado é, bem, difícil de se equilibrar. Muitas pessoas confundem realismo com pessimismo. Pessoas amargas que pensam que realismo é quando tudo vai mal. Ignore elas. Felizmente, tomar o caminho do realismo equilibrado significa se livrar do fardo e das vendas do pessimismo e do otimismo. Afastando o alarmismo, o negacionismo, fatalismo, hedonismo, e tudo que nos atrapalha. Libertando você de seus medo e esperanças. Aqueles que andam pelo caminho exterior reconhecem e aceitam qualquer número possível de resultados. Frente a tamanha Crise, mater o realismo é difícl, mas necessário. Você faz agitação pensando no melhor, e se prepara para o pior.

No caminho exterior você se livra da ingenuidade e da passividade. Você está se movendo. Agindo. Fazendo. Adaptando. Pernse nos movimentos de permacultura, Rojava, Transition Network, Resilience.org, Post Carbon Institute, Cooperations Jackson, e todos os outros projetos e movimentos, perceba que nenhum deles é perfeito, nenhum vai salvar o mundo sozinho, mas estão olahndo para seus próprios locais e fazendo diferença. Pare de perder tempo com partidos políticos, estamos agindo agora mesmo. Realistas do caminho exterior estão construíndo comunidade, construíndo sustentabilidade. Bravo.

Conclusão

Você reconhece esses estágios de percepção e essas respostas ? Em você e nas pessoas ao seu redor ? Como eu sempre digo, nós precisamos uns dos outros, então, entre em contato se você perceber que alguém não está bem e tem andado por um caminho negativo. Eu vou deixar alguns materiais para quem tem se movido na direção do Realismo Equilibrado, para quem busca o caminho exterior e mais informações e apoio. Para os que escolhem o caminho interior para auto-cura, não tenho tantos materiais, então por favor, compartilhem nos comentários. Vamos manter esse diálogo vivo. Todos vocês, se cuidem.

Paz.

Materiais & Referências:

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https://usa.anarchistlibraries.net/li…

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https://anarchy.works

Além do dever e do prazer

[tradução do capítulo 07 do livro Anarchy in the Age of Dinosaurs, por Curious George Brigade]

Muitas amizades, coletivos e projetos afundaram desnecessariamente por desavenças sobre quais motivos nos levaram ao trabalho político. Essas divisões sobre nossas motivações fundamentais ameaçam mesmo os projetos ou coletivos mais idelogiamente “puros”. Esse obstáculo é insidioso e destrutivo que o sectarianismo do Green vs Red Scare ou a divisão anterior sobre Pacifismo vs Ação Direta. Eles também têm a infeliz habilidade de destruir amizades e deixar as pessoas se perguntando oquê deu errado. Apesar dos aspectos perenes e perniciosos das motivações destes conflitos, muito pouco tem sido escrito sobre a questão, de uma perpectiva anarquista.

Então, o que exatamente é esta ameça implícita ao trabalho coletivo ? A resposta pode ser encotrada nas motivações básicas que levam as pessoas a participarem de projetos. Como todos sabemos, muito do trabalho que fazemos não tem glamour e demanda muita energia e recursos. Não é raro que nossas ações falhem em alcançar nossas nobres expectativas e as vezes podem nos por grave perigo. Exaustão é um problema incrivelmente comum entre ativistas que puseram enormes quantidades de tempo e energia em seus projetos. Por conta dessas armadilhas, compreender as motivações das pessoas com as quais escolhemos trabalhar é tão importante quanto conhecer os posicionamentos políticos delas. Projetar suas próprias motivações sobre outros em um coletivo é uma receita certa para o desastre e o ressentimento.

Tradicionalemnte, existem duas vertentes principais de motivações (ou o que são compreendidas como motivações) nas políticas anarquistas. Dever e Prazer. Como qualquer dualidade, é fácil cair na armadilha de rótulos simplistas de preto no branco, ignorando os mais realistas nuances de cinza. Ao invés disso, pense nessas duas motivações como os pontos finais de um continuum, iluminando tudo entre os dois pontos.

Motivações não podem ser separadas das expectativas. Nos sentimos movidos a participar de projetos específicos por que nós temos expectativas positivas com relação ao nosso compromisso.

Expectativas que não são compartilhadas ou mesmo expressas coletivamente, podem acabar prejudicando a tomada de decisão sobre os rumos dos projetos. Como a satisfação das nossas expectativas é a principal forma que usamos para avaliar a eficácia de qualquer trabalho ou projeto, diferentes expectativas irão resultar em diferentes avaliações. Essas diferenças podem acabar com a habilidade de um coletivo de aprender com os erros do passado, uma vez que diferentes réguas estão sendo usadas. Assim como Dever e Prazer são motivações inerentemente diferentes, as expectativas também serão divergentes, o que por sua vez levam a evaliações conflitantes e análises do que seria o sucesso de um projeto ou coletivo.

Orientações motivacionais fundamentais, como Dever e Prazer, são mais persistentes que outras desavenças políticas porque muitas vezes são o resultado de traços básicos de personalidade. Motivações que residem no subconsciente ou no inconsciente são resistentes a maioria dos argumentos intelectuais, precedentes históricos, manipulações lógicas, e outros mecanismos conscientes. Em resumo, o que nos motiva a participar de certos projetos não pode ser explicado intelectualmente. Esses traços motivacionais conflitantes são potencialmente o elemento mais divisivo que encontramos em nosso trabalho coletivo diário. Para encontrar nosso caminho para fora desse campo minado da psicologia motivacional, nós precisamos entender como esses dois tipos polarizantes manifestam a si mesmos e buscar por novas formas de agir para ambos se complementarem.

Dever tem sido um motivo tradicional para projetos radicais; até recentemente, era a tendência predominante nas comunidades anarquistas. Isso sem dúvidas é por causa da nossa trágica história. As lutas anarquistas, em sua maioria, têm sido uma série de derrotas amargas, repressões e ostracismos. Então o que motivou camaradas a trabalharem de forma tão dura e altruísta em tantos períodos sombrios? A resposta parece ser um forte senso de Dever, baseado em um elevado senso de justiça, combinado com a crença em um mundo melhor. O modelo do Dever criou um culto de mártires, aqueles que deram tudo pela Causa. Os que trabalham dentro do modelo do Dever esperam que o trabalho seja duro e não reconhecido mas ainda sentem que ele deve ser feito. Anarquistas motivados pelo Dever não se preocupam se seu trabalho é prazeroso ou gratificante. Trabalho político dirigido pelo Dever tendem a ser caracterizados por reuniões sem fim, conflito, trabalhos de merda, e longas horas. O comprometimento da pessoa é medido por uma simples fórmula de hora-trabalho dedicadas a desagradáveis tarefas para as quais se voluntariou. Sacrifício se torna um ideal constante e reificado pelo anarquista motivado pelo Dever. Devido à quantidade de energia e trabalho insatisfatório, existe uma profunda preocupação sobre a longevidade dos projetos e avaliações sobre a sua eficácia na promoção da causa. O Dever tende a por ênfase em manter projetos. É comum que uma quantidade considerável de energia seja usada para manter projetos que talvez já tenham perdido sua função original ou que nunca acalçaram seu potencial.

As expectativas dos que trabalham num modelo de Dever tendem a ser externalizadas. A avaliação de sucesso e falha é baseada em fatores externos. Esses fatores normalmente incluem exposição midiática, impacto na comunidade, recrutamento, levantamento de verbas ou longevidade. Muitas dessas expectativas são facilmente quantificáveis e por isso análises empíricas são a principal forma de avaliação. Essa ênfase em quantidade e empiricismo leva a um desejo de aumentar os resultados quantificáveis. A abordagem do Dever é similar (em motivações, expactativas, e avaliações) a tendências históricas e atuais da Esquerda.

Prazer é uma força opositora relativamente nova no anarquismo, embora nós sempre tenhamos dado importância, ao menos da boca pra fora, ao Prazer no pensamento anarquista. Isso é exemplificado pela famosa frase de Emma Goldman “Se não posso dançar, não é minha revolução.” O mais novo modelo do Prazer no anarquismo vem das culturas punk, pagã e viajante do fim dos anos 1980 e é uma herança direta dos hippies e da Nova Esquerda dos anos 1960. Suas motivações são baseadas no princípio da satisfação. O Prazer busca transformar o trabalho político em brincadeira. Ele rejeita os clichês de sacrifício e martírio da velha Esquerda e os substitui com carnaval e metáforas festivas. O Prazer avalia o trabalho político não em horas de trabalho ou sacrifício, mas em quão excitante e empoderador um projeto pode vir a ser pessoal e coletivamente. Dada a necessidade do ativismo ser excitante e empoderador, projetos motivados pelo Prazer geralmente são temporários, se desfazendo logo depois da empolgação inicial diminuir. Eles geralmente não levam em consideração o impacto a longo prazo dos projetos em suas comunidades. Anarquistas motivados pelo Prazer também tendem a ser mais céticos com os projetos históricos que anarquistas movidos pelo Dever reverenciam.

Assim como o Dever, ativistas motivados pelo Prazer têm expectativas moldadas por suas motivações. As expectativas do trabalho tendem a ser internalizadas. É dada importância para experiências subjetivas e foco em mudanças qualitativas em opsição a medidas quantitativas. As expectativas geralmente incuem diversão, capacitação dos participantes, conscientização, empolgação, criatividade, e novidade. Projetos que falhem em alcançar essas medidas qualitativas são vistos como insuficientes e os que alcançarem ao menos alguns desses objetivos, como sucessos, independente de qualquer impacto exterior. A ênfase nas necessidades individuais, experências subjetivas, e no empoderamento são mais típicas em certas vertentes de hippies hedonistas e subculturas punk do que da Esquerda tradicional.

Uma vez que poucos projetos se enquadram perfeitamente nos moldes do Prazer e do Dever, especialmente no início, estas personalidades se encontram trabalhando em conjunto. A princípio, isso pode levar a uma tensão e subsquentemente ao ressentimento e expulsão. Isso aconteceu tantas vezes nos últimos anos que levou ao debate completamente irrelevante sobre “”Anarquismo Social vs Anarquismo por estilo de Vida”, que falha em produzir qualquer coisa exceto alienar e criar espantalhos de ambas as motivações. Nós entendemos a discussão sobre o Dever e do Prazer pode criar uma divisão semalhante, e esse fosse nosso objetivo, seria hipocrisia. Em vez disso, nós deveríamos tentar compreender todo o espectro das motivações sem buscar criar uma falsa “unidade” nas motivações, ou por outro lado, dar início a mais uma rusga sectária. Buscar Significado nos estilos do Dever e Prazer pode ser comparado com o processo de busca de concenso.

O reflexo imediato dos dois fins do contínuo têm sido atacar um ao outro sem jogar luz sobre as reais diferenças motivacionais que afetam seus níveis compromisso. O que cria mais um caminho que leva a atomização dos anarquistas.

Esse ensaio não é um chamado para que todos se unam; esse objetivo é altamente improvável e nem é necessariamente desejavel. Existem sérias limitações em ambas abordagens motivacionais (claramente apontados pelos dois lados) e por tanto outras abordagens motivacionais são necessárias. Para obter sucesso, uma abordagem nova deve compelmentar as forças tanto do Prazer quando do Dever para maximizar a solidariedade dentro de coletivos trabalhando em projetos anarquistas e minimizar a tensão existente entre pessoas que encarnam um. ou outro estilo.

A boa notícia é que um número considerável de anarquistas trabalhando e engajados em projetos não estão nos extremos do contínuo Dever-Prazer. Nós gostaríamos de sugerir uma abordagem motivacional baseada no Significado. Esperamos que a articulação do Significado não só alivie a tensão que sufoca a maioria dos projetos como também dê fôlego para projetos novos e bem sucedidos.

Motivações baseadas primariamente em Significado sempre foram parte do anarquismo; de fato, Significado tem sido usado tanto pelo campo do Prazer quanto pelo do Dever para justificar suas abordagens enquanto atacam um ao outro. Já que a palavra Significado foi reivindicada pelos dois estilos, é importante explicar oque seria uma motivação baseada em Significado. Erich Fromm descreveu motivações baseadas em Significado como “contendo o meio objetivo [Dever] e o subjetivo [Prazer] de compreensão”. O Significado é determinado ao analisar os efeitos externos e os testar contra os sentimentos internos. Um anarquista motivado pelo Significado busca tanto o impacto pessoal (internalizado) quanto o público (externalizado) de seus esforços.

Projetos vistos a luz de seu Significado podem ser avaliados de maneira mais completa e melhor apreciados por sua perpectiva do que pelas outras duas abordagens limitadas, exatamente por que ele considera os desejos quantitativos quanto qualitativos. Agora nosso esforços podem ser julgados por eixos múltiplos. Não é mais apenas uma simpels questão de quantas horas uma pessoa trabalha mas também a satisfação que ela pode manifestar em sua atividade. Um projeto não precisa ser avaliado somente por quão empolgante e divertido é mas também quão efetivo ele é em atingir seu objetivo. Nenhum lado do contínuo é superior ao outro. Ao invés disso, cultiva-se a harmonia para se criar Significado. A aplicação de ambas expectativas cria uma análise mais rica e com mais nuances. Significado também fornece uma ferramenta útil para decidir quais projetos são válidos de utilizarmos nossos limitados recursos e energias. A abordagem Significativa tem a vantagem de retomar toda a história das lutas e projetos anarquistas vitoriosos. Ele também se torna um meio para camaradas ligados aos extremos do contínuo de trabalharem juntos sem descartarem ou reprimirem suas motivações. Quando nós buscamos Significado nos nossos projetos, nós exigimos a realização completa dos nossos esforços e recursos. Nós não vamos mais nos conformar com qualquer um dos fins do contínuo mas bucar o nexo todo. A ênfase no Significado limita o efeito destrutivo de outro obstáculo perene ao trabalho anarquista: a exaustão. A exaustão surge quando muito do nosso tempo e recursos desperdiçãdos em projetos sem sentido. Na prática, iniciativas significativas criam energia e talentos. Eles dão mais fôlego para continuarmos nossas lutas, alcançando projetos de longo prazo. Projetos baseados no Significado nos dão oportunidades excitantes e novas experiências que satisfazem pessoas de toda parte do espectro Dever-Prazer. Em uma cultura que produz em massa, tanto a expectativa do Dever do trabalho intensivo quanto produtos de hedonismo Prazeroso, o Significado justifica o preço de nosso trabalho, recursos e vida. O capitalismo prospera nos extremos do contínuo do Dever-Prazer criando relacionamentos sem significado que nos dividem em trabalhadores e consumidores. A anarquia oferece uma solução para essa absurda sociedade dualista. Projetos significativos vão se tão importantes para anarquistas experientes quanto para recém chegados. Somente projetos que tentem honestamente balancear tanto necessidades externas quanto necessidades internas podem vão ter qualquer experança de oferecer resistência contínua ao incessante miasma da falta de sentido da cultura de consumo cotidiana. Nem o Dever nem o Prazer podem se desenvolver novas e melhores formas de viver em comunidades de resistência vibrantes. Outro mundo é de fato possível, mas precisa ser significativo.

A Organização que Anarquista vem travando uma Guerra contra a Polícia em Thessaloniki [2021]

Publicado originalmente em seis de dezembro de 2021, por WannabeWonk.

Em Thessaloniki, Grécia, Direct Action Cells (DAC) atacou a residência de oficiais da polícia após declarar guerra a Polícia Helênica [1]. A Organização de Ação Anarquista (OAA), como é conhecida a célula da DAC de Thessaloniki, publicou o nome e endereço de 21 oficiais ativos. Em 21 de Novembro, OAA publicou comunicados assumindo o ataque contra a casa de dois agentes, na manhã de 15 de Novembro, onde se descreve um “ataque explosivo de baixa potência” – os mesmos IID [2] utilizados pela DAC em ações anteriores.

(IDD deixado fora da casa de um policial em Thessaloniki).

O comunicado cita Nikos Sampanalis, o homem de 20 anos, de etnia romani, assassinado pela polícia em 22 de Outubro, após ser perseguido por supostamente dirigir um carro roubado.

(22 de Outubro, após os 22 disparos contra Sampanis)

O ataque veio logo após o mais recente escândalo envolvendo policiais locais, com crimes de abuso sexual e tráfico de pessoas. Em Novembro, um policial de 29 anos foi acusado de abusar de sua filha de quatro anos, meses antes outro policial foi acusado de prostituir sua filha adolescente e mante-la em cárcere privado.

O comunicado cita que em Julho, a OOA publicou o nome e endereços de policiais, os quais chama de “cafetões” e “assassinos uniformizados”, linguagem que aparece novamente no comunicado mais recente:

Em Julho, nós efetuamos um ataque expondo ao público 21 policias gregos […]. Meses atrás, nossos atos encontraram nossas palavras. A História nos mostra, assassinos e torturadores sempre irão sofrer na mão da violência revolucionária, a verdadeira justiça. É por isso que atacamos aos descendentes políticos dos torturadores do golpe, poucas horas após o aniversário da massacre de 73, como um tributo pela memória dos mortos na Politécnica.

Essa última frase se refere ao massacre de dezenas de pessoas durante protestos estudantis contra o Regime dos Coronéis, 17 de Novembro de 1973, que todos os anos é relembrado na Grécia e geralmente termina com conflitos violentos entre a polícia e os revoltosos.

(Danos na estação policial de Nea Iona, após ataque armado)

Curiosamente, por ter começado a mirar diretamente a polícia, no comunicado a OAA cita uma infame ataque armado contra uma estação da polícia em Nea Iona, realizado pela geração anterior de grupos de guerrilhas urbana anarquista, em 2007.

“…Para todos aqueles que defendem a normalidade social e a paz entre as classes, que, em toda revolta social, grande ou pequena, tenta marginalizar a parcela dos mais dinâmicos e politicamente ousados, que para eles são sempre “uma minoria” e “agem contra uma maioria pacifista”, nós devemos lembrar que a história das lutas sociais e de classe é escrita por pessoas determinadas a combater por seus ideias. Por pessoas que, mesmo que poucos em números, conseguem conectar, inspirar e mobilizar muitos mais, que conseguem ditar os termos da luta e criar legados para novos, maiores e mais decisivos esforços.” – Revolutionary Struggle – Ataque armado na estação de Perissos.

Revolutionary Struggle foi formado em 2003 e quase imediatamente pisou nos calos da infame organização terrorista vermelha, 17 de Novembro, após essa ter se desarticulado em 2002.

O comunicado da OAA conclui por reafirmar o chamado para a criação de uma rede de violência revoluocinária, apesar dos riscos cada vez maiores:

… esse conflito será violento, ilegal, militante e radical, sem compaixão por nenhum deles, usando de todos os meios para a punição adequada à tirania.

Camaradas lutadores, nós chamamos pelo seu apoio na prática da guerra revolucionária que travamos. Ergam as ferramentas que desafiam na prática a dominação do inimigo. Crie novos grupos, organizações, células de formação radical e violência revolucionária. Reenergizem o diálogo público unindo nossas resistências militantes e apoio ativo as redes de violência revolucionária que estão travando batalhas com suas forças, grandes e pequenas. Com memória insurgente por cada um dos mortos pelas mãos da polícia e por todo prisioneiro da guerra social e de classe. Nós convidamos você a seguir pelo caminho da guerra. Onde a vida se torna verdadeiramente significativa, encontrando a responsabilidade pelo dever histórico. A tarefa da subversão e da revolução.

(D. Chatzivasileiadis em custódia, Agosto 2021)

O comunicado reitera a indignação dos autores ao assassinato de Sampanis pela polícia, e a morte do imigrante grego que estava sob custódia da polícia Alemã no começo do ano.

No que está se tornando uma onda entre os anarquistas gregos, os autores também mencionam a morte de George Floyd sob a custódia da polícia de Minneapolis, no ano passado, uma comoção pública que foi a centelha para meses de protestos violentos por todos EUA em 2020. No último Outono, o anarquista e até então fugitivo Dimitris Chatzivasileiadis, repetidamente invocou o assassinato de George Floyd em um comunicado ondechamava por uma “semana de vingança” após o antifascista Michael Reinoehl[3] ser assassinado por uma força tarefa da polícia federal dos EUA, em meio os protestos de 2020. Chatzivasileiadis foi preso em Agosto, após meses foragido.

Nós temos o direito à revolta e a sermos determinados. E isso nos basta. Em Pireau seu nome era Nikos Sampanis; em Wuppertal, Gorgos Zantiotis; em Minneapolis, George Floyd. Em tantos outros lugares, ele nem nome tem, é apenas sangue nas mãos dos policias. Em centros de detenção, prisões e hospitais psiquiatricos, em bordas e cercas em Belarus, no Mar Egeu… Por essa sangrenta lista de vítimas da República, que cresce dia após dia de abusos, torturas e execução, uma só palavra ecoa: VINGANÇA!

Ataque sem misericórdia as forças de seguranças

Fogo as casas, estações de polícia e ministérios

(Kevin Fernández, 2018)

No que já é um elemento bem estabelecido entre anarquistas gregos, o comunicado encerra com uma nota em homenagem ao anarquista chileno Kevin Garrido Fernadez, que foi assassinado esfaqueado enquanto estava sob a custódia da polícia , em 2 de novembro de 2018.

Notas de Tradução

[1] – 17 Julho 2021.

[2] – Improvised Incendiary Devices

[3] Michael Reinoehl foi uma ativista antifacista, assassinado pela polícia de Portland em Agosto de 2020.

EUA: Janes Revenge – Grupo reivindica ataque incendiário contra organização anti-aborto em primeiro comunicado [10.05.2022]

“Nós estamos na sua cidade. Nós estamos em todas as cidades.”

Nos Estado Unidos o fascismo avança a passos largos. Nas últimas semanas, mulheres e a juventude trans, têm sofrido duros ataques em forma de manobras legais, que não tem outro objetivo além de perseguir e facilitar o extermínio, judicial ou extra judicial, de todes que resistam ao projeto de poder do cristofascismo.

Nesse cenário, com a extrema direita se preparando para revogar o direito ao aborto em vários estados, e o acirramento da violência contra clínicas e profissionais de saúde, um grupo chamado Janes Revenge surge reivindicando o ataque incendiário contra a sede de um grupo anti-aborto de Ohio.

“Se os abortos não estão seguros, então vocês também não estão”

“Primeiro Comunicado.

Essa não é uma declaração de guerra. A guerra está sob nossas cabeças há décadas. Uma guerra que nós não queremos, e não provocamos. Há muito temos sido atacadas por reivindicar o mais básico tratamento médico. Há muito temos sido alvo de balas e bombas, forçadas a parir.

Isso foi apenas um aviso. Nós exigimos o desmantelamento de todos os estabelecimentos anti-escolha, as clínicas falsas [1], e os violentos grupos anti-escolha dentro dos próximos trinta dias. Essa não é uma mera “diferença de opinião” como alguns tem dito. Nós estamos literalmente lutando por nossas vidas. Nós não vamos aguardar sentadas enquanto somos assassinadas e forçadas a servidão. Nos sobra pouca paciência ou misericórdia por aqueles que querem nos arrancar o pouco de autonomia que nos resta. Enquanto vocês seguirem bombardeando clínicas e assassinando médicos impunemente, nós também devemos adotar táticas mais extremas para manter a liberdade de nossos corpos.

Nós somos forçados a adotar uma condição militar mínima para a luta política. Novamente, esse foi apenas um aviso. Na próxima vez a infraestrutura dos escravagistas será posta abaixo. O imperialismo médico não vai encontrar um inimigo passivo. Wisconsin é o ponto de partida, mas nós estamos em todos os cantos dos Estados Unidos, e não haverá mais avisos.

E nós não iremos parar, nós não vamos recuar, nem vamos hesitar em atacar até que o inalienável direito de decidir sobre nossa própria saúde nos tenha retornado.

Nós não somos um grupo, mas muitos. Nós estamos na sua cidade. Nós estamos em todas as cidades. Sua repressão apenas fortalece nossa cumplicidade e nossa vontade.

– Janes Revenge”

[1] Diversos grupos anti-aborto tem criado clínicas que cooptam a linguagem das clínicas de planejamento familiar, para confundir as mulheres e convence-las a não abortar.

A História de Jane – O nome do grupo militante, é uma referência direta ao Janes Collective, um grupo clandestino de mulheres que aturaram em Chicago, nos anos 70, quando o aborto ainda era ilegal. Elas ajudavam outras mulheres, especialmente as mais pobres, que precisassem interromper a gestação. Tinham uma infraestrutura de apoio emocional para as pacientes e familiares. Foram 11.000 mulheres atendidas e apenas uma morte, de uma moça que já havia chego até elas, após tentar métodos abortivos em casa. Para saber mais sobre a história do Coletivo, ouça o Cool People Who Did Cool Stuff.